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Daniela
Chaves
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
35 anos . artista

A minha família materna tem muitas mulheres e todas as gerações sempre praticaram diversas técnicas manuais, nesse sentido, a criatividade é amplamente explorada entre nós. Eu cresci sentada no chão do ateliê de costura da minha avó, enquanto minha bisavó fazia, na cozinha, suas deliciosas receitas trazidas do leste europeu.

Enquanto criança testei o tricô, crochê, brinquei muito de costurar roupas para minhas bonecas, ficava observando minha avó pintar ou minha mãe bordar, sempre tinha algo novo sendo feito por elas.

Por algum tempo deixei esse elo meio desligado em mim, mas no fim da adolescência, entrei para uma oficina de cerâmica e me envolver novamente com a prática manual aflorou uma paixão adormecida dentro de mim.

Decidi cursar a faculdade de Arquitetura e Urbanismo e quis trilhar uma carreira dentro da área da cenografia. Larguei o curso e fui atrás da faculdade de Artes Visuais, onde concluí o Bacharel e a Licenciatura na UNESP em 2009.

Trabalhei sim com cenografia, fui assistente de um cenógrafo muito querido no meio teatral, trabalhei em museus como MAC e MASP, tive minha própria galeria de arte, participei de um projeto bem bacana no SESC Pompéia, e o que mais me marcou foi me envolver numa iniciativa educacional maravilhosa com crianças de 1 a 14 anos, para trabalhar com cenário e figurino por 4 anos.

Venho estudando ilustração desde 2014, mas foi só esse ano, 2018, que decidi de verdade me dedicar ao desenho como forma de expressão e não como meio (desenho para mim era um croqui, uma forma só de transferir uma ideia da cabeça para o papel) e tenho me apaixonado cada vez mais pelas suas possibilidades.

Também em 2014 eu engravidei e acredito que essa transformação imensa, de ter um filho, me fez olhar mais para dentro de mim e querer produzir um trabalho que é mais intimista.

Daniela Chaves por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Já passei por várias vertentes como cerâmica, instalação, escultura, cenografia, mas minha paixão tem sido a aquarela, lápis grafite, lápis de cor e caneta nanquim. Tudo sob papel, ainda!! Mas desejando expandir esses horizontes.

Daniela Chaves por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha maior inspiração vem da natureza. Porque é nela que sempre busco a cura para todas as minhas dores, trazendo reequilíbrio e forças. Para mim, ela conversa conosco de uma forma que precisamos aquietar o coração para poder ouvi-la. Busco muito me desenvolver espiritualmente e por conta disso, acredito imensamente na energia de tudo aquilo que nos rodeia, além dos seres humanos, como as plantas, os cristais, a água...

As temáticas do feminino também é algo que me atrai muito. Principalmente depois que virei mãe e tive um parto natural em casa, tornei-me mais sensível à minha divindade e a tudo que nós, mulheres, somos, mas temos abafado por uma sociedade tão masculinizada.

E sempre muito latente em mim, a história da imigração da minha família já foi tema de trabalhos que fiz e vira e mexe, volta a tona.

Daniela Chaves por Projeto Curadoria
Daniela Chaves por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Hoje, para ilustração, eu gosto muito de criar um banco de imagens de tudo aquilo que tenho interesse, seja desde fotografias tiradas por mim, livros ou por pesquisas na internet e acabo misturando tudo e sai algo novo.

Também me influencia meus sentimentos no momento da criação e sou muito movida por música.

Caso seja alguma encomenda que eu conheça a pessoa, gosto de trazer elementos daquilo que conheço dela. Também já fiz trabalhos, que sem conhecer profundamente a pessoa, me deixei levar pela intuição e deu certo.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Confesso que com um filho de 3 anos, criatividade é o que não falta! Por exemplo, todas as noites ele pede para mim ou meu marido lermos para ele antes de dormir e adoramos inventar histórias com temas diversos e vamos criando capítulos dessas histórias e imaginando juntos muitas maluquices ou até mesmo inserindo questões da vida dele nessas histórias para ele ter outra visão das questões do seu mundinho! Quem sabe isso não se torne um projeto futuro?!

Daniela Chaves por Projeto Curadoria
Daniela Chaves por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Bom, desde o começo da minha carreira, um dos meus projetos cenográficos virou capa de uma revista de tiragem nacional e fiquei muito entusiasmada com ele, fiz em parceria com outra pessoa e foi bem importante pra mim, pois éramos recém-formadas e nos deu uma ótima visibilidade. Depois veio a galeria que abri em conjunto com dois sócios, deu um trabalhão, mas valeu a pena, pois fomos pioneiros, porém quis muito tentar um outro “jeito” de lidar com o mercado de arte, estava trabalhando meu idealismo ali, mas vi que não seríamos nós quem mudaríamos o mundo a força, daí fechamos. Quando trabalhei com as crianças, a primeira montagem que fizemos é a menina dos meus olhos, me encanta demais até hoje! Foi uma confecção artesanal de figurinos que até estampas com estêncil fizemos, foi uma lindeza só! Fiz em 2014 uma instalação no antigo ateliê da Catarina Gushiken com arames e pedaços de papelões bordados e desenhados que eu amo muito, pois foi ali o início do meu querer produzir, em 2016 fiz meu primeiro autorretrato, que traduz muita mudança em minha vida e recentemente algumas aquarelas são minhas favoritas, mesmo não sendo mais “minhas”! Ufa!

Daniela Chaves por Projeto Curadoria
Daniela Chaves por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Definitivamente sim!

Eu estava comprometida com a iniciativa educacional com crianças que envolvia arte, cenografia e figurino e em paralelo estudando ilustração. Eu amava esse trabalho e ele me trouxe muito autoconhecimento, pois fazíamos constantemente workshops para nos conhecermos melhor para poder lidar de forma mais acolhedora com as crianças.

Em meados de 2016 eu fiz uma viagem para a Espanha que transformou minha visão de mundo definitivamente. Tive a feliz oportunidade de conhecer várias cidades e diversos museus, mesmo os mais pequeninos e ver como alguns artistas quiseram ser somente “eles mesmos” sem se preocupar com o que viria depois, deixar florir aquilo que estava latente foi o que me tocou. E como a sociedade acolhia aquilo e valorizava. Aqui deste lado do hemisfério, nossa realidade é tão absurdamente diferente para lidar com essas questões artísticas, tudo é tratado com tanto desdém, como se criatividade e criação não fosse intrínseco ao ser humano, e eu percebi que estava acreditando que não podia ser eu mesma.

Na última cidade mágica que visitei, Santiago de Compostela, senti, de verdade, meu coração tocado e transbordando meus sentimentos. Decidi sair desse meu trabalho que era formal, eu era registrada e seguir finalmente minha intuição!

A maternidade é algo muito louco, que mexe demais! No meio disso tudo, também veio uma força muito grande de querer transformar o mundo para deixar para meu filho e eu senti uma grande necessidade em me tornar a minha verdade e incentivá-lo a sempre buscar a sua verdade. Existem questões muito práticas na criação de um filho, como precisar de dinheiro para diversas coisas, porém eu decidi que queria ter tempo e que estar por perto para cria-lo é uma das questões mais fundamentais para mim, sem abrir mão do meu lado profissional, a partir daí passou a ser uma construção desenvolver uma nova carreira e ter tempo para criar meu pequeno.

Em 2017, passei 3 meses fora do Brasil, dois deles sozinha, sem meu filho e marido e quando voltei me envolvi em alguns projetos que não eram ligados à arte, mas importantes para mim, e somente este ano, 2018, estou me dedicando exclusivamente para meu trabalho artístico.

Daniela Chaves por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Louise Nevelson, Louise Bourgeois, Gego (Gertrude Goldschmit), Paula Bonet, Genine Zlatkis, Dinara Mirtalipova, Conrad Roset, Nan Rae, Nina Stajner, Longina Phillips, Toulouse Lautrec, Egon Schiele, Wesley Duke Lee, Gustav Klimt, Renoir, Picasso e tantos outros que seria uma lista imensa, rs!

Seja pela estética, pela temática ou por suas vidas, esses artistas me chamam atenção e interferem ou interferiram em meus pensamentos. Isso pode não refletir diretamente na estética do que produzo, mas sempre como apreciação, fruição, fica algum impacto, uma marca.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Nunca senti preconceito diretamente, trabalhei muito com outras mulheres e acho que estamos formando uma rede muito forte de apoio entre nós e cada vez mais nos incentivando em seguir em frente.

O que já sofri foi mesmo muitas críticas em relação a ter largado o curso de Arquitetura, “Porque essa sim era uma profissão”, “Tem mais mercado”, para estudar Artes Visuais e trabalhar com arte! Já ouvi essas expressões que citei acima e vejo olhares tortos para minhas decisões, mas se me importo? Nem um pouco! Opinião alheia, é só opinião.

Hoje em dia vejo muitos homens incentivando, acreditando em mulheres e em seus trabalhos, sinceramente acredito que uma nova sociedade está em formação.

Daniela Chaves por Projeto Curadoria
Daniela Chaves por Projeto Curadoria
Daniela Chaves por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Minha família. Estar com eles todos os dias é o maior motivo de gratidão que tenho pela vida.

Olhar as coisas simples, como um passeio no parque, um pôr do sol, uma tarde com chocolate quente e bolo, um piquenique... são essas coisas que me faz realmente feliz.

Agora, não vou negar que amo viajar, conhecer novas culturas, novos lugares, novas pessoas. Sempre que tenho a oportunidade, fico extremamente feliz!

Também sonho em ter um cartão sem limite pra poder gastar dentro de uma papelaria! Haha!

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Mulheres, uni-nos! Haha!

Mas não é brincadeira! Acho que a rede de apoio entre mulheres, como esse projeto maravilhoso, que já acompanhava antes de ser convidada e tantos outros incentivando que a cada dia criemos coragem de nos mostrar, dar a cara a tapa sem medo de julgamentos machistas, mesmo de outras mulheres, é o que mais precisamos nesse momento que estamos vivendo! Não vamos ter medo umas das outras, sem competição! Há lugar ao sol para todo mundo! Estendam as mãos!

Outra coisa é olhar para dentro, só assim dá para florir! Trazer aquilo que você carrega no peito como verdade, sem medo do que o mundo tem a dizer sobre (até porque quem acha isso ou aquilo é pouca gente)! Cada julgamento negativo é uma forma de desencorajamento que não se deve deixar abalar! Só pense que nunca você vai agradar todo mundo e que tudo bem! Uns gostam do sol, outros da lua e tá tudo certo.

Daniela Chaves por Projeto Curadoria
Daniela Chaves por Projeto Curadoria
Daniela Chaves por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Em andamento não, mas na cabeça sim! Tenho querido muito retratar em desenhos a força do feminino, mas ainda não formatei... Só alguns rascunhos e ideias!

Pretendo em breve experimentar outros formatos de suporte, como as paredes, sair do papel e expandir!

FOTOS DIVULGAÇÃO POR SANDRA ADAMI

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