m
Suzanna
Schlemm
Brasil
vivendo em Darien . Connecticut . EUA
48 anos . artista

Carioca de nascimento, do mundo por vocação.

De manhã, café; à noite, vinho tinto. Entre uma coisa e outra, exercício, pintura, cachorros, filhota, marido, e alguns perrengues inevitáveis, que é melhor tirar logo da frente.

Vivo encantada pela beleza – do mundo, das histórias, das pessoas, das imagens, das ideias.

Meus amigos são meus heróis.

Muito agradecida por fazer parte dessa geração que gravou fita-cassete e sacudiu o orelhão que engoliu a ficha, mas que agora ouve música direto da nuvem e vive plugada no Instagram.

Entendi recentemente que presente e futuro são invenções humanas: na perspectiva do universo, só existe frequência e vibração.

A vida nem sempre é fácil, mas é sempre, sempre bela.

Poesia é tudo, simplesmente.

Suzanna Schlemm por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Primeiro o coração, depois os olhos e as mãos, que buscam logo o lápis, fiel escudeiro. Os pincéis chegam sempre por último e depois levam a fama.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Tem uns troços sem nome no mundo, e é isso que eu quero tocar.

Sinto que as imagens têm o poder de resgatar um pouco do que a gente perdeu quando inventou a linguagem das palavras - uma invenção recente, e exclusivamente humana. As imagens são eternas e universais. Ninguém pode dizer qual o tamanho da mente, mas todo psicólogo concorda que o consciente é a menor parte. O que importa, o que melhor nos define, está lá atrás desse véu de palavras, e é lá que eu quero brincar.

// Como é o seu processo criativo?

Para mim é impossível separar a pintura do resto da minha vida. Vou andando por aí reparando no mundo à minha volta. O rodopio das carpas no tanque, o jeito como a luz lava a filhota no banho, um céu de estrelas refletido na água, a poesia de um envelope carimbado, de um passarinho no fio... enfim, nada de especial, essas coisas que todo mundo vê, mas que cada um repara de um jeito individual. Através de fotos, pequenos desenhos e anotações eu vou catando essas imagens como quem cata conchinhas, guardando tudo no Moleskine, sempre na bolsa. Do Moleskine para a tela é um pulo.

Suzanna Schlemm por Projeto Curadoria
Suzanna Schlemm por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Bom, o que eu deveria fazer, né? Quando a sua própria criação se torna o seu trabalho principal, é vital preservar um espaço para um fazer descompromissado, que é a faísca de tudo. Isso pode ser feito de infinitas maneiras: levar um papo com o caderninho (sempre o caderninho), desenhar, jogar conversa fora com uma colagem, experimentar com uma técnica nova, até mesmo ler um bom livro, de preferência longe de casa, em um café por aí. Passar um tempo sozinha, seguir a curiosidade, o interesse, o próprio nariz, honrar o sentimento original que me levou para a pintura há quase vinte anos atrás.

O desafio é incluir esse momento playground no dia-a-dia. Quando consigo, nunca me arrependo.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Eu tenho um projeto que foi um divisor de águas na minha vida. Primeiro porque me possibilitou fazer um workshop com o meu pintor preferido. Segundo e ainda mais importante, porque iluminou o meu caminho na pintura a longo prazo. Foi o Projeto Kanevsky, e foi assim:

Era uma vez eu em 2016, no meu malabarismo de sempre, tentando ser pintora e pagar as contas, numa fase especialmente difícil de grana. Eu estava oferecendo um curso no Rio de Janeiro e, ao mostrar para meus alunos o trabalho do incrível Alex Kanevsky, meu pintor favorito, fiquei sabendo que ele estava oferecendo um workshop de uma semana em Madri. Seria lindo, pensei, mas impossível. Apesar dessa clareza, fui em frente mesmo assim e fiz a minha inscrição no curso, no melhor estilo “a possuída”. O pensamento racional era “não vou passar mesmo, e mesmo que passe não vou poder ir”. Dei “send” no formulário online e segui com a vida, sem pensar (muito) no assunto. Um mês depois recebi o e-mail me parabenizando por ter passado na seleção.

Como pode uma mesma notícia deixar uma pessoa ao mesmo tempo tão feliz e tão triste? Feliz por ter passado: foram mais de 600 inscritos e o curso era para apenas 25 alunos. Mas muito triste pois era um projeto impossível, eu realmente não tinha condições de bancar a viagem. Bati em todas as portas ao meu alcance: a família, na época, não pôde ajudar em nada. Meu marido estava sem trabalho. E o banco só faltou rir. Não havia o que fazer a não ser lamentar e desistir. Eu me sentia dilacerada, a coisa tinha uma importância enorme, que eu não conseguia explicar direito nem para mim mesma. As semanas passavam e eu não tinha nem coragem para informar à coordenação que eu não iria participar, e nem dinheiro para pagar a passagem. Não conseguia nem aceitar e nem resolver, estava catatônica. Depois de muito tormento, num misto de raiva e de tristeza, eu finalmente aceitei que não ia rolar. E nesse exato momento, mais precisamente às 4 horas da manhã desse dia, sentada no beiral de casa em São Paulo com meus cachorros, essa aceitação liberou minha cabeça para os pensamentos e sentimentos mais absurdos, um troço difícil de explicar. Imediatamente me ocorreu a seguinte sandice: “se eu pudesse virar a direção do tempo, eu poderia vender as pinturas que eu sei que vou pintar depois que fizer o curso, então essas pinturas bancariam o próprio curso em si.” E esse pensamento disparou uma série de outros pensamentos que começaram a tomar uma forma muito nítida. Fiquei com medo de esquecer a ideia como quem esquece de um sonho. Fiz um café forte, corri para o computador e escrevi um dos e-mails mais sentidos e honestos da minha vida. Às 5:30h da manhã eu reli a mensagem uma única vez e achei uma loucura. Sabia que se eu lesse uma terceira vez eu mudaria de ideia. Fechei o olho e apertei enviar às pressas, enviando a mensagem apenas para toda a minha lista.

Basicamente, o que eu propus no e-mail foi o seguinte: “queridos amigos, por favor comprem AGORA a reprodução de uma pintura que eu não pintei ainda para que eu possa ir até Madrid pintá-la e só DEPOIS te entregar o que você acabou de comprar. Sei que é esquisito mas tudo bem, a ordem dos fatores não importa e o tempo não é uma linha reta. Segue minha conta para depósito.”

O que aconteceu depois foi um dos momentos mais lindos e significativos da minha vida. Em 48 horas eu já tinha o dinheiro para a viagem.

Fui para o aeroporto sentindo que, mais do que o curso em si, o verdadeiro prêmio foi a forma como tudo aconteceu. Todo mundo entendeu a minha loucura, se emocionou, ficou feliz em participar. Minha iniciativa meio que sonâmbula daquele dia iniciou uma corrente de apoio, de alegria, de emoção. As pessoas queriam ser parte daquilo, do MEU sonho, do MEU aprendizado. Muita gente que eu nem conheço recebeu o e-mail de amigos em comum e participou também, o que foi especialmente emotivo para mim. Nunca me senti tão amparada na vida. Passei aquelas semanas em um estado de êxtase e gratidão, estava constantemente à beira das lágrimas. Até hoje eu me emociono profundamente quando falo no assunto. A mensagem era clara: o Universo é um lugar mágico. O que atrapalha a mágica é a nossa incredulidade.

O projeto foi um sucesso. Fui a Madri, conheci meu ídolo da pintura, fiz o curso (que foi vital para o meu trabalho) aprendi o que eu precisava aprender, voltei, fiz a pintura que seria reproduzida em mais de 200 impressões, assinei uma por uma e enviei para todos os participantes via Sedex. Missão cumprida - mas a semente que ela plantou em mim tinha apenas começado a germinar.

Sabia que havia tocado de leve em algo potente, muito maior do que eu mesma. Sentia claramente que tinha nas mãos as peças para montar uma forma diferente de existir como artista, mas não sabia como encaixá-las. Vislumbrava os contornos de um outro projeto, que não fosse pontual mas sim recorrente, e que oferecesse uma contrapartida mais generosa do que simplesmente uma gravura. Queria mais dessa troca, queria receber mais e dar mais ainda, muito mais. Queria utilizar aquela fonte de energia em outro motor, mais sustentável, com mais fôlego. E foi a partir dessa visão, ao mesmo tempo certeira e nebulosa, que nasceu o Projeto Andorinha, que é “O” projeto da minha vida. E que, assim como eu, não tem data para terminar.

Suzanna Schlemm por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Sem dúvida, o Projeto Andorinha.

O projeto é simplesmente um grupo de pessoas que topou fazer uma troca comigo: através de uma plataforma online, cada um faz uma contribuição mensal no valor que desejar. E, em troca, pode comprar qualquer pintura minha pela metade do preço - descontando todas as próprias contribuições. Ou seja, o participante aproveita 100% da sua própria contribuição. É o tal “tem que ser bom para os dois lados” na sua forma máxima. Cada Andorinha compra sua pintura ou encomenda em condições únicas. E eu ganho paz e segurança para produzir. E assim, como dois lados que se complementam naturalmente, todos ganham uma conexão cheia de significado.

O projeto não apenas influenciou, mas definiu a minha trajetória, e vice-versa. Ao invés de tentar seguir o caminho insustentável oferecido ao artista (concurso, prêmio, galeria, emprego de dia, pintura de noite), eu inventei um caminho novo, calcado na força do bando. Ao invés de dar comissão à galeria, eu repasso essa comissão diretamente ao meu comprador, que verdadeiramente me apoia. E ao invés de seguir as regras de um jogo impossível de ganhar, eu mudei as regras de acordo com meus próprios valores.

Todo artista e aspirante a artista já nasce ouvindo que é “impossível viver de arte.” Quantos talentos nunca viram a luz do dia em função dessa afirmação? Quantos tantos outros sucumbiram tentando? Sim, é mesmo impossível viver de arte nos moldes que conhecemos. Bora inventar outros modelos, outros formatos? O projeto Andorinha é a minha tentativa e a minha contribuição. É também a minha resposta teimosa e mal-educada à rigidez do mundo como conhecemos hoje.

Suzanna Schlemm por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Do passado, Degas. De hoje, Alex Kanevsky.

São artistas muito diferentes um do outro, mas vejo importantes elementos em comum no trabalho de ambos. Fazem tudo parecer simples esses dois.

Ambos são capazes de uma composição simples, elegante, aquela força muda. E, na pintura em si, a técnica feroz, absurdamente complexa, quase suja e mesmo assim impecável. Coragem em camadas. Abandono e elegância, simplicidade e complexidade, tudo em doses complementares. É tudo o que eu busco fazer. Vou morrer tentando.

Tive a sorte e a alegria de ter conhecido e aprendido com um deles.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

No meio artístico esse machismo é menos evidente hoje, mas isso não quer dizer que não exista. Quando eu era redatora em agência de publicidade, o machismo era onipresente e sufocante. Todas as mulheres no mundo corporativo têm o trabalho duplo (e quase sempre invisível) de realizar o trabalho em si e, ao mesmo tempo, estar em constante estado de força isométrica para manter limites minimamente saudáveis nesse espaço. “Matar um leão por dia é fácil, difícil é desviar das antas.” Quando a gente vira mãe então isso piora ainda mais: o mundo espera que a mulher trabalhe como se não tivesse filhos, e crie os filhos como se não trabalhasse. A conta não fecha.

Suzanna Schlemm por Projeto Curadoria
Suzanna Schlemm por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Minha filha. O bom dia dos meus cachorros. Uma pintura que vai bem do começo ao fim (raro...) Quando o que eu estou fazendo está dando certo, seja lá o que for. Minha família de Andorinhas. Sentir minha cultura pulsando em mim enquanto vivo em outro país. Natureza. Livros. Brigadeiro branco.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Ouça a tudo e a todos, mas ouça você mesma primeiro e por último.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

O projeto novo é, na verdade, atualizar o antigo. O projeto Andorinha precisa de um material novo que o defina melhor: novo filme, novo texto, novas histórias. E depois precisa ser traduzido, divulgado, melhorado. Não é apenas um projeto, mas sim um novo jeito de comprar e viver de pintura. O trabalho está apenas começando.

Suzanna Schlemm por Projeto Curadoria
COMPARTILHE
b
//+entrevistas