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Lívia
Stefani
Brasil
vivendo em Juiz de Fora . MG
30 anos . ceramista . artesã

Sou artesã, arquiteta por formação e apaixonada por design.

Durante muito tempo não tive lugar no mundo e em mim, ser arquiteta não era suficiente para o meu “ser”. O gosto pelo fazer manual permanecia guardado no armário junto a sentimentos e nuances minhas. A arquitetura me despertou para formas e belezas, me fez olhar para o ser humano e sua relação com os espaços. É da arquitetura que eu trago o fascínio em criar coisas novas e desenvolver métodos para construí-las, vem também dela meu interesse pelo design, pelas linhas dos objetos e pelas imagens. Porém, tanto nos trabalhos de arquitetura quanto de design, criar e não poder participar da construção do que eu imaginava não só atrapalhava meu processo, mas deixava um espaço muito grande em branco. Com o fazer manual eu preenchi esse espaço e completei meu processo. Poder criar e ao mesmo tempo produzir algo com as próprias mãos se mostrou muito mais prazeroso e produtivo.

Sou do interior de São Paulo e logo cedo saí de casa para estudar, depois de formada me mudei para fazer intercâmbio, ao retornar fui morar em São Paulo para trabalhar. Foi em 2016 que saí de São Paulo para tentar me encontrar. Após um longo período de imersão no meu próprio universo, quando me conectei comigo mesma enquanto pessoa criativa, consciente do meu processo, das minhas limitações e qualidades, comecei a tatear o meu lugar. Decidi investir em mim, no aprimoramento da técnica e do ofício de ceramista que eu já conhecia superficialmente, transformando isso num negócio que traduzisse meus anseios e fosse capaz de me proporcionar um estilo de vida de acordo com o que eu acreditava.

Hoje tenho um espaço de produção autoral totalmente livre, que reflete exatamente essa minha busca. Através do Atelier Mínima uno pessoal e profissional e me faço inteira.

A paixão por criar arte e objetos se estendeu para a ideia de vesti-los, o que tem guiado muito meus caminhos no sentido de uma intervenção artística mais presente, mais cotidiana. A relação do objeto com o corpo promove uma relação íntima e mais humana para a arte escultural que tenho desenvolvido.

Lívia Stefani por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

As mãos e a intuição. Na argila encontrei a matéria moldável capaz de captar meu instante criativo. Momento este em que todo trabalho de pesquisa, planejamento, referências, inspirações, vivências se fundem e se revelam no objeto-criação. Pra mim esse momento sempre foi muito importante, mas eu não era capaz de dominá-lo. A argila me permitiu encapsular esse momento em uma criação, como se o material encaixasse nas mãos e traduzisse o pensamento. Foi na experiência com a argila, enquanto ferramenta, material e conceito, que aprendi, e todos os dias aprendo, sobre meu processo e minhas criações.

Além do trabalho com a cerâmica, que é meu meio de expressão principal, também me expresso através de desenho, pintura, fotografia e trabalhos DIY.

Lívia Stefani por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A possibilidade de descobertas e do exercício de liberdade implícitos no processo de criação me motivam. O orgânico e o movimento sempre estiveram presentes nas minhas criações. A natureza, a cultura popular brasileira e afro-brasileira, a arquitetura, fotografia, pintura, e as mais diversas manifestações artísticas, me inspiram. Vejo muitas referências e trabalhos de outros artistas, estou o tempo todo imersa em imagens. Além disso, busco inspiração nas coisas simples do dia a dia, onde se escondem as poesias genuínas para as quais a maioria das pessoas não olha. Gosto de refletir sobre a essência de suas formas e significados no contexto em que habitam e acredito que a sutileza desse tipo de inspiração, por mais que não esteja diretamente ligada ao conceito de uma criação, me permite vivenciar um universo inspirador propício para isso.

Lívia Stefani por Projeto Curadoria
Lívia Stefani por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Eu não tenho um processo definido ou uma fórmula secreta, gosto de deixar cada projeto fluir naturalmente. Meu processo pode partir de uma ideia de função, de uma ideia de forma, da pesquisa por referências, de alguma inspiração, de um conceito, da confecção de desenhos ou da elaboração de um projeto. Mas o que realmente me move e gera os resultados mais significativos e surpreendentes é a modelagem intuitiva da argila. Claro que mesmo num processo intuitivo existe muito trabalho, muita pesquisa e muito estudo, mas no trabalho com a cerâmica, com a escultura, a sintetização de todo o meu universo se dá com as mãos.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Estar em movimento, seja um movimento interior, comigo mesma, ou em movimento no mundo. A criatividade é doação, eliminar as barreiras e deixar tudo fluir sem julgamentos. Além disso, a criatividade precisa ser exercitada e ultimamente tenho sentido que quanto mais eu crio e vejo o trabalho de outros artistas, referências e coisas novas, mais ideias eu tenho. Exercitar o olhar também é muito importante. Observar tudo com olhos sensíveis tem sido um exercício diário, penso que até uma obsessão. Obsessão por estar o tempo todo atenta, vivendo o meu trabalho em cada experiência. Ao mesmo tempo, busco praticar o autoconhecimento e vou descobrindo cada vez melhor meu processo, tornando a criação mais leve e natural.

Lívia Stefani por Projeto Curadoria
Lívia Stefani por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

O preferido é sempre o que está acontecendo. Minha energia e tudo o que eu acredito naquele momento está concentrado na criação e execução de algum trabalho. Depois que ele é feito, o trabalho está pronto, a expressão completa e as novas ideias e sentimentos começam a formar o próximo projeto. Acho que a paixão pela descoberta, além da inquietação por melhorar essa tradução de sentimentos em trabalho me mantem em movimento.

Hoje meu trabalho está muito focado na coleção Côncavos, que com certeza estará sempre entre os trabalhos mais especiais. Foi durante a criação da primeira peça dessa coleção que me dei conta de muita coisa a respeito do meu processo, a respeito da modelagem intuitiva e os resultados que essa forma de criar poderia me proporcionar.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Eu não acredito em momentos decisivos, mas sim em processo. Acho que as decisões se concretizam em longo prazo, e são fruto de várias pequenas escolhas. Entendo que estou apenas no começo de uma longa trajetória e que cada pequeno acontecimento pode ser marcante. O que posso dizer é que o início dessa trajetória autoral, para além de carreira, tem sido de grande valor para a minha vida.

Lívia Stefani por Projeto Curadoria
Lívia Stefani por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Vejo muito design, arquitetura, decoração, trabalhos em cerâmica e obras de arte. A cada momento encontro alguma nova obsessão, um artista cujo o trabalho, processo ou qualquer aspecto da sua criação me absorve. Minhas principais referências hoje são artistas e artesãos contemporâneos, como a Laura Berger, Sage Cortez, Flávia Aranha, Lane Marinho, Mansur Gavriel, Canoa Lab, Wu Wei Cheng, Facture goods, Florian Gadsby, entre tantos outros.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Toda mulher já sofreu algum tipo de preconceito. O assédio é preocupação constante, seja no trabalho ou em qualquer outro momento. Nosso ponto de partida é sempre diferente do masculino, e temos que provar de múltiplas e incansáveis maneiras a que viemos. De maneira geral, o trabalho manual sempre esteve associado ao lugar da mulher, e por isso foi tão desvalorizado ao longo do tempo. Hoje em dia esse lugar vem sendo ressignificado e o artesanato contemporâneo ganhando reconhecimento. Sinto que nosso momento econômico, com a retomada do fazer manual e a luta feminista ganhando novos espaços tem sido ideal para o meu trabalho. O que fica pra mim é que são cada vez mais mulheres se ajudando e conquistando reconhecimento. A repressão nos ensinou muita coisa e nos deu uma força singular, que é potente e leve.

Lívia Stefani por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Os pequenos prazeres do dia a dia.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Buscar conexão interior e mergulhar num universo inspirador. Doar-se por completo.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou num caminho de descobertas tanto do meu potencial criativo quanto de caminhos profissionais. Um dos conceitos que estou introduzindo aos poucos no meu trabalho é a ressignificação de materiais e objetos e a reutilização de materiais descartados.

Além disso, seguindo a mesma linha das esculturas de vestir, estou estudando iniciar um projeto em parceria com chefs de cozinha para a criação de esculturas para servir. O objetivo é criar uma experiência sensorial que una sabor e estética através de peças feitas sob medida para cada proposta de prato.

Lívia Stefani por Projeto Curadoria
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