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Paula
Luchiari
Brasil
vivendo em Americana . SP
36 anos . artista

Desde muito pequena gosto de jardins descuidados, das casas velhas, de inventar nomes para insetos e plantas. Idealizava cabanas de folhas com passagens secretas, colecionei cadernos de coleta no qual eu desenhava as flores do jardim da minha mãe. Fiz inúmeras roupas para bonecas de papel e construí casas para tatus-bolinhas.

Em 2001 ingressei na Universidade Estadual de Londrina, no curso de Estilismo em Moda, onde aperfeiçoei minhas técnicas de desenho e ilustração. No terceiro ano de faculdade engravidei, tranquei meu curso, e voltei para Americana com a expectativa de retornar à Universidade assim que possível, o que, naturalmente, não aconteceu. Meu primeiro filho nasceu em 2004, Antônio, e em 2009 me formei em Tecnologia Têxtil em Americana e, naturalmente, trabalhei por muitos anos na indústria têxtil, nas áreas comercial e de desenvolvimento, especificamente de tecidos seda. Nesse período desenvolvi um olhar apurado para texturas e cores, habilidades de comunicação e negociações. Fiquei 13 longos anos sem desenhar, porém, nunca deixei de escrever, durante os poucos minutos diários nos quais eu conseguia ficar sozinha. Dez anos depois do meu primeiro filho, em 2014, tive uma filha, Helena, e dois anos depois eu e o pai dos meus filhos nos separamos.

Durante os anos em que trabalhei na indústria têxtil, me esforcei para entregar minha essência em meus trabalhos. Nunca consegui compartilhar meu olhar, meus valores ou minhas vontades nas empresas nas quais trabalhei. Há um ano senti que não conseguiria mais me adequar e pedi demissão. Há nove meses comercializo minhas ilustrações.

Percebi que estive por muito tempo nos lugares errados, tentando dialogar com as pessoas erradas. Ali, naqueles ambientes, muito pouco frutificou. Hoje compreendo a necessidade de caminhar perto de quem acredita em mim e nos meus sonhos.

Paula Luchiari por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Nunca deixei de escrever, a escrita sempre foi minha companheira e, embora eu ainda escreva muito para mim mesma, atualmente, a ilustração é minha principal ferramenta de expressão.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Criar é um recurso de autoconhecimento e cura. Hoje crio por respeito a mim mesma, e por respeito ao que sinto e preciso expressar. Pessoas e vínculos me inspiram. Me reconhecer no outro, admirar, me conectar e sentir afeto. Pertencer. Aceitar minhas feridas, meus (enormes) erros, meus abandonos, meus jardins descuidados. Resistir. Ser livre para me comunicar me motiva e também me inspira.

Paula Luchiari por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Quando comecei a fazer as miniaturas, eu representava pequenas alegrias em caixinhas, para o meu melhor amigo e companheiro. Eu não saberia produzir algo que não envolvesse afeto. Então eu me envolvo. Normalmente as encomendas que recebo são de pessoas que querem presentear amigos especiais (exatamente da maneira que eu comecei!). Portanto procuro entender mais sobre essa relação, suas histórias, seus marcos. Livros, filmes e músicas preferidas. É como se eu me convidasse para participar desta amizade.

Existem também as ideias que não saem da minha cabeça e que, normalmente, crescem junto com suas estórias. Caminham juntas: a imagem e sua narrativa. Durante semanas, meses... Algumas vezes eu me esqueço delas, o que é fundamental, até o momento de colocá-las no papel e, nesta ocasião, ficar sozinha, ouvir música e danças libertadoras sempre ajudam.

Se a narrativa é verdadeira, se ela aconteceu de fato, para mim tanto faz. O importante é que eu sinta a presença dela, que ela exista e seja intensa, ainda que, somente, dentro de mim.

Paula Luchiari por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Depois de muitos anos tentando me insensibilizar, permaneço sensível e vulnerável. Sentir, me envolver e criar conexões são, hoje, minhas maiores qualidades e fontes de criatividade.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Minhas casas abandonadas são, sem dúvidas, meus trabalhos preferidos. Elas refletem a individualidade do meu trabalho. Através delas consigo mostrar quem eu sou, assim, descascada e mal construída, invadida por esse jardim descuidado.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Há um ano, quando saí do meu último emprego, eu tive tempo livre, pela primeira vez em muitos anos. Eu e o pai dos meus filhos alternávamos a guarda das crianças, então, eu tinha dois ou três dias livres por semana nos quais eu conseguia ficar sozinha. Reencontrar comigo mesma foi crucial. Eu precisava falar sobre abandono, mas não sabia como. Eu via uma beleza naquilo que havia dado errado, na minha vida, nas minhas perdas. Eu sabia que aquela sensação, aquele luto, seriam fundamentais para minha reconstrução. Foi quando eu edifiquei minhas primeiras casinhas abandonadas e não consegui parar mais.

Paula Luchiari por Projeto Curadoria
Paula Luchiari por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Vou falar de artistas que conheci recentemente, mulheres atuais, e que fazem trabalhos com estilos parecidos com os meus (papercut): Mar Cerdà, Nayan & Vaishali e Teresa Currea, são minhas preferidas, dentre outras. Em relação às miniaturas, admiro muito o trabalho da Mab Graves e Lorraine Loots. Eu acredito que admirar o trabalho de mulheres e ser admirada por algumas delas, e por tantas outras, é uma das minhas maiores fontes de inspiração e incentivo.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Ainda existe muito preconceito em relação a mulher se expressar, mas estamos trabalhando juntas para isso acabar, não? Sinto mais preconceito quando me expresso através da escrita, quando sou muito clara ou direta, ou quando me posiciono politicamente. Em muitos momentos percebo que ainda sou uma mulher inconveniente.

Paula Luchiari por Projeto Curadoria
Paula Luchiari por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Muitas coisas pequenas me fazem feliz: Sentir o nariz gelado da minha filha quando ela me beija de madrugada. Uma mensagem secreta. O presente que fiz para um amigo e que escondi na papelaria para, quem sabe, ele encontrar. Ganhar livros. As dancinhas estranhas que meu filho faz. Ter tempo para mim (momento mais raro). O simples, mas enorme, fato de Helena e Antônio existirem na minha vida.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Existem muitas mulheres incríveis fazendo trabalhos relevantes. Acredito que seja fundamental identificar-se com estas mulheres, permitir-se reconhecer nelas. Aceitar os erros como parte do processo, sem medo deles, mas, antes de tudo, acolher as avaliações positivas do seu trabalho.

Paula Luchiari por Projeto Curadoria
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