m
Zilah
Rodrigues
Brasil
vivendo em Rio de Janeiro . RJ
32 anos . artesã . joalheira

Falar sobre quem sou ou sobre a minha trajetória é mergulhar na infância vivida no interior de Minas Gerais, na casa dos meus avós, no afeto e no aprendizado que tive desde pequena. Logo aprendi que a graça da vida estava nas pequenas coisas do dia a dia, como num papo gostoso com a vó no quintal de casa, nas tarde bordando com minha mãe no sofá  de casa quando eu tinha apenas 7 anos de idade, nas brincadeiras na terra sem a preocupação de sujar, em ter café e pão fresquinho na mesa, em ter a casa da tia pra onde a gente sempre fugia quando aprontava, em estar cercada por um monte de irmãos. Sempre tive muitas coisas que não são coisas e sempre foi isso que trouxe sentido para minha vida.

Hoje tenho 32 anos, uma filha de 17 e um bocado de história para contar. Sou formada e pós graduada na área de comunicação, mas nunca senti verdadeiramente que era esse meu caminho. Quando estava prestes a me formar e passando por um momento difícil em que queria desistir das escolhas que havia feito, reencontrei no trabalho manual e nessas lembranças afetivas da infância e da família a motivação que precisava para seguir em frente. Cheguei a trabalhar na área de comunicação em agências e ONG’s, escrevi por muito tempo no blog Das Coisinhas sobre artesanato, casa e decoração, mas o que falou mais alto foi o calorzinho no peito e a leveza na alma que posso sentir quando estou com as mãos em movimento.

Há 3 anos saí da minha cidade natal, Nova Lima, no interior de Minas, me casei e vim de mala e cuia para o Rio de Janeiro. Tivemos um período de adaptação longo, mas agora é aqui que minha vida acontece, com meu marido, minha filha e nossas gatas Cleópatra e Aurora. Em 2016 encontrei a ourivesaria, comecei o curso por curiosidade e por achar que talvez pudesse agregar algo ao meu trabalho com acessórios. Já em 2017 me encontrei na ourivesaria.

Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Minhas ferramentas preferidas de expressão são as minhas mãos e aquilo que é fruto do trabalho delas em conjunto com a mente e com o coração.

Essas mãos já usaram e ainda usam linhas, tecidos, tintas, papel, caneta, doces, porcelana fria, flores secas, mas ultimamente o foco tem sido muito voltado ao metal, fogo e vidro.

Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A minha maior motivação é saber que enquanto estou criando, estou seguindo em frente.

Enquanto crio conheço melhor a mim mesma e alimento a vontade que tenho de ser uma pessoa melhor para mim mesma e para os outros.

Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Ele acontece em algumas etapas, mas na maioria das vezes é bem difuso e está sempre em trânsito. Inspiração (que acontece a todo momento), ideia, tradução, pesquisa e prática.

Posso dizer que praticamente tudo me inspira, por isso estou sempre a fazer anotações sobre ideias e projetos que surgem. Sempre escrevo e desenho, apesar de não saber desenhar bem, o que vem em mente não só no que diz respeito às criações, mas também sobre planos, metas e objetivos. Também pesquiso bastante sobre o que me interessa e o que me proponho a criar.

Quando chega a hora de colocar alguma ideia ou projeto em prática, sempre surgem novas ideias ou a ideia original acaba se transformando. É como um ciclo que se auto-alimenta.

Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Procuro manter uma rotina saudável, concentrar cuidados na alimentação, sono e exercícios físicos. Também busco manter a harmonia no meu local de trabalho, que atualmente é também a minha casa, estando bem com o espaço e com quem mais vive aqui.

O contato com a natureza também é algo que me traz energia e uma simples pausa para ver o pôr do sol (meu momento preferido do dia) tomando um chazinho e refletindo sobre a vida já coloca os pensamentos nos eixos quando as coisas estão corridas demais. Amo a energia da terra, dos rios e das montanhas.

Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

As últimas joias que criei, da coleção Aflora, são peças muito especiais. Elas trouxeram aquilo que o nome da coleção significa: são como um novo despertar, a volta de um mergulho profundo no qual busquei tudo aquilo que consegui reunir nessas joias floridas em prata.

Essa é a minha primeira coleção de joias autorais com um nome e uma linha de trabalho definida. Quis traduzir nelas a poesia das flores e de outros elementos que andam sempre junto do meu trabalho, como cactos e cogumelos. Dei destaque às sempre vivas do Cerrado Mineiro, pois pra mim essas flores são uma mistura perfeita de força e delicadeza e também aos mandacarus, por serem símbolo da força e da beleza do Sertão, ‘fulorarem’ e resistirem mesmo na seca.

Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Além do momento em que decidi que queria viver de forma autônoma e usando as mãos como principal ferramenta, posso dizer que estou vivendo esse momento decisivo agora, trazendo o foco do meu trabalho para a criação de joias.

Ainda não sei exatamente como isso influenciará minha trajetória, mas nesse momento sinto que estou ouvindo um chamado, seguindo a minha intuição e fazendo o que faço com mais satisfação, dedicação e autenticidade do que nunca.

Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Acredito que a maior fonte de inspiração que sempre esteve presente no meu trabalho é a natureza. Ela é o que de mais belo e sagrado existe, é de onde absolutamente tudo provém. As montanhas, o pôr do sol, as flores bem pequenas, a terra... isso é alimento para meu trabalho.

Também sou apaixonada pela cultura popular brasileira e pela arte do nosso povo. As lendas do folclore brasileiro, o trabalho das Mulheres do Barro no Vale do Jequitinhonha, os escultores de Alto do Moura/PE - com destaque para a Marliete Rodrigues, que me encantou com a precisão dos detalhes das suas miniaturas, a xilogravura nordestina e os biomas como cerrado, sertão, floresta amazônica e mata atlântica agregam muita inspiração ao que faço. Tudo isso tem influenciado muito a aura mágica e delicada que envolve as peças da Toda Coisinha.

Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Acho que existe um estigma principalmente quanto à delicadeza feminina ser tratada como frufru, firula e coisa de mulherzinha. Sinto isso na pele por adotar um traço bastante feminino e delicado nas minhas criações. Outro dia li um texto de uma amiga, a Lara Dias, com o qual me identifiquei muito: “Há muita coragem em permitir essa vulnerabilidade de ver a vida com poesia. Nesse ato feminino e delicado de arrancar sentimentos do peito e derramar pro mundo com a força bruta de uma florzinha do campo.”

Para mim, é nessa delicadeza que reside um fio condutor que transforma o que faço em arte, em joia ou poesia em forma de pequenas coisas.

Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Atualmente as escolhas que fiz têm me feito bastante feliz.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Quando alguém me pergunta isso, digo apenas que “vá e faça. E continue fazendo sempre”. Primeiro procure a si mesma sem esperar o reconhecimento de outros, foi assim que aprendi a colocar em prática meu maior potencial criativo. Não foi um processo simples e rápido, mas a persistência trouxe à tona autoconfiança e autoconhecimento, os quais considero elementos importantíssimos para quem deseja viver de forma criativa.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

O meu projeto mais recente já está em andamento e tenho me dedicado a ele de corpo e alma. Grande parte desse projeto envolve dar um sentido ainda mais profundo e delicado ao trabalho que faço usando a joalheria e as técnicas de ourivesaria como alicerces.

Em 2018 pretendo seguir firme essa linha e trazer à tona coisas ainda mais belas.

Zilah Rodrigues por Projeto Curadoria
COMPARTILHE
b
//+entrevistas