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Mariana
San Martin
Brasil
vivendo em Rio de Janeiro . RJ
28 anos . artista

Nasci em Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde morei até os 21 anos. Desde muito criança sempre tive uma relação muito forte com o desenho, minha mãe conta que com 4 anos eu não queria mais ir pra escola porque meus coleguinhas só "riscalhavam" e eu queria desenhar. Todo mundo perguntava se eu ia ser estilista, porque eu sempre desenhei figuras femininas e eu amava inventar roupas mirabolantes para elas, já eu, passei a maior parte da minha adolescência com a certeza de que ia ser médica. Felizmente no último ano antes do vestibular eu mudei de ideia.

Cogitei Arquitetura mas acabei no Design Gráfico da UFPel que, pra minha sorte, obrigava todos os futuros designers a cumprir o mesmo currículo dos dois primeiros anos das Artes Visuais - a minha turma foi a última desse currículo, que tinha aulas de desenho, pintura, escultura, história da arte, filosofia... e eu acredito muito que nada é por acaso. Apesar disso eu ainda vivi algum tempo em negação, nunca citava o título inteiro do meu diploma - Bacharelado em Artes Visuais com habilitação em Design Gráfico - e toda vez que eu cruzava com o povo das artes na faculdade, ficava imaginando o que será que eles esperavam da vida, porque ser artista era uma coisa nada prática e nada palpável pra mim.

Me formei Designer Gráfica, me mudei pro Rio, comecei a trabalhar com direção de arte publicitária e acreditei de verdade que era isso que eu queria, mas nunca parei de desenhar - porque desenho era o escape, o que me deixava mais leve e me fazia feliz quando eu não estava. A figura feminina continuou presente, mas passei a me interessar menos por o que as minhas mulheres vestiam e mais por o que elas sentiam. Em 2016 alguns amigos viram minha pasta de desenhos amontoados em casa e me convenceram a expô-los em algum lugar. Com muita ajuda de gente que via o meu caminho muito mais claramente do que eu, na época, montei minha primeira exposição na minha cidade natal e foi quando a ficha enfim caiu, e eu virei artista.

Mariana San Martin por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Desenho com grafite foi minha primeira forma de expressão artística, ainda criança. Com o passar do tempo os lápis viraram pastéis, carvão, canetas, tinta e colagens. Eu nunca abandono um material em prol de outro, acredito que a soma enriquece meu trabalho e tem muito a ver com o que eu procuro expressar. Gosto muito de escrever também, tanto como forma de organizar ideias como de criar ideias novas.

Mariana San Martin por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Observar pessoas e como elas se comportam, imaginar que experiências e ideias constroem quem nós somos todos os dias, camada por camada.

Mariana San Martin por Projeto Curadoria
Mariana San Martin por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

É bastante experimental, mas com alguma ordem. Às vezes uma obra inteira aparece na minha cabeça, formas, cores, sobreposições se montando e desmontando. Quando isso acontece, eu faço pequenos estudos ou anotações visuais de todas as ideias que eu tenho antes e durante o processo - que as vezes acabam virando obras por si só. Uma linha que eu tenho explorado muito é a desconstrução através de retratos. Eles são desenhados a grafite e depois rasgados para, então, serem remontados sobre fundos abstratos, o que leva alguns dias de trabalho técnico para construção e muita experimentação e desapego para a desconstrução e remontagem. Eu gosto muito de observar as interações entre os materiais e entre camadas, o que sempre me surpreende e muitas vezes sai do controle, me permitindo descobrir coisas novas, incorporar "erros" e aceitar que a imprevisibilidade faz parte da criação, assim como faz parte dos seres humanos que eu retrato.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu gosto de ler sobre ideias. Filosofia me fascina, apesar de eu nunca ter me aprofundado no assunto. Entrar em contato com o trabalho de outros artistas também é extremamente inspirador e motivador, assim como conhecer pessoas e simplesmente conversar, ou só observar mesmo. Eu tenho a sorte de morar numa cidade que me permite muito contato com a natureza; ir a praia só ficar olhando o movimento do mar, acompanhar o voo dos pássaros - principalmente aqueles que voam em grupo todo fim de tarde aqui no Rio. Sou apaixonada por nasceres e pores do sol e por só olhar o céu. Acho importante também me permitir momentos de silêncio interior.

Mariana San Martin por Projeto Curadoria
Mariana San Martin por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

A série A.part, porque foi a primeira série de trabalhos em que eu senti ter de fato traduzido alguns dos sentimentos que mais me movem criativamente. Foi, também, a primeira série de trabalhos que me fez querer desenvolver mais sobre um mesmo tema e continuar construindo e evoluindo em cima dele. Ela fala sobre como a interferência das nossas experiências diárias, escolhas, encontros, conversas e imprevisibilidades da vida são o que realmente constroem - e desconstroem - quem nós somos, nos mantendo sempre em movimento.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Todo o caminho que eu percorri até o dia de hoje foi marcado por escolhas, experiências, inspirações e "empurrõezinhos" que fizeram de mim e do meu trabalho o que somos e eu considero todos esses momentos importantes e decisivos. Meu trabalho, afinal, gira em torno dessa ideia, de que cada passo interfere, cada escolha soma, cada erro enriquece, cada experiência nos mostra um eu mais completo e mais bonito que jamais seriamos capazes de enxergar sem passar pelo processo inteiro.

Mariana San Martin por Projeto Curadoria
Mariana San Martin por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Muito antes de pensar em arte como profissão fui encantada pelo trabalho da Marina Abramović, pelo caráter extremamente humano e comportamental. Os retratos do Lee Jeffries contribuíram muito no meu interesse por enxergar o ser humano por trás da imagem e a música do Ludovico Einaudi tem, para mim, a capacidade de despertar e fermentar o movimento emocional necessário no meu processo criativo.

Mariana San Martin por Projeto Curadoria
Mariana San Martin por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Acredito que todos, homens ou mulheres, crescemos aprendendo que existe uma forma adequada - ou mais esperada - de ser social. A maioria desses aprendizados criam ambientes onde é comum que as mulheres sejam mais reprimidas.

Eu procuro não prender meu trabalho a nenhuma ideia preconcebida e nem deixar de expressar ideias porque elas podem não ser as mais adequadas, mas meu trabalho tem uma linguagem feminina muito forte que, por acaso, ou não, é alinhada com o que se espera de uma linguagem feminina e, talvez por isso, eu não sinta tanto essa repressão ou preconceito.

Mariana San Martin por Projeto Curadoria
Mariana San Martin por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Criar só por criar, as pequenas descobertas que o processo criativo traz, ouvir música, fazer qualquer coisa em dias de chuva perto de uma janela, acordar bem cedo e ver o sol nascer, olhar os pássaros voando em círculos na praia, ficar olhando a fumaça de incensos, encontrar minha família - que mora bem longe.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Continuar produzindo. Quando não achamos que algo que criamos está bom ou como esperávamos, é porque em geral ainda não está pronto.

Mariana San Martin por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Atualmente eu estou trabalhando na maior tela que eu já pintei, ela mede 220x200cm e está sendo um desafio e um infinito de descobertas, tanto em questões técnicas como em reflexões pessoais. Ela me deixa feliz porque será meu primeiro trabalho em exposição em Brasília, a partir de março.

Mariana San Martin por Projeto Curadoria
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