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Tatiana
Rajzman
Brasil
vivendo em Miami . EUA
35 anos . artista

Eu sou formada em Moda e trabalhei na indústria durante alguns anos. Quando engravidei do meu filho, decidi pausar minha carreira para me dedicar, de forma integral, à maternidade.

Após 2 anos, imersa na função exclusiva de mãe, eu senti uma necessidade enorme de produzir. Produzir algo que iria expressar tudo o que eu tinha experimentado durante aquele período de reconstrução ou mesmo renascimento do meu eu.

Eu entendo a maternidade como um momento ambíguo, de nascimento e morte, onde nasce um novo ser e dá-se fim à mulher “singular”. E nesse momento de total desconstrução do que acreditava ser, de transformação e adaptação de uma nova vida, de uma nova identidade, eu me redescobri artista.

Tatiana Rajzman por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Quando comecei a produzir arte, eu utilizava canetas e papel Canson. Atualmente minha técnica inclui tanto canetas em papel quanto acrílico em tela.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A minha maior motivação é o fato de acreditar que quem cria, transforma! Eu enxergo arte muito além da estética. Eu vejo arte como forma de instigar o imaginário humano e até mesmo recriar a nossa realidade. Eu sou encantada pelo poder transformador das formas geométricas. Eu acredito que elas possuem uma potência de criação infinita e elas são a minha maior inspiração. É através delas que eu desconstruo situações e objetos, para assim transformá-los em algo novo.

Tatiana Rajzman por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Eu vejo potência artística em tudo que me cerca. Meu olhar é extremamente criativo. Como uma criança, eu enxergo possibilidades infinitas em todas as coisas. Eu costumo então analisar aonde estou e visualizar maneiras de desconstruir e transformar certos objetos e situações através dos meus desenhos e minhas telas. Às vezes, até a imagem do plano superior de uma mesa posta, se torna material para um quadro. E desconstruindo para poder reconstruir, eu transformo o público, antes mero espectador, em parte criadora de significados.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Para me manter criativa eu procuro sempre enxergar o mundo através do olhar infantil. Eu acredito que quando somos crianças, não temos tantas amarras, não temos tantos preconceitos. E assim nos permitimos explorar e criar de forma livre. Minhas ideias sempre partem do seguinte questionamento: “como meu filho enxergaria isso?”. Acho que está aí o segredo da criatividade.

Tatiana Rajzman por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Eu tenho uma paixão pela minha primeira tela nomeada “Telescope”. Eu sou autodidata, e após alguns meses usando apenas desenhos como instrumento de criação, eu resolvi me desafiar a pintar minha primeira tela. Meu maior receio era não conseguir ter o mesmo controle sobre o material, no caso a tinta, como eu tinha com as canetas. E eu passei um bom tempo analisando a melhor forma de concretizar a ideia que eu tinha em mente. Após quase três meses de processo, eu finalizei a minha primeira tela, o que me permitiu entender que podemos ser capazes de atingir qualquer objetivo, só precisamos de tempo, empenho e persistência.

Tatiana Rajzman por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Eu diria que o momento que me fez parar de enxergar meu trabalho apenas como hobby e ter coragem de me expor, foi quando me descobriram (através de um produtor de uma das feiras de arte da semana do Art Basel Miami) e me convidaram para participar das exibições que ocorreriam na semana do Art Basel. Eu me lembro da sensação de pânico em me imaginar apresentando o meu trabalho diante de milhares de pessoas desconhecidas. Afinal, é muito mais confortável “criar” para nós mesmos do que para o Mundo. Eu acredito que, naquele momento, se eu não tivesse mergulhado de cabeça, eu provavelmente não teria descoberto meu propósito ou, sequer, teria continuado a pintar. Eu vejo que todo o processo pelo que passei, do dia que comecei a desenhar, do arriscar a usar as tintas, a primeira exposição, me fez uma artista muito mais liberta! Muito mais confiante e sem medo de arriscar e me expor.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Por incrível que parece eu fiz um caminho inverso do que eu considero normal ou natural no caminho da criação. Bem no início do meu trabalho, eu evitava a qualquer custo, olhar ou me inspirar por qualquer “arte” já concebida. Eu sentia uma necessidade extrema em preservar os inputs artísticos que outras obras poderiam influenciar na minha criação. Eu acreditava que, para descobrir meu blue print, a minha “marca”, eu precisava caminhar só.

Quando eu senti que minhas raízes já estavam desenvolvidas, eu então parti para pesquisas sobre arte geométrica e me encantei pelo movimento Suprematista fundado pelo pintor de origem russa Kazimir Malevich. “A supremacia do sentimento puro na arte criativa” é uma ideia que me encanta! Afinal de contas, qual seria a razão maior das artes se não o despertar de sentimentos?

Tatiana Rajzman por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim, eu acredito que sim. Mas, por incrível que pareça, eu enxergo este preconceito partindo, na maioria das vezes, das próprias mulheres. Percebo muitas de nós ainda ligadas a necessidade de seguir um certo padrão fixo. E quando vemos o outro seguindo o oposto, ou fazendo diferente, crucificamos! Como consequência, vemos muitas mulheres com medo de aceitar e expor suas próprias ideias. Se camuflando de inverdades pelo medo do julgamento da sua real essência. E o resultado disso é que, apesar de estarmos em 2018, ainda temos muito poucas de nós na liderança de cargos, em posições de prestígio, lançando tendências e movimentos, justamente pelo medo de se expor. Eu acho que é hora de queimarmos essa venda do medo e da crítica e acreditarmos em nosso potencial. Em sermos verdadeiras com nossos propósitos e nos unirmos.

Eu mesma, até muito pouco tempo atrás, sentia muita vergonha de expor minha arte e meus textos com receio do que o OUTRO iria achar. É um ranço de uma criação extremamente crítica e podadora que não cabe mais nos dias atuais.

// E o que te faz feliz?

O que me faz feliz é poder continuar criando e instigando a visão criativa dos que me cercam. É poder criar meu filho com a consciência de que tudo poder ser mágico, até mesmo quando crescemos. É uma simples questão de escolha do que vamos decidir enxergar.

Tatiana Rajzman por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Eu acho que tudo tem a ver com o treino do olhar criativo, olhar infantil. É tentar ver a vida através dos olhos de uma criança. Sem julgamentos, sem restrições. É enxergar a vida de forma mágica, aonde você tem o poder de executar o show, onde você é também o criador.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim. Eu estou lançando meu e-commerce através do meu site www.trajz.com. Eu acredito que o marketing digital está revolucionando o comércio de inúmeras formas. E uma delas é dando possibilidade a qualquer pessoa de se tornar um empreendedor. E nós, artistas, podemos ser muito beneficiados através desse movimento. Se antes ficávamos à mercê de galerias e feiras de arte que, na maioria das vezes cobram preços exorbitantes para expor sua obra, agora qualquer um, independente do tempo de atuação, poderá promover seu trabalho de forma livre e poder lucrar com isso. A ponte de ligação entre o artista e o colecionador, não será mais limitada à galerias físicas. E o mais significativo, para mim, de toda esta mudança, é o fato da propagação do seu trabalho poder ser muito maior.

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