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Mônica
Barbosa
Brasil
vivendo em Fortaleza . CE
29 anos . artista

Sou piauiense, criada em meio a estradas de terra e envolvida dentro do universo artístico desde cedo por inspiração familiar. Minha infância foi marcada pela paisagem do sertão, mudanças repentinas de moradia e busca por narrativas que costurassem a minha vida com as pessoas que encontrava pelo caminho. O interior, com todo o seu mistério, encanto e resiliência, sempre me convidou. As histórias, as conversas com as avós e a curiosidade por entender minha própria natureza sempre estiveram presentes.

Em 2013 encarei as manualidades de forma mais profissional começando a vender obras de pintura e desenho. As linhas tortas, a desconstrução da estética e a assimetria me atraem. Acho que tudo que sai de caixinhas... Gosto de mergulhar em minhas memórias ancestrais e também de passear pelas memórias das pessoas. Deixo que meu trabalho se manifeste a partir destas experiências de vida.

Mônica Barbosa por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Gosto de explorar muitos materiais e técnicas e a experimentação sempre fez parte. Nas pinturas me comunico mais com tinta acrílica, pastel oleoso, canetas e às vezes recortes. Nos desenhos uso lápis, carvão, canetas e pastel.

Mônica Barbosa por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Meu trabalho é muito biográfico. Minhas inquietações e desejos não são só minhas, são também suas. É sempre uma busca por algo que desejo, que me encontra, que sinto que está ali pulsando e quer se expressar. São angústias políticas e vividas, traz toda uma subjetividade: alegrias, prazeres, medos, preocupações, angústias, tristezas, condição feminina, visão de mundo e experiências. Busco representar e consolidar a ordem existente e ao mesmo tempo de criticá-la, denunciá-la como imperfeita e contraditória. Na criação artística, me deparo com os conflitos causados por diversos personagens internos, frutos de papéis sociais e sexuais que nos foram impostos e a necessidade da ruptura. Me inspira a vida e sua organicidade, a ancestralidade feminina, ser mulher e todas as inquietações que isso nos traz. Nessa busca procuro representar e dar voz através do diálogo do corpo feminino, o nu e as constantes proibições que giram em torno de nós.

Mônica Barbosa por Projeto Curadoria
Mônica Barbosa por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Me sinto motivada pela busca do prazer e sentido para meus anseios dando cor para cada emoção e sentimentos. É nesse trabalho criador, no fluxo do potencial criativo, que caminho em busca do ponto de apropriação do meu trabalho, enxergando a mim mesma nas obras, com intuito de uma conquista: a construção da minha própria imagem mesclada com tudo a minha volta. Às vezes esse processo vem emaranhado de questionamentos do meu cotidiano. Procuro estar sempre atenta ao meu estado emocional. Quando há uma escassez criativa, procuro me recolher num ambiente de natureza onde passo boa parte do tempo observando meu entorno.

A escrita ajuda bastante em momentos de travamento criativo. Os recortes, o desenho livre que surge de um ponto, também. Geralmente a imagem vem à minha cabeça ou por algo que escutei ou senti e faço esboços na intenção de materializar com cores. Meu processo é muito mutável, intuitivo e sentido. Tem vida própria.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Observo o que estou sentindo em meu cotidiano. Estar atenta em meus momentos de solitude. Procuro dedicar tempos de ócio criativo com a escrita e esboços repentinos. Dar tempo para o corpo, a mente e o espírito é como uma receita para a criatividade. Gosto de estar com as pessoas, ler e de me colocar em movimento, visitar exposições, tomar um vinho, encontrar uma nova música que me inspire, pesquisa de artistas que se comuniquem com aquela emoção. Ando sempre com o bloco de notas aberto para registrar qualquer ideia que tenho. Mesmo que aquela ideia não seja trabalhada, ela me faz estar atenta e mantém aceso o fluxo criativo.

Mônica Barbosa por Projeto Curadoria
Mônica Barbosa por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Não tenho um projeto preferido. Cada projeto tem sua importância naquela fase vivida. Mas sinto que, me encanta bem mais o entendimento daquele sentimento expressado que a obra final.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Ter vindo morar em Fortaleza. Retornei para essa cidade, duas vezes num período de sete anos e sempre foi um divisor de águas pra mim em meu fazer artístico. Nesse entremeio estive morando no interior, onde vivi momentos imersos de solitude e nesse período senti uma necessidade latente e visceral de estar envolta de pessoas que de certa forma me possibilitaram trocas riquíssimas. Nesse mesmo período estive facilitando rodas de conversas com mulheres rurais e essa vivência de escuta atenta, de contato com esses relatos e histórias de vida foi de fato uma válvula impulsionadora do meu trabalho.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

São muitas expressões e linguagens que me inspiram dentro do universo artístico. Considero que musicalmente falando me sinto representada pela poética militante de Mercedes Sosa, o som desconstruído de Ava Rocha, Karina Buhr com o rock transgressor, Letrux com os sentimentos femininos em voz, Rosa Zaragoza e sua ancestralidade, Elis Regina e a liberdade, Elza Soares com sua militância de denúncia.

Dentro da linguagem visual ressalto algumas artistas como Frida Kahlo, Marina Gonzales, Natália Gregorini, Sunsara, Geórgia Cardoso, Magrela, Andréa Tolaini, Azuhli...

Dentro do universo da performance destaco a Marina Abramovic, mulher que desafia seus próprios limites, considerada como a madrinha da performance, a artista Isabel Najur com o seu projeto “Indomésticos”, a artista paraibana Yasmim Formiga que rompe o silêncio da opressão feminina...

Muitas mulheres agricultoras, camponesas que encontro nesse meu caminho, como Dona Socorro, Marleide, Fafá e tantas outras que tecem suas histórias de luta e resistência no meio rural.

// E o que te faz feliz?

Mergulhar no encontro do rio com o mar, estar em estado poético mesmo com todas as inquietações, olhar profundamente nos olhos das pessoas que encontro no caminho, o abraço apertado, o balanço na rede, escrever e pintar o sentimento. Estar entrelaçada com as pessoas, tomar chá de cidreira, estar na companhia de mulheres e dançar em noites de tambor.

Mônica Barbosa por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sem dúvidas, ainda existe. A história está aí e mostra desde os primórdios a repressão feminina em detrimento dos privilégios dos homens pelo caráter historicamente masculino da civilização no mundo. E isso ainda é muito pulsante, infelizmente! A criação artística das mulheres contribui para a denúncia da opressão feminina, ajudando a transformação do papel da mulher ao longo da história. A mulher artista foge ao olhar patriarcal, que não a aprisiona nem a domina, pois, o fato de querer algemar seu imaginário é uma forma de tentar anulá-la e não permitir que expresse sua visão de mundo.

Ao longo do meu fazer artístico, considero que tenho conseguido romper com aquela pressão social opressora na tentativa de suprimir alguns projetos pessoais, que não adeque as expectativas das pessoas que me rodeiam. As vezes ainda sinto que meu trabalho incomoda, até mesmo nas redes sociais. Já me senti tolhida e ameaçada em tirar minha liberdade de expressão por afirmarem que estava expondo conteúdos de “nudez”. Essa repressão existe, mas de uma certa forma nos impulsiona a continuar expondo o nosso sentir e considero, que esse movimento de quebra dessas amarras é uma luta constante e diária.

Mônica Barbosa por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Observem o sentir e permitam que essa expressão se manifeste.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho três projetos em andamento e um que finalizou agora que foi a série “Salto” que nasceu como um grito por nossa natureza selvagem que não aceita ser domada ou tolhida. O segundo é a abertura da minha lojinha virtual, ainda está em andamento.

Atualmente estou trabalhando em minha nova série chamada “Broto” que surge como um despertar interno de novas possibilidades de criação e expansão... ainda estou no processo de investigação e a criação do meu primeiro livro ilustrado autoral chamado “Lia e as caixas” que traz sua narrativa a partir das ilustrações sobre a não aceitação das caixas impostas a nós mulheres. Esse material surgiu a partir da série “Salto” e aponta para uma poética sobre a liberdade.

Mônica Barbosa por Projeto Curadoria
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