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Bianca
Foratori
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
artista visual

Eu sou artista visual, graduada em moda e pós graduanda em Arte Educação. Sou do interior, mas moro em SP capital, além de trabalhar com arte sou tatuadora também. Meu trampo gira em torno da representação da mulher racializada, dos processos de miscigenação, e da cultura brasileira.

// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Basicamente, tudo que surgir… eu já trabalhei com colagem, escultura, têxteis, mas a pintura e o desenho com certeza são linguagens mais recorrentes. Uso muito tela, papel, madeira, mas já usei até retalho de tecido, papelão, etc. Vai da inspiração, do momento...

Bianca Foratori por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha maior motivação é que eu nasci com essa necessidade, hahaha... de pôr meus sentimentos e ideias pra fora, de materializar meus pensamentos, veio comigo de fábrica, se não faço isso eu sufoco. Mas com o tempo, fui me interessando por alguns temas específicos. Retrato mulheres, sempre retratei mulheres desde pequena, e acho que essa é uma constante no meu trabalho. De alguns anos para cá comecei a, literalmente, me enxergar nas minhas pinturas… eu me represento, eu represento os processos dos quais sou fruto, como por exemplo a miscigenação, represento as ideias que acho importantes…

// Como é o seu processo criativo?

Eu tenho um tempo de absorção, em que eu não estou botando a mão na massa, mas tô em introspecção pensando sobre algum assunto, ou sobre algum sentimento. Nesse tempo, eu me alimento de referências vindas de outros artistas visuais, também, mas principalmente através da cultura, em geral, da música, do povo, da história, das paisagens do meu país. E aí, uma hora bate a inspiração, e eu sento pra criar de fato e depositar todas aquelas ideias que ficaram borbulhando na minha mente. Faço um esboço bem simples, e aí começo o trabalho...

Bianca Foratori por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

A criatividade é estimulada de tantas formas, né… eu ouço música, eu escrevo meus pensamentos, eu guardo todas as referências que me interessam. Mas acho que o ponto mais importante em se manter criativo é não se censurar, e eu tenho essa dificuldade às vezes. De começar um trabalho, ou um estudo, e desistir porque acho que o resultado final não vai fazer sentido. Mas o próprio processo criativo traz consigo as respostas… talvez não seja aquela criação que vai resultar em uma obra maravilhosa, mas ela pode fomentar muitas ideias e sensações enquanto isso. Então praticar, fazer, é uma forma de me manter criativa.

Bianca Foratori por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

No momento, meu trabalho preferido é uma tela chamada Bruja. Comecei ela há mais de um ano e a ideia era fazer uma série, de no mínimo 3 quadros, que até hoje não vingou mas rolou essa, única. Essa obra me toca porque tem um significado muito valioso pra mim, ela fala sobre a caça às bruxas que foi feita aqui no continente americano. Os europeus exterminaram seus próprios povos originários e depois continuaram a fazer isso pelo mundo todo, cometendo etnocídio e genocídio, demonizando tudo que não era da cultura ocidental, e foi o que aconteceu aqui nas nossas terras. Então eu senti que precisava contar essa história, de que houve uma caça às bruxas aqui também, mas com outra roupagem. Que os indígenas daqui também foram impedidos de praticar suas crenças, seu estilo de vida, que tinha a ver com essa relação íntima com a terra, com a natureza, com as plantas medicinais… Tudo isso foi demonizado e inferiorizado.

Bianca Foratori por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acho que o primeiro marco foi quando pintei a fachada do Sesc Pinheiros, porque ninguém me conhecia, eu ainda morava no interior e não tinha tido nenhuma grande oportunidade, praticamente estava criando só pra mim e pros meus amigos. Nunca tinha nem pintado um muro. E aí surgiu esse trabalho, um paredão gigantesco numa instituição tão importante pra cultura nacional, e isso me validou tanto externamente como internamente. Eu tinha vergonha de me dizer “artista”, mas depois disso me convenci de que eu era uma artista sim, e que essa era uma carreira possível, com a qual eu poderia trabalhar, ser remunerada e reconhecida. E um segundo marco tem sido esse momento atual, em que eu decidi me especializar em Arte Educação e estou tendo acesso a conhecimentos e conceitos que eu nunca tive antes, sobre arte, cultura, etc, e isso tem impactado muito na consistência do meu trabalho.

Bianca Foratori por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

É piegas dizer isso, mas é a realidade… a artista que mais me inspira é minha tia avó, Helena Meirelles, que foi uma grande violeira sul matogrossense. A obra e a figura dela representam muito do que eu considero importante nessa vida… a cultura popular, a valorização do Brasil profundo, dos saberes tradicionais. A música dela é um patrimônio cultural que pouca gente conhece, um estilo híbrido que tem a ver com aquela área de fronteiras, que reproduz o canto dos pássaros, que tem relação direta com a natureza, herança da mistura entre os indígenas guaranis e europeus. Mas infelizmente, ela só foi reconhecida com mais de 60 anos de idade, e ainda não como merecia, porque já era uma senhora, “matuta”, e por isso não interessava à grande mídia. Além disso, pessoalmente ela era uma mulher muito forte, autêntica, que enfrentou muita coisa pra poder ser ela mesma. Então, com uma referência dessa tão próxima, não tem como não ser influenciada. Eu tento expressar essas questões no meu trabalho, à minha maneira, e trazer sempre pra um lado emocional, de memórias afetivas, histórias de família, ancestralidade, etc.

Bianca Foratori por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existe uma caixa tanto pra mulheres quanto pra pessoas racializadas, como é o meu caso. O pior problema que eu enxergo, em ambos os casos, é a exclusão. A gente só entra por “cota”, se existir uma política explícita de inclusão naquele projeto/instituição/empresa. Do contrário, se for algo neutro ou que não especifique nada sobre isso, são sempre os mesmos homens brancos em tudo. Dificilmente você verá uma seleção em que tenha um número razoável de mulheres, e se tiver, serão mulheres brancas de classe média. Mulheres racializadas, é quase impossível. Como, em um país onde mais de 50% da população é não-branca, e 51% são mulheres, pode ser visto como normal um ambiente só (ou majoritariamente) com homens brancos? E ninguém nota que tem alguma coisa estranha ali. Quer dizer… nós estamos produzindo, nós estamos fazendo nossos corres, mas não estamos sendo consideradas ou lembradas como profissionais capazes.

Bianca Foratori por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Praia, sol, arte. Ter tempo pra criar e explorar minhas brisas, estudar os assuntos que eu gosto, estar com as pessoas que eu amo, conseguir pagar meus boletos no final do mês... hahaha... acho que isso.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Primeiro pra confiar em si, porque a gente é feita pra se auto-depreciar e em toda oportunidade também vai ter alguém pra te deslegitimar. Confia, que a gente é inteligente demais, dedicada demais. Depois, pra ser verdadeira… se expresse sobre aquilo que te toca mais, não importa se é o que esperam de você, só siga seu coração e faça. Se dê ao luxo de experimentar, testar, refazer, até chegar onde você quer. E, quando esse momento chegar, mostre mesmo, tenha orgulho do que você criou, compartilhe com as pessoas.

Bianca Foratori por Projeto Curadoria
// A pandemia que estamos enfrentando desde 2020 afetou de alguma forma a sua produção?

Eu estava numa fase muito corrida, porque eu me envolvo em projetos demais, caço coisa pra fazer demais, e a pandemia me obrigou a paralisar tudo e ficar enclausurada dentro de casa. Eu já vinha programando um tempo pra mim, pra me dedicar à fazer arte, tranquila, sem compromisso, mas a rotina corrida nunca deixava. Então, na quarentena eu fui obrigada a fazer isso, porque era a única coisa que podia ser feita. E por incrível que pareça, eu produzi muita coisa, testei materiais que eu comprei e nunca tinha usado, testei materiais reutilizados, novos suportes, estudei bastante, enfim... Foi produtivo nesse sentido, apesar de estar sendo uma fase de muita preocupação, muita tristeza, artisticamente eu consegui evoluir muito.

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