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Giulia
Cavallo
Itália
vivendo em Lisboa . Portugal
40 anos . ilustradora

Sou italiana, mas moro em Lisboa há quase 12 anos.

Em Lisboa cheguei em 2007, depois de dois anos de trabalho em Moçambique.

Vou explicar melhor. O meu trabalho artistico é recente. O desenho é uma paixão antiga, que cultivo desde criança, mas sempre ficou como algo lateral, não pensado. Só imaginado, lá no fundo.

Eu estudei Filosofia na Itália e depois segui o caminho da Antropologia, e dos estudos dos fenômenos religiosos em contextos africanos. Foi por isso que decidi ir trabalhar em Moçambique.

Em Lisboa consegui uma bolsa de doutoramento e assim em 2010 voltei para Maputo para a minha pesquisa.

Desde que terminei o meu doutoramento, muitas mudanças e transformações aconteceram em minha vida. Tornei-me mãe, separei, perdi o trabalho, encontrei outros, os perdi novamente. Mas decidi ficar em Lisboa, pois já a sentia como casa. Abrigo.

Foi então em 2015 que comecei a fazer do desenho o meu dia-a-dia. Foi num dia iluminado na Costa Atlantica que tomei esta decisão.

Desde então desenhei muito, vendi os meus trabalhos originais, impressos, conheci novas pessoas, abri horizontes. Abri e fechei também um atelier de trabalho onde cada mês expunha um artista diferente.

Giulia Cavallo por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Trabalho principalmente em papel, com guache, tinta da china, canetas Sakura, Posca, e, mais recentemente, com acrílicos.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Ao princípio do meu percurso, inspirava-me às memórias ligadas aos lugares. Às paisagens, as vistas, as arquiteturas urbanas.

Depois, devagarinho, comecei a sentir a necessidade de expressar um percurso de reflexão intenso que estou a atravessar, como mulher, como indivíduo. Desenhar permite-me expressar através de uma linguagem poética, os trilhos pelos quais caminhos. As zonas de sombra, os momentos iluminados, de encontro. E nisto tudo, as plantas são um fio condutor, como aliadas. Completam as memórias, o olfato, a vista. Os desejos. As plantas estão conectadas ao sentido da alma como jardim interno, à prática do cultivo, da paciência, da cura, do cuidado, tão raras hoje em dia.

Desenhar acompanha um processo de cura.

Giulia Cavallo por Projeto Curadoria
Giulia Cavallo por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Cada desenho é como um momento de consciência. Uma memória. Uma poesia. Cada desenho representa um momento suspenso num ponto de consciência, para mim. Desenhar ajuda-me a focar, a afunilar o pensamento. A estar concentrada no detalhe e na beleza.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Aprendi a saborear cada pequena coisa. Os detalhes. O vestido de uma mulher na rua, uma folha, a combinação das cores dos prédios de uma rua.

Tento sempre deixar fluir o pensamento quando ando na rua, tomo banho, quando estou a despertar, quando ouço alguém contar uma história.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Adoro explorar o sagrado feminino, juntos com folhagens, plantas. Para mim, como já disse, desenhar a dança entre seres e árvores ou plantas faz parte de um processo de cura.

É uma forma de comunicar que começo a gostar cada vez mais. O que eu gostava é de conseguir unir poesia ao desenho. Histórias ao desenho. Conteúdos etnográficos aos desenho.

Giulia Cavallo por Projeto Curadoria
Giulia Cavallo por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Para mim, um dos momentos mais importantes foi a apresentação de uma coleção de desenhos sobre a minha tese de doutoramento no mesmo instituto onde me doutorei, em Lisboa.

Para mim, trabalhar novamente sobre os temas da minha dissertação (práticas de cura nas igrejas Zione em Maputo, pequenas igrejas locais), mas através da linguagem do desenho, foi uma viagem emocional muito intensa. Foi a possibilidade de transmitir o meu testemunho e os dados recolhidos durante um ano de trabalho em Moçambique de uma forma mais carinhosa, mais sentida.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu gosto muitissimo da ilustração para livros infantis. Há livros ilustrados que para mim são verdadeiras obras de arte. Já me emocionei bastante ao abrir livros ilustrados. Acho que esta influência reflete-se muito na minha linguagem.

Giulia Cavallo por Projeto Curadoria
Giulia Cavallo por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

senti uma verdadeira limitação social por eu ser mulher, no meu meio e no seio da minha família, apesar de ter lutado muito nos últimos anos como mãe solteira para poder gerir tudo.

// E o que te faz feliz?

Faz-me feliz encontrar clareza nas minhas intenções, sentir que o caminho está limpo. Faz-me feliz fazer caminhadas longas, cansativas. Faz-me feliz ficar horas a fio a desenhar. Faz-me feliz ter tempo e espaço para a expressão verdadeira. E para a reflexão. Faz-me feliz fazer um trabalho com um sentido, feito com paixão.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Ficar com os pés bem assentes no chão, aprender muito com os outros, observar muito e sobretudo não ter medo de expor-se. Não procurar o perfeccionismo, porque é só um álibi para não sair da casca. E ler o livro da Júlia Cameron, The Artist’s Way!

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Neste momento o meu desejo é o de escrever e desenhar, para realizar uma coleção de poemas e desenhos, para um futuro projeto editorial.

Giulia Cavallo por Projeto Curadoria
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