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Ana Catarina
Lugarini
Brasil
vivendo em Curitiba . PR
25 anos . artista . fotógrafa

Navegante. De um mar de expressões híbridas. Sou Ana Catarina Lugarini, resido em Curitiba e minha história começou num mergulho musical, meu primeiro contato com a Arte foi através do violino, que seguiu na minha vida por anos. Minha mãe, bailarina, sempre me incentivou para a criação, seja lá qual fosse. Aos 12 anos, tinha uma banda imaginária em que eu escrevia algumas composições, escrevia e rascunhava formas estranhas, minha segunda forma de expressão. Quando cheguei no momento -decisivo- de ter que escolher uma profissão, não sabia ao certo qual rumo tomar e lembro que no cursinho nada era instigante. Decidi então fazer um curso de Cinema Digital, minha motivação naquela época eram os filmes que eu alugava numa locadora simpática ao lado de casa. E deu certo, talvez porque o Audiovisual me permitisse unir som, imagem e um -pouco- de tudo. Desde 2011, trabalho com Cinema, já realizei diversos longas, curtas e séries. Nesse caminho, comecei a fotografar com filme, uma antiga Pentax comprada numa lojinha do centro me fez ver o -ao redor- diferente e eu gostava daquilo. Desde então, a fotografia entrou de vez na minha vida. Uso meus registros como base para colagens e pinturas, que tenho desenvolvido há cerca de um ano. Neste ano, entrei no curso de pós-graduação em Artes Híbridas da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), no primeiro contato, me apaixonei pela ideia de como podemos ressignificar as expressões artísticas, e que tudo pode e -deve - se misturar. Por isso, virei navegante desse universo híbrido e levo todo repertório de arte e vida para meu trabalho. Hoje, desenvolvo fotografias, colagens e pinturas. Também me preparo para dirigir o curta-metragem “Da Janela Eu Vejo O Mundo”, e escrevo o curta “Super Quadra” e o longa “Torniquete”.

Ana Catarina Lugarini por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Para as colagens, utilizo fotografias antigas, pesquiso muito, durante horas e tento encontrar ali referências para outras imagens. Podem ser formas geométricas, frases/palavras soltas. Quando faço digitalmente, vou montando esses elementos em programas como o Photoshop, um quebra-cabeça dentro do tema que pretendo trabalhar. Manualmente, imprimo e busco papéis e materiais com texturas diferentes. Na fotografia analógica, depende muito, mas adoro testar objetos reflexivos e tenho utilizado mais filmes em preto e branco. Uso muito o celular para fotografar, é uma ferramenta incrível de descoberta. Na pintura, ainda com certa timidez, uso tinta acrílica ou aquarela.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A maior motivação é a minha própria descoberta, o que eu sou -e posso- ser através da arte. E criar é meu trabalho, minha principal fonte de renda, é preciso estar motivada, estudando, empreendendo, movendo. É difícil olhar para dentro, as expressões artísticas me possibilitaram isso e mais ainda, enxergar o outro. Crio porque acredito na sensibilidade como forma de existência, acho que é o único caminho em tempos tão sombrios. Sempre deixei minhas ideias num cantinho, tudo bem guardado, passei anos sem mostrar minhas fotografias favoritas ou textos que escrevia, quando resolvi abrir isso para o mundo, de certa forma, encontrei minha identidade. Desde então, sigo me reinventando e encontrado lugares e pessoas em que posso me inspirar.

Ana Catarina Lugarini por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Não existe uma regra ou método claro que sigo, normalmente, a ideia surge e começo a pensar em como realizar. Pesquiso e leio muito e às vezes, faço até um “cronograma” criativo. Gosto de focar em um projeto por vez, porque meu trabalho principal -o cinema- demanda muito tempo, então vou me organizando semanalmente. Quando dou início as criações, crio uma pasta com várias referências de campos diversos e gosto que pessoas próximas somem ao trabalho, acho a crítica essencial no processo. Depois que escolho as referências e ferramentas, me reservo em algum canto aconchegante e deixo fluir, mas cada um leva um tempo diferente, pode ser um dia ou um ano, tudo depende. Inúmeras vezes recomeço, mas isso é a parte mais bonita do processo.

Ana Catarina Lugarini por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Acredito que olhar com sensibilidade para o redor é sempre uma forma que encontro de me manter criativa. As pessoas, uma rua, a cor de um portão qualquer, tudo isso me inspira. Com a correria, às vezes é difícil acessar todas as informações e referências artísticas, então é preciso estar atenta, sem isso ser a maior preocupação de um dia. Arte é vida.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

As fotografias e colagens são meus projetos favoritos na vida. A série de colagens intitulada “Universo Feminino” é um espaço que me ajudou muito a entender a colagem como forma de expressão e de entendimento sobre o feminino, que representa também um momento de descoberta.

Na fotografia, as séries que faço dentro dos filmes que trabalho são de extrema importância, não são fotos dos sets de filmagem, mas sim de um universo quase paralelo, “Rio, te escuto” e uma série “Sem Título” representam esse lugar. E por último, a série feita com a minha mãe “Tudo Sobre Ela”, que é a maior inspiração para tudo que citei até agora -e o que virá.

Ana Catarina Lugarini por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Final do ano de 2016 passei por um momento decisivo de escolhas profissionais e pessoais. Essa produção criativa que mostro hoje passou por um processo gigante de auto aceitação. Esses lugares que somos colocadas como mulheres e seres não-pensantes, sempre impactou minha forma de expressão, eu desconfiava muito do meu trabalho e das minhas ideias, comecei com autorretratos fotográficos e timidamente, a escrever meus roteiros de cinema. E depois, como um portal se abrindo, as outras expressões artísticas surgiram. Quando me dei conta que o que eu produzia tinha potencial, isso me deu vida. Se auto-conhecer é uma busca constante e diária. Precisamos desses questionamentos para redirecionar nossa trajetória. Sempre.

Ana Catarina Lugarini por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

No último ano, minhas maiores influências tem sido mulheres, vou citar algumas, mas essa lista, da qual tenho muito orgulho, só aumenta. São referências de fotografia, literatura, música e cinema: Elsa Bleda, Brigida Baltar, Edie Sunday, Ana Mendieta, Taysa Jorge, Lucrecia Martel, Sophia de Mello Breyner Andressen, Sophie Trudeau. No meu trabalho, essas artistas e influências me ajudam principalmente nos detalhes, em aspectos como uma cor, uma forma, um diálogo, uma luz. E claro, as mulheres da minha família e suas histórias me inspiram muito, meus últimos roteiros, por exemplo, são sobre elas.

Ana Catarina Lugarini por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Ser livre, ser mulher, uma barreira a ser transposta. Hoje, consigo me expressar mais livremente do que antes, sim, e falo de poucos anos. O mansplaining e ser silenciada diariamente pelo machismo é o que me faz querer romper, ter agressividade de ir para frente e criar. Falo por muitas mulheres e colegas de profissão, é difícil segurar a onda, principalmente porque somos cobradas em qualquer trabalho que fazemos, não há espaço para o erro. E isso reflete na nossa forma de pensar e fazer arte. Boa parte do que produzo atualmente tem a participação de muitas mulheres e isso me ajuda muito a ter segurança, estabelecer uma rede de apoio é o que me salva diariamente.

Ana Catarina Lugarini por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Ai, o coração! Vou dar uma desabafada agora: estou tão cansada nos últimos dias e cheia de trabalho que posso dizer que, dormir 8 horas e acordar com café quentinho já me deixa mais do que feliz. Uma boa música e um fazer nada de vez em quando também. E claro, a lista que vai de viajar até comer bolo de cenoura é grande. E melhor, se for na companhia de pessoas que iluminam minha vida.

Ana Catarina Lugarini por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Tenham coragem de expor seus trabalhos para o mundo. Dediquem o tempo livre para pensar e criar, e não precisa ser em uma forma de expressão artística, dá pra ser -de tudo um pouco-. Se você ama fotografar e escrever, misture. Pintar e tocar algum instrumento, misture também. Isso vai abrir caminhos para você construir sua identidade através da arte. As redes sociais me ajudaram muito nesse processo, comecei a postar fotografias, depois algumas colagens e os feedbacks positivos me deram ânimo. Fica a dica. E estude, da sua maneira, você não precisa ler oito livros por mês, nem ter a melhor câmera. Óbvio, tudo isso colabora, mas entenda que a ferramenta mais bonita que temos é nosso repertório de vida. O que somos. E sem clichês, não tenha medo de ser uma artista.

Ana Catarina Lugarini por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Os projetos que mais tenho investido tempo e dedicação são dois roteiros de cinema, um longa (Torniquete) e um curta (Super Quadra). No momento, trabalho também na concepção de uma instalação artística, sobre luz e som. Paralelamente, sigo com meus projetos de fotografia, colagem e alguns escritos. De modo geral, eu tenho desenvolvido tudo -ou quase- ao mesmo tempo, gosto de estar sempre em movimento, com produções novas ou reinventadas.

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