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Gio
Fortini
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
51 anos . ceramista . designer

Sou paulistana, filha de imigrantes italianos, que nunca enxergaram a arte como trabalho. Enfatizo isso pois apesar de sempre ter sido “arteira” toda a vida, nunca encarei como algo que pudesse ser o meu projeto de vida ou ganha pão.

Dei passeios por muitas áreas e materiais no que se refere às artes manuais: pintura, marcenaria, escultura em metal, resina... mas desde que vi o filme “Ghost” e a cena emblemática dos protagonistas no torno, me encantei pela cerâmica mas sem jamais acreditar que teria habilidade suficiente para essa arte.

Há alguns anos me arrisquei a ter aulas num ateliê próximo a minha casa, mas um acidente interrompeu por 6 longos anos o meu aprendizado. No final de 2016 procurei a Karina Ignacio, do Ateliê do Quintal e recomecei as aulas, e percebi que tinha encontrado o que me deixava feliz. Presenteava a todos com as pecinhas que produzia nas aulas, até que um dia percebi o interesse em colares que eu havia feito para meu próprio uso. Foi a primeira vez, aos 50 anos de idade, que me dei conta de que sim, que existiam pessoas que valorizavam a minha arte, e mais, pagariam por ela!

Deste dia até hoje, em cerca de pouco mais de 1 ano e meio, já produzi e comercializei algo próximo a 2 mil peças, principalmente colares e peças decorativas.

Gio Fortini por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

O barro é minha matéria prima. Seja pela modelagem ou no torno, argila é a base de todo o meu trabalho.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A criação em si é minha maior motivação. Ainda é um processo muito intuitivo e em ebulição, tudo me inspira... às vezes um momento, uma paisagem, um livro, uma fotografia.

// Como é o seu processo criativo?

Sem horário, sem tempo, sem programação. Quase que independe de mim. Algumas vezes penso... preciso produzir, pego a argila e ela não se transforma... ela não se molda à minha vontade. Nas minhas mãos o barro, matéria orgânica cria vida própria, e é ele quem manda na sua transformação.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu vivo intensamente, estudo bastante, procuro conhecer novas formas de utilização... Agora estou estudando “Joalheria Artística” na FAAP, mesclando as técnicas para criar “Joias Cerâmicas”.

Gio Fortini por Projeto Curadoria
Gio Fortini por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tenho carinho por cada peça que produzo mas mantenho como acervo pessoal as primeiras peças que fiz. Consigo enxergar em suas imperfeições todos os passos do meu caminho, da minha trajetória.

As joias cerâmicas são as queridinhas da vez, e um trabalho atual, que gosto muito é a instalação que preparei para a 1ª. Bienal da Cerâmica, que está exposta na Galeria Olido em São Paulo.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Poderia citar alguns... a primeira vez que minha mãe elogiou um trabalho meu e mostrou orgulho ao falar da minha arte.... a primeira vez que vendi uma peça... a primeira vez que recebi a confirmação que minha inscrição para uma exposição de arte tinha sido aceita... Ver minhas peças expostas no Museu de Arte Sacra. A vernissage da Bienal em meio a artistas consagrados e de renome internacional...

Cada um do seu jeito foram momentos transformadores, que confirmavam que eu estava (e estou) seguindo o caminho que minha alma escolheu.

Gio Fortini por Projeto Curadoria
Gio Fortini por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Sou muito eclética nos meus gostos, em relação a tudo. Adoro trabalhos limpos, de linhas precisas... mas meu trabalho é totalmente o oposto disto! Confuso, rebuscado, colorido e cheio de texturas.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sinceramente não. Meu filho diz que sou a exceção que confirma a regra, mas nunca senti preconceito em nenhuma esfera. Inclusive em toda a minha carreira “não artística” sempre assumi cargos de liderança em que a maioria dos subordinados eram homens.

Gio Fortini por Projeto Curadoria
Gio Fortini por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Gente do bem me faz feliz. Uma boa conversa me faz feliz. Meu filho me faz feliz. Meu amor me faz feliz. Sentar no torno e ver nascer uma peça me faz feliz. Abrir o forno e ver as surpresas que o esmalte me preparou me faz muito feliz.

Gio Fortini por Projeto Curadoria
Gio Fortini por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Acredito que antes de sermos mulheres, somos Gente. Acreditar que questões de gênero possam ser fatores limitantes para qualquer tipo de empreendimento, só fazem aprisionar o poder criativo.

Fazer algo em harmonia com o que o coração e a alma querem traz fluidez a caminhada de cada um.

Gio Fortini por Projeto Curadoria
Gio Fortini por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Para o próximo ano pretendo expandir a minha linha de acessórios de moda com a abertura de uma loja própria. Ainda está engatinhando esta ideia mas acredito que logo logo estará andando a passos largos.

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