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Flavia
Leme
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
40 anos . artista

Desde muito cedo já sabia que o universo das artes seria a vereda que trilharia. Desenhar, colorir, criar, sempre foram ações que permearam minha infância. Fui muito incentivada pela minha mãe que, com sua veia artística e delicadeza, soube me conduzir por meio de livros de arte, cursos livres e outros tantos estímulos nesse caminho. Contudo, possivelmente levada por uma insegurança com relação ao que o mercado artístico pudesse me oferecer inicialmente cursei por 3 anos a faculdade de arquitetura. Por questões financeiras tive que largar essa graduação e ingressei no curso de artes na UNESP. O curso da vida me levou por seguir a carreira acadêmica nessa mesma área e acabei fazendo mestrado e doutorado.

Como uma típica pisciana, sou uma pessoa sonhadora, mas minhas constantes elucubrações deixam muitos dos meus projetos apenas no mundo das ideias. Mesmo assim, nunca perco a esperança de conseguir fazer tudo o que quero!

Flavia Leme por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

A cerâmica é o meu principal suporte para me expressar, acredito que seja por conta da minha primeira formação em arquitetura que peguei o gosto pelo tridimensional. Costumo dizer que quando a gente é “mordido pelo bichinho da cerâmica” não tem jeito: estamos indissoluvelmente conectadas a ela e nosso processo criativo vai sempre passar pela modelagem. Contudo, eu também gosto muito de desenhar com cores e me aventuro a costurar em papéis – um outro jeito de transpassar a fronteira do bidimensional para o tridimensional. Recentemente comecei a fazer performances que foram registradas em vídeos e fotografia e, por ser um meio de expressão que mescla o tridimensional com a experiência temporal, acho que ainda vou explorá-lo ainda bastante.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Questões ligadas ao universo feminino nas artes sempre foram minha fonte de inspiração e pesquisa, tanto na parte prática, quanto teórica. Deste modo, posso afirma que a minha maior motivação liga-se diretamente à minha realidade pessoal pelo fato de ser mulher artista latino-americana. Outro tema que me é muito caro é o corpo feminino, algo que ainda é grande fonte de inspiração nas artes. Como mulher e artista sempre me questiono sobre como esse corpo deve e pode ser apresentado e a partir de qual perspectiva. As múltiplas inquietações acerca de como vivemos em uma sociedade machista é também uma grande motivação para mim.

Flavia Leme por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo é um tanto caótico e inconstante. Desenhos algumas vezes são a primeira forma de manifestação de uma ideia, mas em muitos casos não saem do papel. Entretanto, nada para mim é mais inspirador e motivador do que estar em contato direto com a matéria plástica da argila: muitos dos meus trabalhos surgiram desse processo de sovar e modelar que é ultra meditativo. Nesses momentos gosto de estar sozinha e concentrada para criar, pois sou muito dispersiva e solícita. Apenas quando estou reproduzindo peças em série, que é uma ação mecânica, é que posso interagir com outras pessoas sem grandes prejuízos para minha produção artística.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Pesquisar por meio da leitura, de vídeos, filmes, viagens, conversas. Acredito muito nas trocas de conhecimento e energias. Da mesma forma valorizo os momentos de solitude e reclusão. Caminhadas solitárias, com ou sem destino preciso, são ótimas para me ajudar a manter o foco e concentração, mesmo que uma flor ou borboleta me desviem um pouco do caminho para me fazerem sorrir.

Flavia Leme por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Os trabalhos de transição entre a minha pesquisa de mestrado e doutorado, denominados “Fertiliza_dores”, onde mesclo as minhas peças de cerâmica com o meu corpo. Considero essa pesquisa a semente das minhas atuais produções sobre a relação do corpo feminino como alvo de críticas, padrões, usos e abusos das mais variadas formas. Apesar do universo feminino ser tradicionalmente considerado de âmbito privado (em detrimento do universo masculino ser o de âmbito público), os corpos de mulheres foram e ainda são constantemente expostos tanto nas artes, quanto nas mídias. Minha mais recente serie denominada “P.F. (Peito Fake)” é meu outro foco de preferência. Nela reproduzo peitos extremamente redondos e artificiais e os coloco em lugares incomuns tais como pratos, marmitex, caixas de ovos e afins, para provocar o expectador e lembrá-lo de que nossos corpos não são objetos de consumo e nem tão pouco de sedução. Não estamos aqui para servir ninguém.

Flavia Leme por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acho que o marco importante do meu trabalho foi criar a série “Mulheres Recipientes” desenvolvida em cerâmica, onde relacionei de modo poético e crítico, o corpo da mulher como um receptáculo. O ventre côncavo desses corpos era preenchido por pequenas esferas, elipses ou formas arredondadas que pudessem remeter as outras partes do corpo feminino. Esse trabalho foi aprofundado em minha dissertação de mestrado e, posteriormente, foi selecionada para se tornar uma publicação digital com distribuição gratuita pelo Selo Cultura Acadêmica da Editora da UNESP. A partir desse trabalho, eu segui com a pesquisa sobre Mulheres Artistas Latino Americanas que culminou na minha tese de doutorado intitulada “Desvios do Barro: raízes culturais, feminismo e rituais nas poéticas de mulheres artistas da cena contemporânea latino-americana.”

Flavia Leme por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Muitas são as Mulheres Artistas que me inspiram! Anna Maria Maiolino é uma grande mestra para mim, pois é capaz de traduzir as questões sobre rituais e ancestralidade de modo extremamente contemporâneo e poético. Ana Mendieta é outra influencia para meu trabalho, pois foi por meio das suas ações performáticas que me inspirei a seguir por esse caminho que ainda me é tão desafiador. Celeida Tostes é igualmente uma grande musa, por ter sido uma artista e professora capaz de movimentar grupos de pessoas para criar seus projetos de grande porte. Sandra Cinto, apesar de não trabalhar com o barro, é uma artista e ser humano que admiro profundamente: seus trabalhos transitam entre o onírico e a memória da infância, são sutis e ao mesmo tempo de tirar o fôlego. Ela também movimenta grupos de pessoas em todos os lugares que expõe, para que juntos realizem os desenhos nas paredes. Seu trabalho é pura poesia desenhada.

Flavia Leme por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim, sem dúvida! O preconceito está presente de muitas maneiras e se camufla em sutis camadas. Observo que a cerâmica, uma técnica milenar que acompanha a humanidade há milhares de anos e ainda hoje se faz presente em nossa sociedade nas peças utilitárias, industriais, tecnológicas e decorativas, é uma atividade mais recorrente entre as mulheres, sobretudo nas culturas dos povos originários. Há de se ressaltar que a argila é um material barato e que foi usado por muito tempo nas chamadas Belas Artes apenas como um meio para se chegar em determinado fim. Logo, o estigma da cerâmica atinge pontos nefrálgicos e está relacionado como arte menor, de pouco ou nenhum valor artístico, sobretudo dentro da cena contemporânea. Por essa razão, optei em minha tese de doutorado desviar o olhar para a produção de mulheres artistas latino-americanas que se utilizassem do barro (argila e cerâmica) como suporte para suas criações artísticas por meio do tripé temático: ancestralidade, feminismo e rituais. A análise da arte da cerâmica ocorreu por um viés diferente dos modelos eurocêntrico e androcêntrico e das tradicionais correlações do barro com artesanato e design.

Flavia Leme por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Lembro da minha mãe sempre me dizer que as melhores coisas da vida são de graça e hoje acho graça concordar com isso. Já tive uma vida um tanto agitada quando trabalhei por uma década como animadora cultural no Sesc SP. Hoje o que me mais me deixa contente é ter tempo livre. Poder ter tempo para os respiros, as pausas, os encontros, os cafés com amigos sem olho no relógio. Ter tempo para produzir meu trabalho e criar é algo que valorizo ao extremo! Mas eu também adoro fazer uma maratona de seriados e ver filmes comendo pipoca deitada na cama (especialmente se for um domingo preguiçoso de chuva). Amo tardes de sol, mergulhos de mar e piscina, horizontes a perder de vista, viajar para lugares desconhecidos e culturas diferentes, estar com meu namorado todo o tempo que posso, pois vivo em transito por conta da minha profissão como docente. Outra coisa que me anima é ouvir musica enquanto trabalho, estudo, cozinho ou realizo qualquer tarefa: é cantar para subir!

Flavia Leme por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Somos cíclicas, devemos sempre nos lembrar e respeitar esse fato. E é justamente daí que devemos tirar nossa força e empoderamento. É importante olharmos para aquilo que nos preenche a alma e nos faça sentir especial e não para aquilo que os outros esperam de nós. Isso pode parecer muito clichê, mas não é tarefa simples de se fazer. Por milhares de anos nos foi ditado o que e como deveríamos ser, agir, vestir, pensar, falar e isso ainda ecoa em nossos inconscientes, mesmo que de forma sutil. Que sejamos capazes de ouvir nossas verdades para que isso gere as nossas criações únicas e especiais. Sororidade é a palavra de ordem: devemos buscar ajuda e em outras mulheres, porque juntas somos mais fortes!

Flavia Leme por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou com projeto de criar uma coleção de joias com outras mulheres artistas, como a Flavia Amadeu e a Tainah Fagundes, ambas têm suas próprias coleções de joias orgânicas com látex da Amazônia. Outra amiga que estou com projetos é a Kaline Rossi que está desenvolvendo uma linha de cosméticos naturais e ficarei responsável por criar os recipientes para eles.

Também estou criando uma linha de produtos com diversas utilidades que tem como mote o corpo feminino: peitos e vaginas irão saltar das minhas peças artísticas para se tornarem objetos fetiches acessíveis para quem quiser!

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