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Mariana
Takata Palma
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
32 anos . ceramista

Sou o recheio do bolo de 4 irmãos e um meio irmão mais velho que mora no Japão desde 1995. Aqui em São Paulo somos em 4, como disse um irmão mais velho, uma irmã acima de mim e uma abaixo, a caçula. Digo isso pois desde pequena, e até entendo, não tinha como ter uma atenção plena da minha mãe, e meu pai faleceu em 94 quando eu tinha 9 anos.

Então rolou muita criatividade para inventar brincadeiras com o que tínhamos disponível, de ficar horas desenhando folha por folha de um talão de cheques e cédulas para brincar de compras até mudar todos os móveis do meu quarto para fazer uma casa improvisada que tinha banheiro e cozinha, dá para imaginar? Às vezes o quarto virava salão de beleza com lavatório com água e tudo e até consultório médico com sala de parto, sim, a coisa era bem séria, tudo culpa das novelas das oito que assistíamos. Então, apesar de nem sempre ter a atenção plena da minha mãe, foi ótimo usar a criatividade desde então.

Sempre gostei de desenhar, pintar, fazer melecas com tinta ou terra, pôr a mão na meleca literalmente e isso inclui até comida. Sempre gostei de inventar, sair fora das receitas, experimentar, mudar, meu quarto, inclusive quando criança que era divido com minhas duas irmãs teve diversos layouts, depois de crescida essa mudança se direcionou para o meu cabelo, quem vê minhas fotos dos últimos 4 anos vai ver 4 pessoas diferentes.

Apesar de ser muito criativa e corajosa para mudar e experimentar, com o tempo, e as dificuldades da vida na adolescência e vida adulta, me tornei mais pé no chão e medrosa. Então, apesar de ter feito uma faculdade de design, era designer industrial, sim, era criação mas com o pé no chão da produção industrial.

Acho importante salientar que só pude fazer uma boa faculdade porque trabalhei desde os meus 15 anos e principalmente durante a faculdade para pagá-la, pois, minha mãe nunca pode nem pagar um cursinho para que eu tivesse grandes chances de entrar em uma boa faculdade pública. Só não precisei estudar em escola pública porque a escola que eu estudava deu bolsa integral a mim e a meus irmãos por causa do falecimento do meu pai e minha mãe ter implorado ajuda. Aliás, sou imensamente grata a todos!

Ela também, soube muito bem sustentar a mim e a meus irmãos para que pudéssemos estudar mesmo tendo que trabalhar para isso. Então não me vejo como vítima, muito pelo contrário, meu caminho até aqui só me deixou mais forte e me trouxe diversos ensinamentos importantes.

Então assim podemos entender o porque, apesar de a cerâmica e a plástica terem sido as matérias que mais amei e melhor fluíram para mim na faculdade, eu as ignorei completamente e me especializei em embalagens.

Hoje ainda me pego na cobrança de não ter estudado fora do país como 95% dos meus colegas e amigos, principalmente os atuais, me sinto inclusive intimidada às vezes, mas quando olho para trás, assim como hoje respondendo essas perguntas, eu vejo que fiz o meu melhor , e não devo me diminuir em nenhum momento por coisas assim, que inclusive não significa que eu nunca vou ter a oportunidade de faze-las.

Tenho orgulho do que estou fazendo hoje, de ter tido coragem de tentar seguir o meu sonho que ficou guardado tantos anos em uma caixinha escura em uma sala com a luz apagada, e espero poder inspirar outras pessoas com essa jornada que está apenas no início.

Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Tudo o que a vida pode me dar, desde uma receita , me divirto reinventando receitas, adoro um upcycling, afinal fazia isso quando criança antes mesmo de ter um nome, montar um vaso de plantas, pintar uma parede, costurar um vestido, inventar uma blusa, desenhar um móvel, decorar minha casa, até chegarmos na cerâmica que na minha opinião é quase brincar de Deus de tantas possibilidades que ela me dá de criar.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Ter que solucionar o problema de alguém faz a minha criatividade fluir muito, mas não é um tipo de motivação que considero muito saudável, inclusive tenho trabalhado muito isso com minha psicóloga.

Ver trabalhos de pessoas que me inspiram, pelo o que elas são e não exatamente pelo o que fazem.

Cores, texturas e estampas bem combinadas ou questionadoras em qualquer tipo de trabalho também me motivam a querer fazer algo com aquilo.

Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Hoje em dia o meu processo criativo ainda tem reflexos de tentar solucionar um problema ou atender uma demanda, mas já tem muito de intuição, de sentir e replicar o mix de coisas e trabalhos que gosto.

Estou a todo momento, por onde ando, criando, tudo de alguma forma me inspira.

Se estou neste momento pensando em um produto para o Natal, questionamentos como, o que eu posso produzir a tempo para esta data? O que anda chamando a atenção do meu público? O que eu gosto e me representa como design e identidade? Quais ideias tem preços de custo e preço final viáveis?

E então ando a todo momento me questionando pra lá e pra cá com essas perguntas e a vida vai me dando respostas, e quando sento para criar um produto já estou com alguma ideia já bem elaborada. Porém nunca sai exatamente o que estava em mente, muitas vezes sai melhor, os processos se completam.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Procuro estar sempre atenta ao que meus colegas e outros artistas estão produzindo, estou sempre pesquisando técnicas que podem me dar soluções para o que quero produzir, gosto muito de ver trabalhos que me inspiram e sempre tento arquivar algum que me servirá de referência quando eu estiver criando, normalmente com fotos ou prints.

Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Dos projetos da minha vida, eu tenho orgulho da coleção de produtos de puericultura que foram os primeiros produtos com a minha autoria que são vendidos no mercado.

Tenho orgulho dos meus projetos de perfumaria que trabalhei de grandes marcas.

E amo a minha primeira peça de cerâmica feita na faculdade, um vaso lindíssimo que foi produzido por um mix de técnicas de modelagem em cerâmica.

Foi ele que depois de anos me fez resgatar toda aquela paixão que estava escondida.

E decora a minha casa com muito orgulho.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Eu nunca fui demitida, sempre fui muito comprometida com tudo o que decido fazer. Os meus 3 empregos como designer (pois tive alguns outros antes de me formar) eu pedi demissão, hoje sei que essas decisões vinham mais do certo pânico que eu tinha de pensar em fazer somente aquilo para o resto da minha vida, hoje sei também que eu não queria fazer o que eu estava fazendo e principalmente como eu estava fazendo, eu trabalhava com criação mas não produzia diretamente com as mãos.

Nesses 3 momentos eu me coloquei em risco em meio ao estável, eu me coloquei em movimento. Não foram rosas em nenhum deles depois de sair, mas em todos os casos consegui mudar e me reestabelecer e aprender muito com esse movimento.

Então foram alguns momentos decisivos e não apenas um, e o movimento em que me coloquei hoje, partiu do meu último emprego, quando estava fazendo muito bem o meu trabalho, me dava bem com a minha chefe, que não era algo comum onde trabalhava, havia fechado bons projetos naquele ano, me dava bem com meus colegas e chegava em menos de meia hora em casa depois do trabalho, mas mesmo assim o sentimento de falta e de estar incompleta batia forte. A aquariana aqui estava se sentido presa novamente.

Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Pessoas reais, pessoas que considero autênticas, que são elas mesmas e não estão preocupadas demais com o que os outros vão pensar sobre suas escolhas e seus gostos. Pessoas que me identifico por seus caminhos e sonhos. Aquelas que fazem o que querem com aquilo que elas têm em mãos, que não ficam reclamando ou dando energia para a escassez.

Essas pessoas podem ser tanto uma mãe com a qual eu trabalhei anos atrás e fazia acontecer com sorriso no rosto todos os dias, quanto uma professora que não ficou esperando ter um ateliê dos sonhos para poder começar.

Sim a maioria são mulheres, citarei algumas que gostaria de lembrar inclusive:

- Júlia: colega de trabalho, mãe de dois filhos, comprou seu primeiro carro à vista juntando R$200,00 por mês com um salário menor que o meu na época do meu primeiro emprego como designer e estava sempre alegrando a todos.

- Diana: minha amiga, guru e cabeleireira, conseguiu se desapegar dos padrões de mulher coitadinha, boazinha e perfeitinha e hoje sabe muito bem o que quer e o quanto ela é capaz e faz acontecer.

- Andreia: minha ex-chefe, me inspirava, pois ela sabia muito bem o que ela queria e não estava ligando para o que os outros achavam dela, muito menos se a maioria dos seus funcionários a odiava. Batia de frente com o pai dela e dono da empresa para se impor.

- Amanda Mol: foi a primeira pessoa que me mostrou que é possível sim viver espalhando mais amor com o seu trabalho, eu fiquei besta de ver que alguém estava fazendo algo que eu sempre quis fazer mas achava ridiculamente impossível.

- Rafa Cappai: mentora do curso de empreendedorismo criativo que fiz este ano de 2017, sabe muito bem bancar o enorme sonho dela de mudar o mundo com economia criativa.

Minhas professoras de cerâmica:

- Anália Moraes: acho ela e o trabalho dela muito autênticos além de uma personalidade apaixonante.

- Tais Ramirez: mostrou e tem mostrado a todos os seus alunos, inclusive eu, que é possível começar e experimentar sem ter um ateliê dos sonhos. Além da sua força de estar por trás de um ateliê e uma marca cuidando de tudo.

- Sofia Ramos: nos recebeu em seu ateliê com simplicidade e autenticidade, assim como suas aulas de torno, mostrando uma enorme proximidade de alguém muito real e possível. Bem daquelas que não tem nada de mi mi mi e tempo ruim.

- Amanda Magrini: e seu enorme conhecimento e paixão pela terra e suas nuances.

- Diane Cossermelle: com ela não tem tempo ruim, tudo é solução e nada é problema, a cada aula que tenho com ela é uma história fantástica de conhecimento adquirido pelo mundo. Além da coragem de ter trocado a medicina pela cerâmica.

- Teresa Furuiti: minha vontade é de passar horas só ouvindo toda a sua enorme experiência e paixão pelas artes manuais.

Colegas como a Carol Tsai, “sozinha” e mãe do Linus, optou pelo forno a gás mesmo sabendo da demanda maior de tempo e trabalho comparado a um forno elétrico por paixão.

E por fim para não virar uma novela de drama, a minha musa maior, rainha porra louca, Raiza Costa, adoro como ela cria arte em cima de confeitaria, toda aquela arte e conceitos de lifestyle, e opiniões me inspiram muito.

Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Ainda sinto que se uma mulher estiver trabalhando com arte, ainda tem peso de hobby, se um homem estiver fazendo exatamente a mesma coisa, sempre é algo levado mais a sério, é um ofício.

Pensa em uma mulher fazendo aquarela e em seguida em um homem fazendo o mesmo?

Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Minha relação super bacana de anos com meu mega companheiro, amigo, anjo da guarda, meu maior fã e marido Rodrigo e nossos babys dogs e família.

Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
Mariana Takata Palma por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Parem de ser tão críticas, aceitem mais suas criações como elas são porque é isso que faz a diferença com relação aos trabalhos de qualquer outra pessoa no mundo. Saiba ouvir a sua intuição produzindo o que você gosta, pelo seu gosto.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Meu atual projeto com a cerâmica é o meu novo projeto, ainda está em curso.

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