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Vanessa
Freitag
Brasil
vivendo em León . México
36 anos . artista

Nasci na cidade de Santa Rosa, interior do Rio Grande do Sul, Brasil. Meus pais eram pequenos agricultores e eu lembro bem da minha infância vivida perto das plantações de arroz e soja, brincando com os animais, cuidando da horta e dos rios de água doce. Gostava de desenhar: usava carvão e pedacinhos de mandioca que quando secos, me permitiam rabiscar as paredes da casa e do galpão. Mas também lembro da minha mãe fazendo crochê para enfeitar os panos de prato e eu, querendo aprendê-lo. O gosto pelo desenho me motivou a estudar Artes. Me especializei em escultura e o barro sempre foi meu principal meio de expressão. Depois, me tornei professora. Cheguei no México para continuar meus estudos e adotei este lugar como minha segunda terra. Hoje continuo meu trabalho como professora de artes no contexto universitário, e foi nesse processo de ensinar e aprender, que me levou a retomar a produção artística. Mas como o trabalho docente e a maternidade tomam demasiado tempo e energia, também demorei bastante tempo para descobrir que precisava retomar meu trabalho com a arte. Decidi começar por algo que me conectava com as pessoas queridas da minha família, com temas que evocassem o espaço vivido na minha infância. Assim foi como cheguei com o crochê, o bordado e a costura.

Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

No momento, as agulhas e linhas são minhas principais ferramentas de trabalho. Costuro, bordo, faço crochê. Talvez num futuro próximo, volte a desenhar e a trabalhar com o barro, porque há esse desejo. Mas no momento, a linguagem têxtil é a que predomina e sinto que é a que mais se adapta com as coisas que sinto, vejo e quero expressar na atualidade. Gosto de explorar e aprender várias técnicas usadas no artesanato têxtil e trabalhá-las alternadamente nas peças que crio. Por isso, cada novo trabalho é sempre um desafio.

Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

As paisagens me inspiram muito: sejam urbanas ou campesinas; cotidianas ou de algum lugar novo que conheço. Busco inspiração nas plantas. Elas me ajudam a pensar. Também na música, já que me conecta com algumas sensações e assim, consigo me concentrar nas imagens que gostaria de criar. Livros e biografias de artistas e de artesãos sempre são uma inspiração. Visitar exposições artísticas também. Gosto muito de pesquisar e conhecer novos criadores, especialmente, artistas populares e artesãos. Foi através do contato com artesãos e com o artesanato mexicano que consegui me interessar pela cor e incorporá-la no meu processo criativo. É muito apaixonante o modo como esses criadores conseguem usar a cor em suas obras sem medo e de forma espontânea. Ou de como a cor está relacionada com códigos culturais e simbólicos de cada contexto deste país.

Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

É bastante intuitivo e às vezes, preciso me esforçar um pouco para não cair na tentação de pensar demais no que quero fazer e no que significa cada coisa que faço. Me guio por imagens mentais que aparecem em momentos distintos do meu dia: geralmente, quando estou realizando alguma atividade de rotina, ou descansando, ou lendo. Então, costumo esboçar rapidamente a ideia do objeto, as possíveis cores, e os materiais ou técnicas que poderia usar para o trabalho. Sempre vejo a imagem do trabalho completo na minha cabeça, embora nem sempre se materialize como tal na prática. Algumas vezes, essas imagens ficam por muitos dias nos meus pensamentos e só desaparecem quando começo a trabalhar nelas. Como tenho pouco tempo do meu dia para produzir (sou mãe e professora de tempo “repleto”), imaginar antes o que quero fazer potencializa meu tempo de criação das peças.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Todos os dias, costumo pesquisar trabalhos de artistas e de artesãs pela internet ou em livros especializados. Gosto bastante de aprender com os demais e muitas vezes, conheço histórias de vida que me inspiram. Quando estou cansada, e vejo o trabalho de alguma artista, isto me motiva a retomar algum projeto que teve que esperar ou a começar algo novo. Desenhar sempre é o recurso que uso para plasmar alguma ideia, independente do lugar em que esteja. Escrever também, especialmente, coisas que sinto, que observo, que reflito. No meu caso, que não me dedico completamente ao trabalho artístico, busco estratégias para pensar nele ou avançar em alguma proposta mesmo quando não me encontre fisicamente no ateliê.

Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto muito dos meus trabalhos antigos que tinham a co-participação de pessoas no processo de criação. Penso que essa é uma forma de aproximar mais as pessoas do mundo artístico, de potencializar o nosso lado criador porque todos podemos criar algo com as nossas mãos e com os nossos pensamentos. Mas no momento, estou trabalhando na serie “Espaço Interior”, que é um projeto de instalação têxtil. Nessa serie, busco construir objetos que nascem de um sentimento ou emoção que sinto (alívio, medo, alegria, dor), os quais, dou forma através da costura, bordado, e de algumas técnicas da cestaria. E como quero que tenham um acabamento o mais impecável possível, me tomam mais tempo em construí-los. E fico mais tempo trabalhando num único objeto. Talvez por isso, sinto mais apego afetivo a eles.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tive um momento decisivo na minha vida que detonou a necessidade de voltar a criar, que foi quando meu filho manifestou uma doença congênita cujo tratamento, será para toda uma vida. É reaprender a viver com essa ideia, buscar formas de lidar com a doença. Passar por peregrinações em hospitais, procedimentos médicos e conviver com as medicinas. Também foi num período em que começava a questionar meu trabalho como docente e a buscar formas para me conectar de novo com meu lado mais intuitivo. Então, foi um momento de crise. E tecer, crochetar, bordar, costurar foi um mecanismo para criar uma realidade paralela àquela vivida nos hospitais. E me sentia mais fortalecida, foi uma forma de terapia também.

Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Gosto muito de acompanhar o trabalho de artistas emergentes, especialmente, das escultoras e artistas têxteis. No momento, me influenciam muito o trabalho de artistas que acompanho e sigo no Instagram. Tem sido um espaço muito amável e acolhedor para mim. A comunidade de artistas, artesãs e criadores têxteis é muito grande, encontro pessoas de todo o mundo que trabalha alguma técnica ou linguagem têxtil. Me inspiram suas histórias e seus trabalhos. No momento, estou lendo sobre o trabalho de Ruth Asawa, de Sheila Hicks e de Louise Bourgeois, especialmente, no que se refere à escultura. Da pintura, me senti muito influenciada pelo trabalho de Hilma af Klint e de como empregou a cor para falar das dicotomias, do mundo espiritual e terrenal. Também gosto muito do trabalho das arpilleras chilenas, das artistas ñanduti do Paraguai, das bordadeiras de Goiânia, das bonequeiras do Ceará; aqui do México, me influenciam muito as tecelãs que trabalham em tear de cintura, e a cestaria indígena que encontramos na região norte do país.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim, me sinto livre para me expressar abertamente no meu trabalho artístico, e é justamente esse aspecto, o que mais me fascina do mundo da arte. Acho que as barreiras começam quando encontramos dificuldades para expor o trabalho, mas ainda não sei se é mais pela característica do trabalho mesmo, pelo tipo de trajetória que você tem, pelas relações que estabelece com pessoas e espaços ou pela questão de gênero unicamente. Acho que o mundo da arte é ainda um dos poucos espaços onde vemos maior inclusão de artistas de diferentes idades, etnias, identidades. E onde podemos nos expressar com liberdade. Mas também é certo que ainda vemos mais artistas homens no mundo da arte contemporânea (e no mercado da arte) que mulheres. E isto merece uma reflexão mais profunda sobre os aspectos que dificultam ou facilitam a trajetória de quem deseja criar e viver da arte, especialmente, quando se refere às questões de gênero.

Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

São coisas simples: estar com minha família, estar perto das plantas, estar em casa com meus livros. Amo quando posso ficar o dia inteiro no ateliê trabalhando, coisa que no momento, é rara. Por isso, quando há essa possibilidade, é o que mais me deixa feliz.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Acho importante a gente aprender a escutar a voz interior que temos todas, essa voz que nos impulsa a fazer coisas que sabemos que nos farão felizes ou que tornará a vida da gente mais significativa. E deixar de escutar a voz que nos reprime, que nos critica, que nos desanima. Às vezes, aprender isto é um processo muito longo e de muita paciência porque aprendemos primeiro a criticar a nós mesmas e depois, as demais. Então, eu diria que é importante começar já, mostrar o trabalho, não ter medo das dificuldades, buscar fazer o melhor sempre, não se acomodar. Também considero importante que as mulheres se apoiem mutuamente, que ajudem a comprar o trabalho criado por outras mulheres, ou a difundi-lo em distintos meios, ou a incentivar inclusive com palavras positivas, que as animem. Porque críticas não construtivas a gente recebe e escuta o tempo todo, de todos os lados. É importante aprender a ver que o trabalho realizado por cada pessoa, por cada mulher nesse caso, é valioso e merece respeito.

Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
Vanessa Freitag por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou trabalhando numa nova instalação, que é a que mencionei anteriormente “Espaço interior”, e que tem a ver com a materialização de sentimentos e emoções diversos. Nesse projeto de instalação, pretendo fazer objetos e esculturas tomando como base, a linguagem do crochê e da cestaria. Também estou reciclando roupas velhas para construir as peças. Pretendo que haja a participação das pessoas nesse processo através do compartilhar de algum relato ou história sobre alguma dificuldade vivida e como a superou. A ideia é reunir esses relatos, que podem ser anônimos, para conformar parte da instalação. Se quiserem participar ou conhecer mais de perto os detalhes do trabalho, me escrevam: freitag.textilart@gmail.com

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