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Mônica
Lóss
Brasil
vivendo em Ann Arbor . Michigan . EUA
artista visual

Gosto de pensar que falar sobre mim é como apresentar uma trama, uma tessitura composta por fibras e fios variados, construída com pontos imperfeitos, alinhavos e avessos que teimam em sair para fora, que está em constante feitura e, inacabada é sua condição permanente.

Essa trama pode ser vista por diferentes lados, mas hoje, vou iniciar apresentando-a por um dos começos possíveis.

Cresci em uma cidade pequena do interior do Rio Grande do Sul, chamada Soledade, onde vivi quase a metade da minha vida. Cresci praticamente sem contato com Arte, mas de alguma forma, sentia que levava comigo um modo particular de olhar para as coisas, algo que se assemelhava a um incômodo no olho, que só veio a fazer sentido mais tarde, quando ingressei no curso de bacharelado em Desenho e Plástica na Universidade Federal de Santa Maria, RS. A partir daquele momento, entendi que o incômodo no olho, também poderia ter outros nomes.

O curso de Artes Visuais foi o momento de construção de um urdume forte, feito de fios com cores e nuances variadas. Período que pude experimentar diferentes caminhos para construir minha poética, explorando mídias, suportes e possibilidades, sem perder de vista o aprofundamento na cerâmica como campo principal de pesquisa.

Concluí o bacharelado e no ano seguinte, a licenciatura, e com isso, um novo fio se juntava a trama: o meu interesse pela docência.

Em seguida, cursei uma pós-graduação em Design para superfície concomitantemente ao mestrado em Educação, ainda em Santa Maria. Novos fios, novas perspectiva e com isso, o têxtil passou a ser parte definitiva desta trama.

Ao finalizar o mestrado, fui para Barcelona cursar o doutorado em Artes na Universidade de Barcelona. Tempos de fios e das mais diferentes e inusitadas fibras se juntarem a trama. Tempos que a arte adormeceu em mim e quase esqueci de sentir o incômodo no olho. Esse incômodo voltou a despertar anos mais tarde, ao voltar para o Brasil e com a chegada da maternidade.

Ainda, uma nova mudança nos trouxe à Michigan, nos Estados Unidos, onde vivo e trabalho atualmente, como artista visual e designer. E estes últimos fios que se adicionaram à trama, fizeram o incômodo no olho despertar de uma vez por todas.

Construir uma trama é algo que leva tempo e, com a paciência daqueles que insistem, venho fiando minhas fibras, compondo e recompondo estruturas e dando continuidade a tessitura, que vai construindo quem eu sou neste processo contínuo de vida e arte.

Mônica Lóss por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Atualmente, minha fonte de pesquisa principal vem sendo o têxtil. Trabalho com uma variedade de materiais como linhas e lãs, cordas e plásticos, fibras e resíduos têxteis, tecidos e roupas que transformo em fios e combino à outros materiais como: acessórios, utensílios domésticos, pequenos objetos e tudo mais, que de alguma maneira, desperta a minha atenção

A tecelagem, a costura, o crochê, o bordado, o tingimento artesanal, a estamparia, são alguns dos caminhos que exploro na construção de múltiplas peças, pertencentes aos diferentes projetos e séries que desenvolvo de maneira simultânea e que estão em diálogo com outras linguagens como a fotografia, a performance, a instalação, o desenho e a cerâmica.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Muitas coisas são responsáveis por manter meu processo de criação em movimento, como o meu cotidiano, a literatura a natureza, entre outras.

Ainda existe um ponto central que perpassa minha prática artística, que é a busca por explorar a noção de refúgio. Investigar sobre os refúgios é uma inspiração e também, uma inquietação que me impulsiona à explorá-los sob diferentes aspectos.

Investigar os elementos formais relacionados aos refúgios a partir da observação da natureza no lugar onde vivo atualmente, é algo que instiga minha curiosidade, assim, os abrigos de animais, ninhos de insetos e pássaros são elementos de referência na criação de meus trabalhos.

Ainda, há outro aspecto que desperta meu interesse, que é pensar os refúgios relacionados aos corpos, humano/animal, como se fossem estruturas de proteção ou armaduras capazes de blindar tudo aquilo que pode ferir o corpo ou também, de aprisioná-lo.

E por último, explorar os refúgios a partir de seus aspectos simbólicos e abstratos, relacionados a extratos de minhas memórias e vivências como se fosse uma espécie de elo que me liga as raízes culturais do lugar de onde venho.

Interessa-me também, a relação dos fazeres manuais/artesanais, considerados como parte dos “fazeres femininos”, sendo estes também, um caminho para refletir sobre memória, deslocamento, pertencimento, identidades, ancestralidade feminina e modos artesanais de produção na contemporaneidade.

Mônica Lóss por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo foi se estruturando como se fosse uma espécie de trama (ela novamente!) ou rede, onde não existe um ponto central, porque vai acontecendo de maneira orgânica e não-linear.

Isso se deve ao fato de desenvolver minhas pesquisas organizando-as em séries ou projetos que podem acorrem de maneira simultânea. Elas não se concluem ou fecham, e sim, entram em um estado de pausa por algum tempo.

Em algumas ocasiões, trabalho em dois ou três projetos ao mesmo tempo. Por outras vezes, me dedico unicamente à um deles por semanas ou meses. Quando isso acontece, depois de trabalhar intensamente em somente um projeto/série, preciso me afastar do que produzi, tomar um pouco de distância, para pensar, escrever e até entender aquele processo. Em outros casos, os projetos são pausados devido ao material, ou falta dele, já que ele é proveniente, na maioria das vezes, do descarte, doações ou de “achados” em lojas de segunda mão.

Por outra parte, meu processo criativo diz respeito à exploração da noção de construção têxtil como modo de fazer e desfazer, buscando criar outros caminhos e rotas para utilizar técnicas, sem a preocupação de executá-las perfeitamente, e sim, extrapolá-las, e a partir delas, criar outras possibilidades para as construções.

Também utilizo muito a escrita. Sempre tenho à mão um diário onde anoto ideias, planejo e faço pequenos projetos, escrevo sobre o processo artístico e sobre como vou percebendo o mundo.

Mônica Lóss por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Muitas coisas são responsáveis por manter meu processo de criação em movimento: o cotidiano, a literatura, a música e a natureza são alguns deles.

Visitar exposições, museus e galerias também é algo que estimula muito minha criatividade. A pesquisa sobre processos artísticos de outras artistas, leitura sobre arte, história e cultura em geral e de outros povos são essenciais para mim.  E por último, mas não menos importante, viajar!!!

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

O projeto favorito é sempre aquele que eu estou trabalhando no momento. E o lado irônico é que logo o favoritismo se perde e o leva ao fim da fila.

Mas, para mencionar uma pesquisa, a série “Entre o mostrar-se e o esconder-se” que pertence ao Projeto Cabeças, foi um trabalho muito especial, que me encantou realizar e que iniciei logo no início da pandemia, em março/abril deste ano de 2020.

Destaco este projeto porque ele foi adquirindo diferentes configurações e desdobramentos. Primeiro na construção têxtil de máscaras/cabeças usando materiais dos mais variados do cotidiano (que era o que eu tinha para trabalhar durante o isolamento), depois, com a possibilidade de vestir estas cabeças em uma foto performance que realizei em um bosque perto de onde eu moro. Por último, na ativação das cabeças para a realização da performance “Bicho Raro” que aconteceu no fim de setembro na cidade de Ann Arbor, Michigan nos Estados Unidos, em parceria com a artista colombiana Natalya Restrepo (@natyrestreporestrepo) e a fotógrafa brasileira Mariana Kobal (@marianakobal)

Mônica Lóss por Projeto Curadoria
Mônica Lóss por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Um dos momentos que considero decisivo e definidor em minha trajetória foi ter ido para Barcelona cursar o doutorado em Artes. Me aventurar sozinha em um país onde eu não conhecia praticamente ninguém e não dominava o idioma, motivada pelo desejo gigante de alcançar um objetivo é algo que ainda me estremece. Foi um ato de fé e coragem e que se assemelha ao de quem pula no vazio, sem saber se existe uma rede de proteção para te amparar.

E por isso, destaco ainda, um segundo momento dentro deste mesmo contexto, quando defendi a minha tese de doutorado. Foi um dos momentos mais incrível que vivi, porque todo o processo para chegar até aquele momento foi desafiador em diferentes instâncias e um teste de limites físicos, mentais e emocionais, que ao final fez tudo valer a pena. Desta experiência aprendi algo valioso, que está presente em tudo que faço e principalmente, em minha prática artística, que é a necessidade de foco e disciplina em nossas práticas, sejam elas, quais forem.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

A natureza é algo que exerce uma influência muito grande sobre mim, principalmente desde que vim morar aqui em Michigan, onde as quatro estações são bem definidas, invernos muito frios e longos, primaveras rápidas e cheia de vida, verões com dias de muito calor e outonos coloridíssimos e dramáticos que me encantam. É maravilhoso ver o entorno se transformar e presenciar a vida cumprir seus ciclos, adormecer e renascer. Também, o meu cotidiano e as coisas banais da vida do dia a dia possuem um magnetismo que acaba me influenciando muito. Além disso, me sinto muito influenciada pelos livros que leio, este ano estou dedicada aos clássicos da literatura e tem sido algo muito interessante e tem me inspirado muito.

Tenho uma lista extensa de artistas (a maioria absoluta, mulheres, mas não somente elas) que são para mim fonte de inspiração, pesquisa e com quem meu trabalho dialoga em diferentes âmbitos. Interessa me muito olhar para o trabalho de Chiharu Shiota e Adrianna Eu sob o ponto de vista da expansão da ideia de trama, do fazer a partir do têxtil ligado a outros materiais; interessa-me a questão da impermanência, transformação das “coisas” e da ancestralidade presente no trabalho de Sônia Gomes; a busca pelo manufaturado e a possibilidade de desfazer e refazer na obra da Lia Menna Barreto; a monumentalidade do trabalho da Joana Vasconcelos, com obras instalativas e esculturas a partir de elementos cotidianos. Também, como referência muito presente na minha prática artística interessa-me olhar para o trabalho da Yayoi Kusama, sobretudo, a questão do gesto e da repetição; para as obras de Eva Hesse e Sarah Lucas, e na maneira como cada uma explora, de modos diferentes, os materiais simples e como fazem uso dos “achados” em seus trabalhos; a obra de Louise Bourgeois, por toda a carga intimista, pessoal e feminina que o trabalho dela evoca para mim. Interessa-me muito a forma como Annette Messager incorpora diferentes materiais e como explora de maneira experimental os modos de fazer tradicional, considerados provenientes do “feminino”; Leda Catunda pela expansão de limites entre objeto e pintura e também, como o seu percurso artístico foi sendo construído; e Lygia Clark, de quem eu só fui me aproximar (da obra) neste último ano e atualmente, é uma das minhas maiores referências conceituais.

Enfim, ainda poderia seguir, porque realmente, pesquisar sobre outras mulheres artistas é algo que interessa-me muito. Mas paro por aqui!

Mônica Lóss por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Na minha concepção, estamos longe de sermos livres plenamente para nos expressarmos, uma vez que, ainda não superamos questões básicas como por exemplo, o direito de decisão sobre nossos corpos. Como é possível sentir-se livre sem isso? Entendo que temos um caminho enorme a ser percorrido, mesmo que muita coisa já tenha sido superada, as pautas não desaparecem, apenas se atualizam e se alinham aos novos tempos e demandas.

Dentro da arte acho que também estamos em busca de liberdade e mais representatividade para as mulheres. Esse ponto se evidencia, principalmente por trabalhar com o têxtil e explorar a relação dos fazeres manuais/artesanais, considerados historicamente como parte do “trabalho feminino”.

A arte têxtil, ainda é vista como algo de menor valor e interesse frente a outras mídias, mesmo ganhando um pouco mais de espaço nos últimos tempos, é ainda modesto. Explorar a possibilidade de deslocamento do fazer manual, antes nas margens, agora, podendo migrar para o centro das discussões na arte contemporânea é uma oportunidade de abrir caminhos e reivindicar espaços, também, uma forma potente de resistir e construir outras narrativas, onde haja possibilidade para trazermos à público questões que por muito tempo se mantiveram condicionado aos espaços privados para mulheres.

Mônica Lóss por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Muitas coisas me fazem sentir feliz e grata. Coisas pequenas e simples como estar com minha família, ver meu filho crescer, sentar ao sol e ver o mundo se mover ao barulho do vento. Viajar é algo que me deixa muito feliz, desbravar uma nova cidade, cultura, língua é algo que me faz sentir uma vibração muito forte e isto, ficou mais evidente desde que a pandemia aconteceu, já que agora mesmo, não tenho nenhuma previsão de ir a lugar algum.

Também, ter a oportunidade de desenvolver esse exercício de escuta interna/externa que resulta em meu trabalho artístico e sobretudo, manter vivo este incômodo no olho, é algo que faz com que eu olhe para a vida com muito interesse e curiosidade. Isso me faz muito feliz.

Mônica Lóss por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Retomei minha prática artística depois de 8 anos sem produzir quase nada. A volta foi muito lenta e difícil, mas hoje consigo avaliar o que foi importante para o recomeço. Todos os dias eu acordava e dizia para mim mesma: “se eu não fizer nada, nada vai acontecer e não terei nada o que esperar”. Repetir isso de forma silenciosa, quase como um mantra foi o que me fez iniciar processos, e trabalhar em coisas aleatórias, que não tinham muito sentido naquele momento. Mas o movimento foi acontecendo, foi ganhando disciplina e logo se transformando em hábito.

Por isso, mulheres, comecem já! Sejam vocês mesmas as suas maiores incentivadoras! Não esperem o momento ou a situação ideal para colocar em prática seus projetos e ideias. Não podemos esperar o mundo idealizado, onde dispomos do tempo desejado, de espaço adequado ou materiais incríveis, por isso, é importante começarmos com o que é possível, com o que dispomos de tempo e condições físicas para fazer aquilo que queremos.

Comece com aquilo que você tem, como você pode. O movimento inicial é sempre o mais difícil, mas depois que ele ganha ritmo, parar já não é uma opção!

Mônica Lóss por Projeto Curadoria
// A pandemia que estamos enfrentando em 2020 afetou de alguma forma a sua produção?

A pandemia afetou minha produção em diferentes sentidos. No começo fiquei paralisada quando entramos em isolamento aqui em Michigan em princípios de março.

Por trabalhar com matérias de descarte, doações e “achados”, já não foi possível ir em busca de materiais para seguir com a série que era meu foco principal para este ano. Precisei repensar meus projetos e com isso realizei uma série de auto-retratos “O medo de sentir medo” trabalho composto por 29 fotografias, que foi ponta pé inicial para que outros processos fossem desencadeados. Depois, passei a trabalhar no Projeto Cabeças, na série “Entre o mostrar-se e o esconder-se” utilizando o material que eu tinha disponível naquele momento em casa, como coadores, sacos plásticos, luvas de látex, cordas e fios. Mudanças que trouxeram um novo olhar para minha pesquisa e meus processos artísticos.

Também, foi positivo algumas mudanças que ocorreram, uma vez que, até então, minha prática artística era muito solitária e eu me sentia um pouco isolada. Com a pandemia e a necessidade de traspor o mundo presencial para o virtual, algumas oportunidades passaram a ser oferecidas online, permitindo que eu me conectasse com muito mais pessoas, participando de atividades que não seria possível de forma presencial.

Mônica Lóss por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Neste momento tenho alguns projetos em desenvolvimento. Finalizei um trabalho para participar da chamada 1.5 do Goma Grupa (mais informações no @goma_1.5 ou no @gomagrupa), grupo de mulheres artistas que faço parte, também, estou desenvolvendo a terceira série do Projeto Cabeças, que pretendo finalizar ainda este ano e que, daqui uns dias irá começar a aparecer pelo meu Instagram (@monicalossart).

E ainda este ano, tenho previsto trabalhar em dois projetos de livros, um deles será sobre foto performance e outro, muito especial para mim, será criar a ilustração de um livro infantil.

Gostaria de deixar registrado meu agradecimento pelo convite de participar deste projeto que acompanho e admiro muito que é o Projeto Curadoria. Muito obrigada pela oportunidade!

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