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Marina
Costa
Brasil
vivendo em Juiz de Fora . MG
37 anos . fotógrafa

Eu não consigo contar sobre quem é a Marina sem falar sobre fotografia. A minha história se mistura com essa paixão que é fotografar. Já quando criança, me fascinava ver a minha mãe com suas câmeras analógicas e suas diversas lentes. No meu universo infantil, aquilo não era simplesmente fazer uma foto: era entrar em uma caixinha e sair dela com imagens que revelariam formas e emoções, que contariam histórias, que guardariam memórias e que nos fariam sorrir e chorar em um domingo qualquer.

Na faculdade de jornalismo, o amor pela imagem começou a ficar mais evidente nas primeiras aulas dentro do laboratório de fotografia. Ainda na era analógica, a ansiosa espera pela revelação criava uma atmosfera de sonho e de expectativa sobre o resultado do que eu queria contar. Foi nessa época que a minha ficha realmente caiu. Entre erros e acertos, entre idas e vindas, entre o analógico e o digital, eu escolhi a fotografia e a fotografia me escolheu. Após uma longa trajetória em busca de um caminho que me realizasse enquanto pessoa e profissional, a fotografia de família e os retratos de mulheres, hoje, moldam o meu trabalho. Claro que sem deixar de lado um trabalho autoral que abre ainda mais o meu olhar sobre o mundo e as pessoas.

“Casa Amarela da Didi” - #projetocasaamareladadidi - tem sido, há quase dois anos, o meu principal projeto autoral. E o mais incrível é que ele dialoga com os meus outros trabalhos que falam de mulheres e família, pois eu registro a minha vó em sua casa, com os seus guardados e reminiscências.

São essas e outras memórias que inspiram a minha forma de observar o outro, cada dia mais espontânea e despretensiosa, mas não menos ávida por contar histórias de verdade.

Marina Costa por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Atualmente tenho me concentrado em uma fotografia mais pura, com pouca ou nenhuma iluminação artificial e, ao final, com o mínimo de manipulação. Em alguns trabalhos uso o Photoshop para alguma sobreposição ou para equilíbrio de cores. Nada que leve mais de dez minutos. Sem radicalismos e sem me fechar em uma fórmula. Em dez anos de profissão, já caminhei em várias direções na fotografia. Eu gosto de me deixar levar pelo que me estimula no momento. A minha cabeça não para e está sempre aberta a outras possibilidades de ferramentas e de formas de trabalhar. Sou múltipla e gosto sempre de me manter aberta a novas experiências.

Marina Costa por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A imprevisibilidade é algo que me motiva muito. Não digo isso apenas sobre quando abro a janela e o dia está mais claro ou escuro e se isso vai influenciar diretamente no resultado do meu trabalho. Me refiro a imprevisibilidade dos encontros. Eu fotografo pessoas com personalidades e histórias de vida diferentes, inclusive diferentes das minhas. E é essa dúvida, essa adrenalina de não ter o controle do que vai acontecer é o que me inspira. Por isso, por mais que eu me esforce para planejar, eu não tenho o controle do que pode acontecer no dia em que vou fotografar. Os momentos em que tenho o mínimo de domínio é quando vou de forma consciente em busca das minhas referências que vêm do cinema, da música, dos estudos de outros fotógrafos e artistas e das leituras diárias.

Marina Costa por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Não tenho um processo linear ou fechado para criar. Com cada pessoa que fotografo, busco uma forma que se adapte a ela. Mas o que sempre tento fazer é ter um momento sem a câmera com quem se propôs a se expor ao meu olhar. Gosto muito de uma longa conversa dias antes do trabalho. Ali eu construo uma ideia de quem é a minha personagem e vou em busca de uma possível narrativa. A partir daí imagino cores, luz, músicas e outras referências que podem me aproximar dessa pessoa no dia de fotografá-la. No entanto, estou sempre pronta para o imprevisível, pois ele é aquela chaminha que eu não deixo apagar.

Marina Costa por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Além de estudar e buscar ver outras formas de arte para me inspirar, procuro muito olhar para as particularidades humanas. Abrir sempre os olhos e a escuta para histórias, formas de vida e experiências sem preconceitos é o que tem mais alimentado a minha criatividade nos últimos tempos. A maturidade tem me encaminhado naturalmente para a simplicidade, para o que sempre esteve ao meu lado e, pela ansiedade, eu não enxergava. Estou menos ansiosa e mais atenta às pequenas coisas que podem me fazer criar.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Os meus trabalhos preferidos são os retratos de mulheres e o “Casa Amarela da Didi”. Acredito que são projetos empoderadores e que fizeram com que eu mergulhasse mais em mim mesma, me reconhecendo enquanto mulher. Os encontros com outras mulheres me trouxeram e ainda me trazem mais confiança no meu trabalho e no meu potencial.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acredito que o momento decisivo na minha trajetória foi quando eu desisti de atuar como jornalista para me tornar fotógrafa. Tudo isso dependeu de muita coragem, pois os riscos de se mudar de profissão são enormes. Mas escolhi o que nutre os meus dias e me faz feliz.

Marina Costa por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Atualmente tenho buscado me influenciar por outras mulheres não só nas artes, mas também na política, no universo do empreendedorismo e no cotidiano. Poderia passar um dia citando mulheres incríveis que me inspiram na vida e na forma de ver o mundo. Mas vou me limitar a algumas que têm me chamado mais a atenção atualmente. Na literatura, Chimamanda Ngozi Adichie e Simone de Beauvoir; na fotografia, Nair Benedicto, Sheila Oliveira, Irmina Walczak e Isabella Lanave; na música, Elza Soares, Clara Nunes, Alice Coltrane e Luedji Luna; na política, Manuela d'Ávila; e na vida e sempre minha mãe, minhas avós, tias, primas e amigas.

Marina Costa por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sem dúvidas ainda existe muito preconceito. Eu sinto isso diretamente no meu trabalho, mas só fui tomar consciência disso quando comecei a me aproximar de coletivos e grupos de mulheres. As histórias se repetem e a gente se reconhece. Esses encontros fizeram toda a diferença na minha vida. O machismo é algo que ficou tão naturalizado que eu demorei para perceber como ele sempre esteve presente na minha vida em vários sentidos. Hoje eu sou sim uma feminista e tenho orgulho de me posicionar assim.

// E o que te faz feliz?

Sair da rotina e ir para algum lugar onde eu tenha um contato direto com a natureza me faz muito feliz. Mas também sou uma mulher da cidade que adora movimento, encontrar pessoas e passar horas conversando. A música alimenta a minha alma em qualquer situação.

Marina Costa por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Se encontrem e abram o diálogo com outras mulheres. Digo isso porque foi a partir daí que eu passei a confiar mais em mim e no meu potencial.

Marina Costa por Projeto Curadoria
Marina Costa por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

“Casa Amarela da Didi” é um projeto que ainda não foi exposto de forma completa. Estou com novas ideias para complementar o que já tenho, ir um pouco além da fotografia, para que no ano que vem eu consiga expô-lo de alguma forma.

Marina Costa por Projeto Curadoria
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