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Deborah
Meira
Brasil
vivendo em Fortaleza . CE
26 anos . artista . designer

Essa contação sempre foi difícil pra mim. Hoje, depois de muito refletir, compreendi que a colagem é um conceito que transpassa uma técnica para mim. É minha maneira de interpretar o cotidiano, de fazer releituras. É onde me aceito por querer trabalhar em universos criativos aparentemente muito distintos, na literatura, no macramê... onde o coração pulsar forte.

Deborah Meira por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Gosto de brincar com a combinação “pedra, papel, tesoura”. Acho que sintetiza muita coisa sobre meu olhar. Escrevo, cato coisas no chão, às vezes recorto bastante.

No mais, a preferência nunca é constante. Tem época que estou mais híbrida entre o trabalho no computador e o manual. Entre escrever e compor imagens. Tem épocas que é somente manual... tem as cordas do macramê com o cheiro de rede.

Pra mim, a colagem trata-se de encontrar respostas no acaso do papel sem propósito. Trata-se de lembrar sempre que, não importa quão diversos somos, constituímos um todo sem homogeneidade e isso tanto pode ser muito bonito como socialmente muito complexo. Fazer colagem é sempre trabalhar com as coincidências dos encontros. É alcançar perspectivas distintas da que estamos habituados a ter em objetos mundanos. Pedras catadas na areia, o mar, anseios políticos, ruínas e papéis rasgados são vozes constantes na minha estética.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Gosto da verdade, do que parece honesto, do visceral. De tudo aquilo que transmite as contradições do que compreendemos como “tempo”, das resultantes de suas pequenas ações... a vida comum.

Certamente minha maior motivação é a busca incessante pela compreensão de quem sou, de onde(s) venho e a voz que quero botar/deixar nesse mundo.

Deborah Meira por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

No geral, não é linear. Às vezes, a reflexão sobre uma questão acontece após uma experimentação de materiais, onde passo a ver lugares (emocionais e físicos/paisagens) a partir da peça criada. Às vezes, o processo é inverso.

O uso dos materiais também é muito do que me sinto atraída no instante. Minhas colagens geralmente nascem daquilo que me sinto visualmente atraída, então vou compondo e buscando a mensagem por trás daqueles recortes. Existe uma comunicação com o material. Uma conversa sobre o que fazer, como fazer. Meu trabalho se dá na leitura dessa permissão, da possibilidade que cada pedaço de pedra, papel e tinta possui. O que for. Aprendi a não teimar com o material. Preciso sentir que essa comunicação está acontecendo de maneira fluida e sincera. Assim como nos relacionamentos, a imposição não gera impacto positivo. É preciso saber se comunicar com as coisas.

Deborah Meira por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Preciso de organização tanto no calendário quanto no espaço físico. Gosto muito de ser intuitiva e espontânea, mas se eu não seguir um cronograma que me permita usar inteligentemente meu tempo, fico frustrada. Com o tempo, aprendi que o espontâneo não se contrapõe à organização. O interior não funciona se o exterior estiver em desordem. Esse é o primeiro passo. O segundo é manter as mãos ocupadas, não esquecer de sair do computador vez em quando e recortar papel. De todo modo, estou sempre olhando pro chão e para as paredes em busca de texturas e formas, onde desenho no invisível para depois desenhar através do recorte. Às vezes, caminhar sem que exista necessariamente um objetivo é muito bom.

Deborah Meira por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Meus trabalhos preferidos são aqueles onde me sinto mais em casa. Os menos prováveis. Minhas colagens em pedras e ruínas são minha grande motivação no momento.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Felizmente tenho tido vários. Quando olho para trás, percebo que existiram vários momentos que foram decisivos para eu estar onde estou agora. Quando lembro do meu contato constante com o litoral cearense, a boneca de papel que fiz aos 8 anos e por aí vai…

Entrar no curso de Design (UFC) certamente me ajudou a me comunicar melhor comigo e com o mundo. Me ajudou a me soltar.
Por aqui também conto com o apoio de muita gente que acredita no meu trabalho e me apoia muito. Sentir isso, sem dúvida, é decisivo. Essa rede colaborativa é essencial.

Deborah Meira por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Minhas influências não são diretamente das artes visuais. Existem temas específicos onde gosto de me aprofundar, como a ideia do cosmos, questões políticas, as ruínas, etc. Tenho paixão por artistas da música, de várias expressões artísticas. Essas pessoas me influenciam, principalmente, sobre aceitação própria. Ler o jeito louco como a Hilda Hilst coloca as emoções foi o marco mais recente e me libertou de várias formas.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existem obstáculos permeando todas as questões relacionadas à atuação de mulheres. No mundo criativo não seria diferente. Não se trata de proibições, somos contratadas, parecemos ter nosso espaço, mas sentimos no cotidiano, no compartilhamento dos espaços criativos onde a mão que alisa muitas vezes é a mesma que dá o tapa.  Já senti mais essas entraves trabalhando em empresas privadas. Quando se trata do meu trabalho mais autoral, me sinto mais livre, sem dúvidas.

// E o que te faz feliz?

Gosto de pensar que a Deborah de 10 anos atrás ficaria extasiada ao saber o que seria feito no futuro, que existe coerência com o próprio passado e consigo mesma. Que ela não se deixou levar pelo que seria normal... que ela se permite (e tem o privilégio) de viver suas maiores paixões.

Deborah Meira por Projeto Curadoria
Deborah Meira por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Se joga! Não tenha medo de ser estranha. Estar junto de pessoas que lhe apoiam verdadeiramente. Você precisará disso, principalmente, nos dias ruins. Apoiar verdadeiramente outras mulheres e encontrar seu lugar nesse circuito de mulheres que buscam viver do próprio trabalho, daquilo que amam.

Um marco importante no caminho da aceitação aconteceu quando eu tinha 18 anos e li “Cartas e Poemas a um Jovem Poeta”, do Rilke. Nele, me deparei com um trecho que ficou cravado em mim: “Não procure agora respostas que não lhe podem ser dadas porque ainda não pode vivê-las. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta.”

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Atualmente estou buscando me aprofundar mais na aplicação da colagem em superfícies diversas e inesperadas com foco no litoral daqui e suas problemáticas de marés e destruição da orla devido as intervenções humanas.

Deborah Meira por Projeto Curadoria

FOTOS POR LARA DIAS

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