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Layla
Loli
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
20 anos . artista . escritora

Fui criada por uma família majoritariamente cristã, estudei balé clássico desde os 7 anos de idade, e fui para o contemporâneo aos 12. Pouco tempo depois, aos 15, sofri um acidente grave que me impossibilitou de continuar dançando, o que fez com que eu me aproximasse do contato improvisação como uma alternativa e me aprofundasse nos estudos e desenvolvimento de performances ao longo do tempo com diversos coletivos que conheci pela cena paulistana. Ingressei na UNIFESP em História da Arte, e lá me aproximei das Artes Cênicas e estudos sobre o corpo e Sociologia da Arte, e em seguida iniciei Cenografia e Figurino na Escola de Teatro SP. No meio disso tudo, eu que já havia participado do Daime e outras vertentes ayahuasqueiras, conheci a Umbanda seguindo com a prática da ayahuasca, e passei a integrar a questão da espiritualidade de maneira muito enraizada na minha vida prática, e a partir daí comecei a escrever definitivamente e desenvolver outros aspectos da minha produção artística.

Layla Loli por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Tudo que estiver ao meu alcance. Hoje me sinto mais à vontade com o verbo e o corpo, que é o que estou mais familiarizada por acreditar que dão conta de muitos sentimentos e necessidades que eu não saberia materializar com alguma outra ferramenta. Mas tenho me dedicado bastante à manipulação de novos materiais plásticos e audiovisuais, e tem sido um prazer enorme encontrar novas feições e possibilidades de canalização.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Acredito ser essencial, nos dias de hoje principalmente, que a gente esteja sempre se exercitando pra desenvolver uma poética que seja capaz de uma territorialização artística, sempre atenta a uma deglutição viável no imaginário de quem é o objeto de interesse ao alcance dessa arte. Porque são tempos de histeria coletiva, sabe? Então apreender as nuances dessas constelações políticas, sociais, estéticas etc é o que me motiva a uma produção de caráter desviante, uma centelha de rebeldia quase instintiva em um cenário de autoridade que vem sucumbindo todos os aspectos que estruturam nossa vida. A minha inspiração propriamente dita, fica por conta da necessidade de me afirmar enquanto sujeito histórico no meio dessa bagunça toda, da necessidade do desbunde frente as degradações que vem agredindo nossa existência. Pra mim a possibilidade de materializar, seja através do corpo ou da palavra, estados mentais que proporcionem algum tipo de entusiasmo, seja ele intelectual, sensitivo e quem sabe até mesmo físico, é o que me incentiva ao trânsito por esses mundos pra ser capaz de traduzir e abstrair a sucata desses mecanismo compositores.

Layla Loli por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Uma vez me disseram que o meu processo criativo era “axiomático”. Na época eu fiquei meio ofendida, eu nem sabia direito o que isso significava, mas hoje acho que é a definição mais sincera quando olho pra minha produção até agora, porque de fato acabam sendo processos quase violentos de tamanha crueza. Quando estou trabalhando num poema por exemplo, eu me reprimo ao máximo em fazer alterações póstumas ao momento da materialização daquelas abstrações, me limitando apenas a acabamentos técnicos. O mesmo acontece com as outras expressões, mesmo que sob plataformas imagéticas, eu parto de um vislumbre e deixo o resto se edificar no processo de experimentalismos. Acho que é a magia de trabalhar com performance também. Inegavelmente eu me permito o consumo e estudo de inúmeras referências e inspirações anteriores a consumação de uma produção – até por que como criticar e tumultuar estruturas que a gente nem mesmo conhece, por uma simples romantização da arte pela arte? - mas acima de qualquer dispêndio formal, eu valorizo muito essa efusão quase instintiva de corporizar os escoamentos da psique no nosso plano, e aceitar o próprio curso de manifestação como sendo o resultado final, o que é um exercício incrível de ressignificação das ranhuras, bestas e obviedades que residem dentro de nós.

Layla Loli por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

A ingestão de arte, sob diversos tipos de suporte, é uma dinâmica orgânica e muito espontânea na minha rotina, provavelmente desde as minhas memórias mais antigas (que claro, não são tão antigas assim). Claro que essa ingestão acaba sendo filtrada, direcionada e aperfeiçoada através de estudos mais imersivos no assunto de interesse da vez, e a partir daí são muitas variáveis de como vou ser capaz de manter a mente fecunda, já que eu procuro não alimentar nenhum tipo de método, engessamento processual, sabe? No mais, acredito no eterno balbucio de linguagens, e referente a isso, experiências de alteração de consciência, e corpo, são também perturbações de linguagem e, logo, de espírito, que pra mim são pilares do devir artístico. Nos últimos anos venho edificando uma forte relação com a psicodelia e plantas de poder, o que além de ser o esqueleto do que tenho como autoconhecimento hoje, sem o qual não seria capaz de emprenhar a intensidade pretendida na minha arte, sem dúvidas são disposições cardeais pra estimular a feracidade que me cabe enquanto propositora e ferramenta de códigos plurais.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Acho quase impossível hierarquizar meus trabalhos dessa forma, tenho um xodózinho até pelos que considero de baixa qualidade porque ainda assim são símbolos de uma fase ou sentimento que rolou naquele momento, mas existem alguns que carrego com um carinho mais distinto pelo seu valor pessoal. Que me vem à memória agora, tenho uma série de poemas, ainda sem nome ou destino certo, onde cada um é referente a uma mulher ou homem que amei (no sentido de amor romântico mesmo) ou me relacionei de forma mais profunda. Os afetos, sexualidade e afincos são sempre muito presentes nas minhas produções escritas, mas essa série em especial foi extremamente importante não só pra que eu desembaraçasse os desencontros que até então estavam na minha garganta, mas pra que também houvesse um distanciamento entre a minha persona e, naquela circunstância, o objeto a ser rememorado, compreendido, abandonado ou até mesmo perdoado, o que no final das contas acabou sendo muito mais sobre minhas próprias partidas e perenidades do que sobre qualquer outra pessoa.

Layla Loli por Projeto Curadoria
Layla Loli por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Não existe um episódio específico, mas sem dúvidas houve uma época de produção escrita frenética, diária e extensa, e a primeira vez que joguei os frutos no mundo, que foi seguida por um reconhecimento e circulação intensa dos materiais. Foi então que eu passei a compreender a produção artística enquanto um potencial ofício na minha vida, e não só uma consequência do ócio ou acumulo de informações, onde forma e conteúdo são indissociáveis. A partir daí me tomei a sério enquanto artista e decidi – ainda um pouco relutante – que ao menos finalizaria meu primeiro livro dentro dos meses seguintes. De alguma forma senti um amadurecimento artístico muito grande depois desse desafogo mental, e passei a me levar a sério o suficiente pra arquitetar e iniciar diversos outros projetos.

Layla Loli por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tenho algumas bases de influência e inspiração, não necessariamente pela arte em si – apesar de também admirá-las profundamente – mas principalmente pela pessoa por trás dela. Elis Regina, Hilda Hilst e Frida Kahlo são algumas delas com certeza. Acredito que o maior ponto que elas tem em comum, mesmo atuando em campos distintos da arte, é de terem sido mulheres extremamente intensas, que tiveram episódios de abusos e tragédias em sua trajetória pessoal, e ainda assim terem se estabelecido como mártires de gerações e/ou movimentos e consagrado sua produção através de conjuntos viscerais da vida artística com a vida pessoal. Na verdade a maioria das minhas influências são mulheres – e sou muito grata aos envolvidos por isso – que dividem algumas dessas características. Entre as escritoras ainda consigo me lembrar da Sylvia Plath, Ana Cristina C, Silvia Federici, Helena Blavastski, Simone de Beauvoir, Anaïs Nin, e algumas contemporâneas como Carla Diacov, Aline Bei e Júlia de Carvalho Hansen. E claro que produções masculinas como as de Roberto Piva, Whitman, Drummond, Maiakovski, Caio Fernando Abreu, Liev Tolstoi, Juan Rulfo, Jose Luis Mora Fuentes e Georges Bataille também fazem morada entre as minhas inspirações. Ana Mendieta, Tania Bruguera, Joan Jonas, María Evelia Marmolejo, Carmen Beuchat, Carolee Schneemann, Marie Chouinard e Pina Baush são performers e dançarinas incríveis que me guiaram e guiam muito dentro desse universo. Gustave Courbet, Georgia O'Keeffe, Goya, Tina Modotti, Chavela Vargas, Bjork, Patti Smith, Janis Joplin, Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, Marília Pera, Rudolf Koppitz e tantos outros que entram nessa conta que eu jamais conseguiria lembrar de todos numa só leva. A grosso modo, acredito que foram/são artistas intensos, mesmo os de conteúdo delicado, alguns visionários, capazes de causar burburinho, incomodar ou desviar normatividades e que, mesmo inconscientemente, se comprometeram não só com as subjetivações, mas também com as afluências de sua instalação temporal.

Layla Loli por Projeto Curadoria
Layla Loli por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Com certeza. Isso fica muito mais nítido quando mesmo me reconhecendo enquanto uma mulher branca, logo com diversos privilégios e facilidades de acesso a arcabouços de informação, ainda sinto dificuldades enormes em penetrar certos espaços de produção, ofício e até mesmo reconhecimento informal. Mesmo com os avanços na luta pela emancipação e autonomia feminina – que ainda assim não passam de direitos básicos que nem chegam a ser garantias – a hegemonia ainda é de corpos brancos, biologicamente designados e aceitos enquanto masculinos, em sua maioria cristãos e ocidentais – logo intrínsecos a cânones clássicos, no que diz respeito a arte - joeirando manifestações artísticas através de crivos naturalmente conservadores, discriminatórios e por vezes egocêntricos, os quais, falando de uma dimensão estrutural, acabam por estabelecer onde, quando e como uma produção feminina pode se manifestar. Tive descompasso com algumas editoras para as quais mandei o original do livro a respeito de “linguagem potencialmente ofensiva”, e diversos pedidos de alterações ou exclusão de textos. E eu sei que isso acontece porque eu falo abertamente de sexo, sem alusões ou suplentes aos termos vulgarizados. Enquanto conheço – só pessoalmente – pelo menos uma dúzia de homens que escrevem única e exclusivamente com linguagem pornográfica – que lembremos, é diferente de “erótica” - e estão publicando amplamente e sendo admirados por seu trabalho. Da mesma forma que frequentemente tenho a divulgação de algumas peças denunciadas e excluídas das mídias sociais, e até mesmo a inscrição negada em feiras de exposições, por haver seios femininos e vaginas, ainda que não de forma explícita ou sexualizada. São exemplos muito triviais mas que ilustram bem a questão básica de como o machismo tem trabalhado no campo prático, inclusive da arte: existe um abismo entre o que nós mulheres conseguimos produzir e o que conseguimos colocar no mundo de forma precisa e leal à catarse de sua criação, sem qualquer interferência uma vez que, mesmo que em processo de redução, a preponderância do que é digno de visibilidade e consumo ainda é de jurisdição masculina.

Layla Loli por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Nunca paro pra pensar muito sobre isso, mas nos últimos tempos tenho sentido uma felicidade autêntica em estar com as pessoas queridas da minha vida. Cuidar mais de mim em todos os aspectos, conhecer melhor como funciona o fluxo entre meus sentimentos, vontades, mágoas, e inclusive as peculiaridades do meu corpo, também tem sido movimentações felizes, mesmo esbarrando em alguns desconfortos. Tudo que tenho reconhecido como felicidade tem alguma afluência no autoconhecimento, o que automaticamente implica em se conhecer justamente por saber como evitar, na sua pele, o cultivo de estados mentais de baixa frequência.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Estarem abertas ao mundo, e leais a si mesmas. É incrível como quando nos abrimos a diversas referências e formas de linguagem, acabamos descobrindo preconceitos – inclusive artísticos - que nem sabíamos que carregávamos e nossa carga teórica se potencializa muito pra hora da criação. Mas muitas vezes pode ser uma prática sufocante, já que a gente encontra todo tipo e forma de criação, que podem carregar frequências negativa a depender de como assimilamos aquilo e sob qual contexto está inserido. Por isso falo sempre da lealdade à si mesma. É um mundo de homens, um mundo de medos, frustrações e competitividade, um mundo capitalista que vai constantemente deslegitimar nossas qualidades e competências, mas precisamos sempre nos lembrar que é um sistema que está em ruínas, e não a nossa pessoa, criatividade ou produção.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Além do livro de poemas que está pra ser lançado esse ano, recentemente comecei a moldar um romance já pro segundo livro, o que é meio assustador porque é um campo de linguagem totalmente inédito pra mim. Também estou retomando os estudos pra tatuagem handpoke pra seguir com um projeto voltado às formas e movimentações do corpo enquanto objeto. Também tenho produzido alguns videopoemas, me envolvido com produção cultural, estudado cerâmica e contato improvisação. Tudo pra coisas que quero trazer ao mundo ainda esse ano, a cabeça está a milhão.

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