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Béatrix
Brasil
vivendo em Lyon . França
20 anos . fotógrafa

Me chamo Béatrix, tenho 20 anos. Nasci em João Pessoa, Paraíba. Filha de mãe paraibana e pai francês. Reside em mim um conjunto complexo de combinações culturais muito diversas, o que talvez diga muito sobre minha pessoa. Meus pais são professores, minha mãe de línguas, meu pai de música. Cresci num ambiente fértil para as artes porque sempre tive incentivo. Fiz ballet, piano, aula de desenho, teatro, e apesar de ter amado muito este último [o teatro], me encontrei mesmo na fotografia. Aos 15 anos, quando fiz meu primeiro curso de fotografia, tirar fotos virou quase uma necessidade vital. Passei horas e horas no meu quarto fazendo autorretratos durante todo meu ensino médio. Quando visito meus arquivos de 2013 à 2015, eu fico chocada como eu produzia incessantemente naquela época. Claro que eram fotos grosseiras e extremamente rudimentares (e tão tão pessoais que provavelmente o número de pessoas que viram fotos dessa época seja menor do que 5), mas a necessidade de auto-expressão era tamanha que eu simplesmente não podia parar. E eu nunca parei.

Béatrix por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Fotografia, embora adoraria trabalhar com técnica mista. Pretendo fazer intervenções nas minhas fotos manualmente depois de impressas, daqui para o ano que vem devo desenvolver uma série que misture fotografia e tinta/pintura. A respeito dos temas que fotografo é bem difícil falar. Ainda não me encaixo exatamente em nenhuma vertente fotográfica, porque eu gosto de muita coisa. Fotografo pessoas, à mim mesma por falta de modelo (o que é uma ótima justificativa talvez pr’um narcisismo encubado) e espaços. Li um livro recentemente que mudou minha perspectiva a respeito da arquitetura e me inserir em lugares e registrá-los tem sido uma coisa na qual eu venho mergulhando.

Béatrix por Projeto Curadoria
Béatrix por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

As pessoas. As relações, as conversas, as dinâmicas. As pessoas me afetam muito, embora elas mesmas talvez não saibam. Eu converso muito, eu falo muito numa iniciativa quase desesperada de ouvir o que a outra pessoa tem a me dizer também. Diálogo, língua, comunicação (verbal e não verbal) é uma forma de colocar para fora os pensamentos – e saber o que tá dentro da cabeça de outra pessoa é muito interessante.

Béatrix por Projeto Curadoria
Béatrix por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Eu adoraria ter uma rotina criativa, mas infelizmente não tenho. É tudo meio caótico e não há precisamente um ritual. O melhor que eu posso fazer para minha criatividade é ser completamente passional o tempo todo (a série “Ruptura”, no meu site, fala exatamente sobre essa mudança que eu decidi adotar na minha vida). Me proponho a ser sensível o tempo todo e ver aonde isso pode me levar – e já me levou a lugares bem legais.

Béatrix por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu fujo da fugacidade emocional. Eu tento aceitar meus sentimentos mesmo quando eles são horríveis e problemáticos, permitir-se sentir coisas ruins é importante para se humanizar e humanizar os outros também – e como eu falei, eu me inspiro nas pessoas.

Béatrix por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Nossa. Minha relação com minhas fotos é péssima, infelizmente eu não saberia jamais dizer. Eu vivo num amor e ódio constante. Uma foto que eu amo hoje, amanhã vou odiá-la. É um processo de auto-sabotagem que me condenou muito (e condena até hoje) como artista.

Mas para não deixar sem resposta, a série “Solus” eu gosto bastante. Eu editei e reeditei algumas vezes, e cheguei num resultado final que me agrada. São fotos que falam sobre a percepção da solidão e falta de sentido existencial. Daí, eu tentei retratar um corpo adulto em posição fetal pra representar o nascimento, mas ao mesmo tempo sem ter nenhum outro elemento que faça alusão à maternidade. Faz um pouco parte da construção daquele pensamento que diz que “a gente nasce só e morre só”. É sobre a não necessidade de reclusão porque você inevitavelmente está só, estando acompanhado ou não. Não existe uma relação humanizada com o sujeito da foto porque ele não tem rosto. O enquadramento é apertado e claustrofóbico, ele é o próprio limite do seu físico. Ele é só um corpo.

Mas amanhã eu posso me arrepender dessa resposta.

Béatrix por Projeto Curadoria
Béatrix por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Sim. Trancar a faculdade de Design, vir pra França sozinha com 19 anos e fazer uma entrevista para ser admitida na faculdade de Artes levando meu computador com tudo que eu tinha me deu a coragem que eu precisava. A verdade é que eu estou entrando numa luta armada contra a minha auto-sabotagem e estou me tornando uma completa “cara de pau”.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu gosto muito de Barbara Kruger, por mais que ela seja uma referência clichê. Descobri o trabalho de Herbert Bayer e me apaixonei pelo surrealismo fotográfico dele. Inclusive, a obra dele “Solitude du citadin” claramente me influenciou nesse trabalho “Solus” que citei, apesar de ser esteticamente diferente. Man Ray também é muito importante pra mim. De contemporâneos, eu gosto muito de Maria Svarbova e de Can Dagarslani – meu sonho é um dia poder conversar com ele sobre sua série chamada “Identities”, ela me toca muito e vale muito a pena conhecer.

Fora artistas plásticos e/ou fotógrafos, existem outras referências musicais, cinematográficas que me impactam. Eu poderia citar uma quantidade absurda de pessoas, mas eu acho inútil e inverossímil para mim. Realmente me atento mais ao que está ao meu redor e pessoas do meu dia a dia. Todo mundo que você conhece e todos os lugares que você vai tem uma história para contar, não desfrutar disso é bobagem.

Béatrix por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Óbvio, mas não sinto problemas em me expressar nas minhas produções, meu problema é expor. Tenho a constante impressão de que não tenho nada a acrescentar e que nada do que eu falo ou faço pode ser interessante – e creio que isso vem muito da repressão de mulheres com ideias, digo, mulheres não tem voz para falar, logo sentem medo de expor suas ideias porque “mulheres são frívolas”, e é exatamente esse meu problema – mas eu preciso me expressar, caso contrário eu implodo.

Béatrix por Projeto Curadoria
Béatrix por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Vinho e ter alguém com quem dividir. Nesses últimos dias, passei uma tarde até manhã do dia seguinte cozinhando, comendo, bebendo e conversando com um grupo de amigos. Isso me deixa feliz. Mas eu adoro também ir ao cinema sozinha e ir à exposições sozinha.

Béatrix por Projeto Curadoria
Béatrix por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não tenham medo! Não se privem, se permitam ser sensíveis e atentas ao que está ao seu redor.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim, estou em processo de desenvolver uma série que acho que vai ser muito significativa para mim! Em mais dia, menos dia, ela vai ser publicada. Estou ansiosa para realizá-la.

FOTO DO PERFIL/DIVULGAÇÃO POR VICTOR GOMES E ÍCAROS REIS

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