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Òkun
Brasil
vivendo em Goiânia . GO
artista visual

Sou uma artista goiana, e apesar de ser centro-oeste, o nome que a minha ancestralidade me deu foi Òkun, que significa “mar” em yorubá. Atuo há mais ou menos 5 anos na área, comecei minha trajetória através da música, passei pela fotografia e audiovisual até que me encontrei na pintura sendo atravessada por todas as linguagens que aprendi. Minhas pinturas retratam pautas como ancestralidade, memória, registro, espiritualidade, estética e cultura negra. Faço pinturas em técnica mista, as vezes utilizando conchas e tranças que já usei no meu orí. Pra mim a pintura foi como um reencontro, é o meu momento de cura, foco e força. Fui influenciada desde cedo a me expressar através da arte e desde então nunca soube me expressar de outra forma que não essa.

Òkun por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Depende muito da forma como a ideia ou sentimento quer sair de mim. Gosto bastante do processo intuitivo, utilizo o que aquela obra me pede. As ferramentas que mais uso são tintas à óleo e acrílica, assim como conchas e tranças de cabelo sintético. Tive um momento em que pintei bastante com pigmentos naturais como urucum, açafrão, terra, carvão, café e entre outros, e pretendo voltar a experimentar mais nessa área por admirar muito um processo criativo consciente, em contato maior com a terra.

Òkun por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha maior motivação para criar é saber que a minha arte cura, e não só a mim, mas muitas outras pessoas. Saber que existe algo além da minha compreensão que sabe que sem isso não há como existir nesse mundo. E que é possível contar histórias sem palavras. O que me inspira atualmente é principalmente as experiências que tenho com a espiritualidade, as descobertas, sonhos e reflexões. Tenho uma paixão enorme pelo gesto, pelo movimento capaz de curar, pelo ritualístico. E me inspira muito saber que dentro de mim há uma ancestralidade forte, cheia de histórias e potente em todos os sentidos que a cada pintura me revela algo novo. A potência e existência de todo um povo que é excelência em tudo que faz, isso me inspira.

Òkun por Projeto Curadoria
Òkun por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo é lento e intuitivo, consumo imagens e conteúdos a todo tempo mesmo sem querer, vou juntando bagagens, inspirações, reflexões e vou idealizando o que eu quero transmitir a partir disso, registrando em cadernos. Em alguns momentos surgem ideias súbitas, principalmente quando estou em contato direto com a espiritualidade, com plantas ou água.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Me manter criativa não é algo que vem em minha cabeça, confio muito na intuição e nos momentos certos em que a criatividade vem, mas quando realmente preciso criar e trabalhar, mexo um pouco em apps como o Pinterest, faço alguns projetos de composição com colagem digital, paro e observo a minha volta, e nisso vai fluindo.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Meus trabalhos preferidos são “No jardim das oliveiras” (dois pés descalços no chão, um deles com uma vela branca acesa entre os dedos) e “Berço” (um autorretrato). A primeira porque foi uma intuição que recebi dentro do terreiro, fui pedida para pintar essa obra e na mesma semana produzi. Ela se desdobrou em outros trabalhos e projetos, me fez perceber o meu encanto pelo gesto de cura, pelos gestos praticados dentro dos terreiros e a beleza por trás da magia. E a segunda obra foi o meu primeiro autorretrato, a primeira vez em que eu fui pintura, e é um retrato de infância, mais ou menos com 2 ou 3 anos de idade segurando um pincel e me orgulhando de uma pintura que eu tinha acabado de fazer. Essa pintura foi feita a partir de um retrato real, e acredito que conta muito sobre esses “destinos”, essas coisas que não tem pra onde a gente correr porque sempre esteve dentro de nós.

Òkun por Projeto Curadoria
Òkun por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O momento em que me tornei Òkun, com certeza foi o marco mais importante. Essa mudança de nome, um nome que ficou ecoando na minha cabeça até eu entender que ele era meu. Ele significa “mar” em yorubá, me assumi Òkun no início de 2019, e foi uma mudança de vida, de processos muito intensa. Descobri uma personalidade forte em mim, uma pessoa protegida, uma filha das águas com nome, um nome potente, uma pessoa que busca a cura, uma pessoa que também sabe ser cura. A partir daí meus trabalhos tomaram mais forma e mais presença.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tenho muitas influências, às vezes não sei nem o nome das pessoas de tanta imagem e conteúdo que costumo consumir. Mas se for pra ter nome, com certeza digo: Basquiat e Maria Auxiliadora. Acredito que essas duas potências percorrem meu trabalho a partir do momento em que construo e conto narrativas, estou aqui como uma pessoa preta que conta sua própria história, registra, marca. Coloco muito de mim ali, inclusive partes literais de mim (tranças e conchas), tudo pela memória que tiraram de nós.

Òkun por Projeto Curadoria
Òkun por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existe, mas o que mais me atravessa enquanto indivíduo é com certeza o marcador racial. Sinto que a invalidação da minha expressividade, do meu estudo e conhecimento estão sempre em luta para continuar, isso vindo de outras pessoas, e de crenças enraizadas em mim. A busca pela excelência o tempo todo para ser validada enquanto pessoas medíocres, fazem trabalhos medíocres e ganham toda a atenção. É um processo.

// 0-E o que te faz feliz?

O que me faz feliz é estar com os meus, sentar e ver o sol se pôr, brincar com meu cachorro, cuidar e aprender com as plantas, cuidar do meu orí, pegar leve comigo mesma.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

A única dica que consigo dar no momento é pra que saibam que a criação é sem limite, ela é um processo infinito e de autodescoberta muito grande. Trilhamos caminhos inimagináveis e quando vemos já estamos em lugares incríveis, admira o caminho. Busca sempre mais fundo em si, confia no seu potencial.

Òkun por Projeto Curadoria
// A pandemia que estamos enfrentando em 2020 afetou de alguma forma a sua produção?

Com certeza, sou uma pessoa ansiosa e com tendências depressivas há muitos anos e estar comigo mesma o tempo todo é um processo intenso. Com toda a preocupação, incerteza, tudo se intensifica, me vejo parada no mesmo lugar sem conseguir me mover às vezes. Meu processo de produção tem estado mais lento ainda. Mas o que tem de bom nisso tudo é que agora estou conseguindo compreender o que de fato é respeitar o meu tempo, entender que sim, eu também mereço cuidado.

Òkun por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Recentemente iniciei uma série de vídeos no IGTV, no meu Instagram @okunn.o aonde em cada vídeo as pessoas vão conhecer ume artista racializade novo, se chama PLURALIDADES. Carrego comigo que se eu estou aonde estou não é porque construí sozinha. E nós, pessoas racializadas, precisamos estar cada vez mais unidos para resistir à um sistema que nos mata diariamente. Esse projeto visa mapear, registrar e divulgar artistas racializades que estão produzindo na contemporaneidade, fazendo assim uma ponte entre os que viram aqui, pra também poderem ver o de lá. Os próprios artistas sendo os protagonistas de suas histórias.

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