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Bruna
Barros
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
29 anos . ilustradora . tatuadora

Nasci no interior de Minas Gerais, minha cidade chama Timóteo. Apesar da falta de acesso a cultura e as grandes artes, cresci num ambiente em que o saber fazer fazia parte da vida. Acredito que as tardes que passei brincando no chão enquanto minha mãe costurava, os momentos na oficina do meu pai acompanhando o fio de solda derreter para depois secar novamente em forma de bolinha enquanto ele, por hobby, consertava rádios antigos que ganhava e os dias quentes e infinitos no grande espaço aberto que minhas tias contemporaneamente conversavam, costuravam, cuidavam das plantas e abriam massa de pastel, além das inúmeras meias finas rasgadas que minha mãe me dava para que eu transformasse em roupa de Barbie me fizeram acreditar que a vida só teria graça se eu pudesse estar em contínuo movimento criativo. Tantas ideias remexeram os meu planos e por fim acabei estudando Moda e Design de Ambientes – dentro dessas áreas cogitei vários rumos e por instantes sonhava com as carreiras mais diversas mas foi só quando peguei por acaso um livro infantil na mão que percebi que existia sim uma profissão no mundo que encaixaria perfeitamente nos meus anseios. Daí pra frente foi um outro capítulo muito longo que venho escrevendo nos últimos 9 anos e no qual trabalhado muito duro – o de encontrar o meu lugar enquanto ilustradora, encontrar a voz que desejo transmitir através do meu traço e aprender a dançar dentro desse espaço que é meu.

Bruna Barros por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Eu me expresso através do desenho. Já cultivei até a expectativa de não ter que aprender a ler e a escrever, acreditei que o desenho me bastaria.

Bruna Barros por Projeto Curadoria
Bruna Barros por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Acho que crio para estar viva e para dar forma àquilo que às vezes muitas palavras não conseguiriam dizer.

Bruna Barros por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Como disse antes, eu acho que a vida inteira é um processo criativo. Estou continuamente atenta e sou muito curiosa. Observo muito as pessoas, a forma de se movimentarem, gosto de tentar imaginar o significado que cada gesto carrega, e também gosto de observar os meus gestos. Mantenho um caderno sempre comigo, ele tem folhas lisas que me possibilitam escrever e desenhar. Às vezes ouço ou vejo algo que me causa uma agitação, como se meu cérebro começasse a dançar e tenho necessidade de colocar no papel. Pode ser no metrô, andando na rua, lendo um livro ou mesmo numa festa – acho que o mundo tem muito a oferecer quando estamos de olhos abertos. Enfim, neste caderno vão parar meus pensamentos e conflitos íntimos, ideias mirabolantes de projetos futuros e pensamentos sobre planos em andamento. Acho que é uma forma de deixar as ideias latentes, de modo que na hora que me sento de fato para executar um projeto, muita ideia já está na ponta do lápis, louca para sair e cair num papel. Quando é assim as linhas parecem que saem vivas, e vou deixando elas me guiarem. Muitas vezes me divirto muito, quase converso com as formas que crio. Acho que a diversão e a sensação de brincadeira é fundamental.

No processo de criação dos desenhos das tatuagens é parecido, primeiro eu recebo as informações que o cliente tem a me dizer, não entro muito em detalhes e fico com as referências que me foram passadas soltas na minha imaginação. Muitas vezes vejo algo na rua que me faz pensar em algo que me disseram, anoto. Depois escrevo um e-mail fazendo uma entrevistinha meio que misturando os ecos que as primeiras informações causaram em mim com perguntas básicas. Recebo respostas maravilhosas que enriquecem ainda mais o leque de possibilidades, aí é esperar a hora certa e desenhar. Às vezes essa tal hora certa demora um pouquinho, já vai chegando o dia da sessão e o cliente fica ansioso, eu sei que parece papo de artista enrolado, mas às vezes tenho a sensação de que algumas conexões precisam ser feitas na minha cabeça antes de sentar com o papel na minha frente. É como se eu deixasse encher um copo até ele ficar prestes a entornar, na hora que cria aquela película que vai explodir e derramar – chegou a hora – vou desenhar. E pensando bem acho que é por isso eu não me identifico com aquele medo do papel em branco. Em ambos os processos eu desenho muito, gasto muito papel, muitas vezes chego a fazer 15, 30 desenhos para chegar numa forma que queria.

Bruna Barros por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Além da prática de observação de tudo que está a minha volta e do caderninho que eu disse no tópico anterior, eu gosto muito de ver filmes, documentários e andar pela cidade – às vezes uma pausa para uma volta no quarteirão pode ser suficiente para trazer novos ares para a cabeça.

Bruna Barros por Projeto Curadoria
Bruna Barros por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto dos projetos em que eu me divirto, nas minhas horas vagas estou ilustrando um livro escrito por um amigo e estou me deliciando. Como é um projeto que não tenho que apresentar para ninguém eu não fiz esboços e nem sei quantas páginas vai ter, estou executando página por página e deixando rolar. Muitas vezes fico rindo com as formas que saem e estou tão curiosa com a forma que terão os desenhos das próximas páginas que nem parece que sou eu que vou fazer. Sinto como se eu fosse a Sofia esperando as cartas do escritor misterioso chegarem pelo correio.

Bruna Barros por Projeto Curadoria
Bruna Barros por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acho que tive dois marcos. Em 2011, quando abandonei a carreira recém iniciada de designer de ambientes, voltei para a casa dos meus pais depois de 7 anos e comecei a desenhar diariamente. E o segundo foi em 2017, no ano passado quando decidi tatuar. Em 2011 foi uma manobra, mudei de direção e dei inicio a tudo isso que hoje com muita felicidade vejo começando a florescer. Começar a tatuar foi diferente, foi um movimento de expansão das possibilidades do desenho. Mas foi um marco, pois além da tranquilidade financeira que eu precisava para poder colocar meus sonhos em movimento, me possibilitou o contato com tanta gente que me incentiva a continuar seguindo o meu caminho. Tatuar também mudou drasticamente a relação com o meu trabalho (e no limite com a minha vida), ter que aceitar que o próprio erro não pode ser cancelado tem sido um enorme aprendizado.

Bruna Barros por Projeto Curadoria
Bruna Barros por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Além de Bosch, de escultores antigos e miniaturistas medievais anônimos eu não venero grandes nomes. Meu Instagram é minha grande galeria de arte, sigo ilustradores do mundo todo. No geral vejo tudo meio solto. Gosto de ver o que o pessoal está colocando no papel, as formas que criam para comunicar ideias e gosto de olhar um trabalho e ficar tentando imaginar como o artista chegou naquela técnica.

Bruna Barros por Projeto Curadoria
Bruna Barros por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Certamente, o direito de se expressar é a grande questão que nós mulheres enfrentamos diariamente. Desde cedo fomos tolhidas do direito de colocar a nossa voz, e é com muita alegria que eu estou assistindo ao movimento de tanta mulher em relação às eleições de 2018, para mim esse movimento que começamos não vai ter fim. Posso estar sendo ingênua, mas no meu trabalho eu me vejo muito livre para expressar as minhas questões, mas acho que o desenho possibilita isso, trabalhar com metáforas é uma forma maravilhosa de driblar a situação.

Bruna Barros por Projeto Curadoria
Bruna Barros por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

A sintonia entre as pessoas. É uma coisa tão simples, mas é tão difícil. Ontem por exemplo foi o primeiro dia do grupo de desenho no espaço do meu estúdio, tinha pouca gente mas foi lindo, desenhamos sentadas no chão, senti que as pessoas ali estavam conectadas e entregues. Era a primeira lua cheia da primavera, cheguei em casa e meu companheiro estava gravando uma música, deitei no sofá e fiquei escutando aquela canção que se repetia, sentindo o ventinho entrar pela janela, peguei o meu caderno e desenhei aquela cena, li um pouco, fiquei com sono e fui deitar. Pronto, feliz.

Bruna Barros por Projeto Curadoria
Bruna Barros por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não ignorem o mundo que está a nossa volta. TUDO tem muito a dizer!

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Nossa, eu tenho muitos projetos. Mas o maior deles é sem dúvida a Agência Filtro que começamos a gestar em Janeiro deste ano – 2018. Eu sempre tive dificuldade de conciliar a minha piração criativa com outros movimentos necessários porém muito complexos para serem desenvolvidos quando a mente está borbulhando. Eu entrava em colapso no momento de fazer orçamento - ler contratos - imprimir tantas vias - autenticar firma - emitir nota - falar que esse prazo não dá - negociar - ... e o mais importante: sair batendo de porta em porta pra descobrir até onde meu desenho poderia ir. Infelizmente nós mulheres sofremos muito com o ideal da mulher maravilha, gente, nós não podemos ser tudo e ser perfeito em tudo. Muito menos sozinha. Em paralelo: Suzana, uma vizinha que tinha virado amiga tentava encontrar seu lugar na ilustração e discutíamos formas de trabalhar como queríamos, por vezes nossas conversas viravam jantas e cafés intermináveis e lá estava a Gabi a minha melhor amiga de adolescência, no auge da desolação com o mundo corporativo. Juntamos tudo e nasceu a Filtro, a Gabi faz a parte que pra ela é legal e é complexa pra gente, e a gente fica de cabeça borbulhando tranquilas. A gente quer se movimentar, montar um leque de várias ilustradorxs e sair por aí descobrindo e nos colocando na intercessão entre a arte e o dia a dia.

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