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Eliete
Della Violla
Brasil
vivendo em Sorocaba . SP
26 anos . artista . designer

Sou artista, vivo e trabalho em Sorocaba, interior de São Paulo. Atualmente trabalho como freelancer em Design Gráfico, que é a minha formação.

Tenho uma ligação muito forte com a palavra. A poesia foi o primeiro acontecimento artístico que me ocorreu na vida, quando eu ainda nem sabia o que era poesia, o que era literatura, o que era arte. Isso já vai fazer dez anos. De lá pra cá muita coisa aconteceu, outras manifestações se somaram, como o desenho, as artes visuais, o design gráfico, mas nunca parei de escrever.

Hoje percebo que há um elo forte entre tudo isso que vem pela visualidade, materialidade, o pensamento não-linear, algo que permeia a poesia, o desenho e o design gráfico.

Atuei também na pesquisa científica durante a graduação, li autores da comunicação, semiótica e filosofia que me influenciaram muito e também acabaram compondo meu arsenal de referências. A partir de 2017 comecei a fazer minhas próprias publicações impressas, com poesia, desenho e experimentos visuais.

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Tenho me dedicado atualmente aos projetos de design gráfico, às publicações, cartazes, zines, gravuras, objetos, poesias, textos e qualquer outra manifestação que chegue e me contemple. Atualmente sinto que essas coisas que pareciam díspares passaram a fazer sentido em conjunto. Com o tempo percebi que a palavra é algo que permeia todo o meu trabalho. Estou sempre escrevendo muito, sejam diários, anotações de sonhos, poemas, ensaios, reflexões, e-mails que troco com amigos, newsletters que envio. Pra além disso vem a questão da materialidade/visualidade da palavra, que também me interessa e aparece nos meus trabalhos mais gráficos. Pelas artes visuais e design gráfico disponho de ferramentas para materializar tudo isso que vem pelo texto, então eles acabam norteando muito minhas escolhas estéticas.

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Sinto que meu processo de criação sempre envolveu algum teor de incômodo e desconforto, mais no sentido do impulso criativo, do momento inicial da busca pela criação. Acredito que eu produza muito como uma resposta a esse estímulo, que é parte da condição humana, sobretudo da qual posso falar, a humanidade ocidental, altamente industrializada e tecnológica. Meu momento criativo não me soa como distração ou leveza, me sinto mais próxima de artistas que também trazem esse teor de incômodo nas produções. O que me inspira, portanto, não são os momentos de plenitude, pelo contrário, nesses momentos pouco sinto necessidade de fazer arte. A ilusão de criar qualquer coisa me dá algum consolo diante deste desamparo ou incômodo que mencionei, ainda que este ato nada tenha de confortável. O ato a que me refiro é este impulso inicial. Já o momento da experimentação e da execução, ou seja, quando começo os processos mais práticos, é pura fruição. Porque aí entram em cena (com mais força) o corpo e os estados contemplativos, que considero muito meditativos no sentido de estar totalmente presente e porosa, com todos os sentidos vivos. Aí acesso um estado mais febril, porque entram a paixão e o acaso que me levam a vários imprevistos e sensações de novidade. Isso nada tem a ver com o mito da inspiração, que surge do nada, mas sim com o resultado dessa abertura anterior e de outros fatores que possivelmente desconheço.

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Demorei pra perceber que meu pensamento é muito pouco linear, o que às vezes me dá a sensação de que meu processo é meio disperso. Produzo coisas diariamente, que a um primeiro olhar me parecem díspares, mas só quando vou reunir esses rastros é que consigo perceber a dimensão de um projeto, pelo seu conjunto. Então o principal pra mim tem sido não questionar esses impulsos criativos – coisa que ainda me pego fazendo com frequência - e acolher o que me chega.

O projeto que estou mais engajada agora se chama Sim, que veio à consciência em 2017, mas percebo que devo estar trabalhando nele desde 2015, pelo menos. Me vejo sempre neste lugar das experimentações, então conforme vão surgindo poemas, desenhos, objetos, vou acolhendo, dando nome e materializando, seja em publicações ou em outras peças, e já coloco pra jogo, portanto não penso em um produto final e sim em vários lampejos que surgem. Um destes lampejos é o livro que está previsto para ser lançado em 2019, que irá reunir poemas e desenhos surgidos neste contexto. Nessa de experimentar também acumulo muito material que ainda não sei que rumo irá tomar e acabo sendo surpreendida. Desde que passei a pensar nessa divisão entre projetos me veio um alívio, meu processo que parecia muito caótico passou a fazer algum sentido.

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Percebi recentemente que preciso colocar atenção no meu corpo, uma dimensão que infelizmente ainda separamos da mente/razão/pensamento e por este motivo senti que deixei de lado por muitos anos. Hoje não deixo de fazer atividade física, encontrei uma atividade prazeirosa e com a qual me identifico agora. Tento não pensar sentada, danço sozinha, faço caminhadas. Procuro participar de eventos, clubes, encontros, grupos com outras pessoas, gosto de ir a feiras, exposições, shows. Também há uma inspiração mais direta, uma luz que irradia das leituras que faço, entrevistas que gosto de assistir (adoro biografias), músicas que ouço, shows que assisto, exposições que visito...

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tenho um afeto muito grande pelo Limoeiro, um blog que foi o primeiro lugar onde depositei os poemas e textos que produzia na adolescência. Nunca divulguei o endereço pra ninguém, mas alguns amigos foram descobrindo e me vi em uma rede onde me senti confortável para divulgar o que eu fazia, já que sempre fui muito tímida. Minha dificuldade de contato com as pessoas era muito grande e ele foi um antídoto pra muitas dores desse período. Ali eu experimentei uma sensação boa que vinha desse paradoxo de querer me esconder e ao mesmo tempo precisar mostrar o que eu fazia.

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Em 2017 expus a série Balanço Blue na inauguração da nova sede do Coletivo Cê, um grupo de Pesquisa e Prática Teatral que fica em Votorantim, uma cidade vizinha. Foi um convite de amigos e artistas muito queridos, que antes mesmo de serem amigos eu já acompanhava e admirava, então teve um gosto muito bom pra mim. A palavra exposição sempre me foi problemática, pelo meu histórico com a timidez, então sinto que atravessei um portal ali, ao mesmo tempo difícil e confortável porque estava ao lado de pessoas queridas. Desta exposição nasceu meu primeiro zine e minha primeira participação em uma feira, outros marcos importantes também.

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Recentemente senti que os artistas experimentais são os que mais vêm me influenciando. Na literatura/filosofia, leio Clarice Lispector, Hilda Hilst, Sylvia Plath, Lygia Fagundes Telles, Ana Cristina Cesar, Matilde Campilho, Vilém Flusser, Norval Baitello Júnior. Na música, ouço Luiza Lian, Anelis Assumpção, Maria Beraldo, Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Edgar, Alienpovo, Ventilas, Quartabê, Dirty Projectors, Unknown Mortal Orchestra, Feist, Patti Smith. Nos quadrinhos leio Powerpaola, Maria Luque, Julia Balthazar, Puiupo, Flavushh, Tais Koshino, Grazi Fonseca, Toto Duarte, Catalina Cartagena, Lourenço Mutarelli, André Dahmer, O Miolo Frito. Nas artes visuais gosto de Arthur Bispo do Rosário, Brennand, Basquiat, Mira Schendel, Eli Heil, Flávia Aguilera, Daniel Bruson, Camila Fontenele; os três últimos são de Sorocaba (pra citar apenas alguns, temos muitos artistas incríveis). No design gráfico acompanho os trabalhos da Ubu e da extinta Cosac Naify, dirigidos pela Elaine Ramos, acompanho também a Tereza Bettinardi e a deusa Paula Scher. Meus amigos também são fontes inesgotáveis de inspiração e troca.

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Não tenho dúvidas. A depender da manifestação artística da mulher isso se apresenta de forma mais sutil ou mais escancarada. Acho que meu trabalho é considerado mais subjetivo, então não sinto ataques diretos, no entanto não é raro sentir que a produção feminina é colocada em um lugar mais emocional, confessional, auto-biográfico, enigmático, hermético e nunca universal. Sempre no intuito de inferiorizar a produção das mulheres, é claro. Como se a mulher só conseguisse falar dessa suposta condição feminina. Isso me incomoda bastante.

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Me considero muito sensível, não preciso de grandes acontecimentos para sentir alegrias, que acabam compondo este estado de felicidade. Estar com meus amigos, namorar, almoçar com meus pais, viajar, mergulhar no mar, tomar um banho de cachoeira, acampar, brincar com um cachorro, brincar com uma criança, conversar com idosos, ouvir música, dançar na frente do espelho, cozinhar, caminhar, são coisas que me reenergizam.

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Acho que a coisa que mais me fez falta e que ainda está em constante construção é a autoconfiança. Para as mulheres isso é mais complexo, não é raro ver mulheres incríveis, potentes, inventivas, acompanhadas de gente que está muito aquém dessa potência toda (em geral, homens). Nosso imaginário está impregnado pela ideia de que ou somos depravadas, pecadoras, misteriosas, herméticas, sedutoras, prontas para desvirtuar algo ou alguém ou somos fúteis, falamos de coisas superficiais e menores. Vivemos em estado de alerta, com medo destes julgamentos e de ataques masculinos que venham pela força física sobre o nosso corpo.

Ainda somos mero objeto de desejo masculino, nos preocupamos com a beleza física, não somos vistas como sujeitos, que tem uma subjetividade. Tudo isso vem à tona com muita força na hora da criação e na hora da exposição do que criamos, o que infelizmente nos sabota.

Por isso temos que nos reunir, conversar, continuar produzindo, nos pautar, falar dos nossos trabalhos e é claro que teremos que também dialogar com os homens, a começar pelos nossos amigos ou companheiros, familiares e conhecidos.

Eliete Della Violla por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Como mencionei, o projeto que está em andamento se chama Sim. É um projeto de várias frentes, mas a que está mais próxima de se realizar é o livro de poesia que será lançado esse ano. Este projeto me convocou para uma maior abertura na minha vida prática, em um momento em que conheci muita gente nova, tive experiências novas, passei a dizer muitos sins, o que virou uma espécie de experimento pessoal, quase uma performance de vida e me colocou em situações de prazer e de risco.

É também um dos desdobramentos de uma pesquisa que venho fazendo há alguns anos e que se tornou mais consciente de 2017 pra cá. Venho pesquisando e produzindo sobre comunicação, incomunicação, linguagem, representação, corpo, criação e essa pesquisa tem se manifestado através de poesia, desenho, objeto, som e ainda muita coisa que irei descobrir.

O livro será composto por poemas e desenhos mas também ainda teremos todo um trabalho de design gráfico pela frente, o que irá incorporar ainda mais camadas de sentido.

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