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Verônica
Alves - HouHou
Brasil
vivendo em Curitiba . PR
33 anos . artista . tatuadora . curandeira

Tudo o que observo e sinto a respeito das coisas ao meu redor me dizem um pouco mais sobre o que observo e sinto sobre mim mesma. E sobre o que sou, me diz também o que o outro é. A arte é a minha medicina, uma cura simultânea pra mim e pro outro. Tendo um corpo de mulher não consigo sentir/pensar/falar/expressar outra coisa que não a partir do que este corpo me proporciona ou o que proporcionam a ele, pro bem ou pro mal. Pois esse corpo une a todas nós mulheres (que nasceram ou se tornaram), e estender meu servir pra outras mulheres é compreender esses sentires ao mesmo tempo que agradeço. E isso está latente na minha arte desde que posso me recordar.

O que faço, então, são desdobramentos disso. Sou artista, tatuadora, reikiana do método “Reiki Xamânico Estelar”, terapeuta floral do sistema “Águas Cristais”, curandeira... e “Houhou” é um microcosmo todos esses saberes se concentram e são partilhados. Tatuo mulheres, numa técnica ancestral, sem máquina, onde utilizo um cristal de quartzo como base pra agulha. Existe o trabalho silencioso dos cristais, existe a força da arte em si, existe a intenção da pessoa e fui organizando tudo isso num formato cerimonial, com começo-meio-fim, onde muitas coisas (visíveis e invisíveis) acontecem além da tatuagem. Tatuar pra mim, assim como o viver, é desafiador, holístico e filosófico. É uma oportunidade de auto-conhecimento, cura e celebração.

Além das tatuagens, tantas outras experimentações acontecem como se eu estivesse brincando e tendo a não enrijecer nenhum dos meus afazeres.

Verônica Alves por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Meu coração, meu olhar e minhas mãos. Todo o resto, são coisas que vão mudando dependendo do que se deseja acontecer. São experimentações, sou amadora e entusiasta em todas: canetas, aquarela, bordado, adereços, instalações, animações, foto, videoarte, tatuagem, tela, poema...

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Me perceber como instrumento de pequenas revoluções do dia a dia. Sentir que posso fazer algo pelo outro a partir da minha arte. Meu trabalho é servir, e o que entrego recebo de volta, gerando assim uma nova doação. Prestar serviço ao que te inspira é agradecer por inspirar. Essa troca é o que me inspira, o que me motiva, o que me faz querer ser uma pessoa cada vez melhor pra que isso possa se desdobrar com potência e verdade em tudo o que faço.

// Como é o seu processo criativo?

Meu universo interno é uma loucura, até mesmo pra mim. Tendo a passar dias criando diferentes coisas só ali na cabeça e quando coloco no papel a ideia já está quase pronta. Tenho projetos diferentes em andamento e vou fazendo esse revezamento conforme vou me entediando de um ou de outro, misturo e dou a mesma importância pros remunerados e pros não-remunerados, e me organizo de forma orgânica e labiríntica.

Mas com o Houhou tem sido diferente, me vem muito desenho em sonho, meditação, processos de silenciamento e expansão de consciência, e conforme vou desenhando vou descobrindo o que é. Sinto ser a forma mais pura de criação que já experimentei até então, pois percebo um desligamento da mente e um deslizamento do coração. Tenho começado também a visualizar esses desenhos já direto na pele das pessoas, e é algo que tenho trabalho pra se abrir mais pra mim ou eu me abrir pra isso.

Eu sou uma trabalhadora incansável, às vezes me esqueço de comer, não sinto sono. Praticamente um robô! Se você me alimentar eu produzo dias a fio. Ah, e também me deixe sozinha com uma boa música!

Verônica Alves por Projeto Curadoria
Verônica Alves por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Acho engraçada essa pergunta, pois ela sugere que não se "é" criativo, mas se "está". Na verdade, todos os seres tem o potencial nato da criação, que é a própria vida que se expressa de infinitas formas. Criamos como a própria natureza: incansavelmente.

Eu sinto que minha fonte criativa tem duas raízes mais fortes: o meu constante observar e a minha dedicação aos pequenos rituais do dia a dia.

Eu tenho essa tendência à passividade e contemplação desde sempre, o que me fez ser uma criança bem tímida e com dificuldade de me relacionar. De uma forma que acontece até hoje, eu sempre preferi estar nesse círculo de fora a observar o todo, e percebo hoje que isso foi me moldando a procurar responder a tudo a partir das minhas criações, pois sinto que assim consigo ser mais sincera na minha entrega pro mundo. Em relação aos rituais, eu emendo um ritual no outro, tem o ritual da manhã em que me alongo na cama e medito, observando os sonhos. E isso é emendado no do café da manhã. Acho lindo viver em rituais, pois é a minha forma de ser/estar na presença constante e honrar cada passo desse caminho, que é muito mais significativo que a chegada em si. A vida é um ritual. Notar-se em constantes rituais é um convite à magia, e não há nada mais inspirador que presenciar a magia da vida se acontecer a todo instante.

Verônica Alves por Projeto Curadoria
Verônica Alves por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

O que estou fazendo no momento. Existe algo de precioso e inenarrável no momento exato da criação, como o criar de uma vida ou um parto, estar presente no momento em que aquilo sai do campo invisível, vai se materializando e se revelando sem pressa, diante das suas mãos e dos seus olhos, é uma experiência sagrada à qual agradeço todos os dias.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tenho dois. O primeiro, foi quando eu percebi que precisaria fazer uma escolha na vida que seria entre continuar empregada de carteira assinada ou viver da minha arte. Eu adoro esses momentos! É como dar um salto, quântico, um diálogo sincero entre seu coração e o coração do universo. Não foi fácil, senti medo, insegurança. Mas sabia que não tinha outro caminho, então fui lá e pedi demissão. Me recordo da sensação incrível que senti enquanto voltava pra casa depois disso, em que caminhava na rua e me parecia que eu andava no estilo “Singing In The Rain”, os carros saltitavam enquanto transitavam, os semáforos piscavam pra mim, os animais de rua faziam ciranda em roda, as árvores estavam dançando com suas folhas esvoaçantes... minhas amigas me disseram que nesse momento, nas caixas de som espalhadas por toda a cidade, estava tocando “Don't worry about a thing, 'Cause every little thing is gonna be alright”. Nesse momento atravessei um portal. Depois disso, sinto que todos os dias são me dados como um presente pra eu mostrar pra mim mesma que sou capaz, que sou co-criadora da minha realidade, que tenho os deuses como proteção e a liberdade como irmã. E que existe vida querendo ser vivida.

Verônica Alves por Projeto Curadoria
Verônica Alves por Projeto Curadoria

E o segundo foi no começo dos atendimentos com o Houhou. Atendi uma cliente uma vez que estava com uma energia extremamente pesada, senti assim que abracei. Depois ela me contou o motivo, um problema pessoal, mas fiquei tão assustada que me questionei se conseguiria atendê-la. Daí tirei o Oráculo da Deusa, pois sou extremamente respeitosa com todos os tarots/oráculos e recorro a eles sempre que preciso, e me saiu a carta da deusa Ísis. Essa carta diz, resumidamente, que a minha arte é a cura e ela está no serviço pro outro. Isso foi depois se revelando na prática, as mudanças nessa cliente e nas outras, as mudanças na minha própria vida. Desse dia em diante aceitei minha missão e foi como um outro portal na minha vida.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Minha inspiração vem da escuta e da observação.Tenho me inspirado muito em mulheres mais próximas do meu convívio, profundo ou momentâneo, e em todo o movimento atual que estamos vivendo. Tenho ouvido e lido muitas mulheres feministas, lgbt's, índias, negras, pois sinto que já passou da hora da gente se silenciar e deixar elas falarem. Tem um seriado sensacional no Netflix chamado “Cara Gente Branca”, recomendo, ele foi boicotado o que confirma ainda mais a importância de todos vermos.

Verônica Alves por Projeto Curadoria
Verônica Alves por Projeto Curadoria

Tenho amigas tão maravilhosas: mães, cozinheiras, ginecologista natural, terapeuta ayurveda, terapeuta quântica, reikiana, musicista e cantora, alquimista, dançarina, parteira na tradição, mulheres-medicina, artesãs... Observar a relação delas com o trabalho sem saber o que é vida pessoal ou profissional, o comprometimento com o que se faz, com o outro, com melhorar o mundo. Mulheres com a coragem de se investigar, de se curar e de curar a outra. Elas me inspiram demais. Tenho frequentado há alguns anos rodas de mulheres e cerimônias de medicina, e posso afirmar com toda certeza que não existe maior obra de arte do que essas. Tudo o que eu faço tem a ver com um desejo genuíno de propagar esse feminino tão sagrado.

Verônica Alves por Projeto Curadoria
Verônica Alves por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Em se expressar livremente, com certeza. A mulher é cobrada em muitos quesitos. Tudo o que ela fala ou faz é julgado. O Brasil é o país que mais mata mulheres, imagine se expressar – que não é um crime por lei. Ser mulher é resistir, e acredito que toda mulher já desenvolveu tal habilidade – mesmo que inconsciente.

No meu trabalho, eu não me recordo de ter sentido isso pois fui privilegiada em muitos aspectos. Mas sei de muitas histórias de amigas que sofreram bastante, foram exploradas por homens em estúdios de tatuagem, sofreram assédio de cliente bêbado, e tantas coisas que ainda se repetem tanto na vida profissional como na vida pessoal. Um caminho que está mudando mas que ainda exige muita vigília e dedicação de todas nós.

Verônica Alves por Projeto Curadoria
Verônica Alves por Projeto Curadoria

O que mais tem me entristecido e é meu exercício da vez é o machismo que parte de nós, de mulher pra mulher, em todos os âmbitos. A gente é empática e pratica a sororidade, mas somos seletivas. Só acolhemos as que escolhemos. O desafio é investigar e liberar as barreiras que nós mesmas criamos entre nós, pois o patriarcado fez um trabalho muito bem feito em cada uma, nos fazendo acreditar que somos inimigas. Lembrar que somos diferentes e essa diferença cria privilégios. Nem toda mulher tem a oportunidade de conhecer os assuntos que a gente conhece ou de estar no lugar que estamos, então o nosso papel também é olhar além e estourar essas bolhas. É preciso perdão, muita abertura, muita conversa, muita compaixão, ceder espaço pra essa cura de todas nós. Pois tenho certeza que nenhum patriarcado é mais forte que o amor que podemos sentir uma pela outra. Se posso fazer isso na minha vida e na minha arte, não resta dúvidas que farei.

Verônica Alves por Projeto Curadoria
Verônica Alves por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Ser feliz independe de qualquer fazer, mas sim de um reconhecer. Inclusive, quanto menos coisas eu achar que preciso pra ser feliz, mais feliz de verdade me reconheço. É a grande piada cósmica.

Verônica Alves por Projeto Curadoria
Verônica Alves por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não se cobre tanto e se dê prazeres. A gente tem a tendência de ir se esquecendo de coisas muito simples, e o papel do artista é justamente não deixar que seja esquecido – a começar por ele mesmo.

O significado de criatividade é "formas diferentes de se resolver um problema", o que é louco se pensarmos que vivemos numa sociedade que mais cria problemas do que resolve. Por isso o tabu da (falta de) criatividade. O sistema no qual estamos adaptados é opressor e cruel, e diz que temos que ser competitivas, desconfiadas, extraordinárias, mesmo que tenha que passar por cima da nossa Verdade. Não tem como toda essa crueldade não interferir na nossa conexão com a fonte criativa que somos. Mas só o que sai dessa fonte criativa irá te satisfazer plenamente, pois o resto será somente descartável e efêmero. Investigue até encontrar essa fonte, é extremamente possível, então busque a sua Verdade e a sua missão, como se você não tivesse outra coisa a fazer (e de fato, não tem). Isso e somente isso irá te fazer ser plenamente feliz com o que veio fazer e essa conexão é de uma potência revolucionária na sua vida e no mundo. Os apelos externos não alcançam essa fonte, portanto ela é pura e única. O meu conselho então é: pare de olhar pra fora e olhe pra dentro.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sempre... estou constantemente repensando de que forma meu trabalho pode colaborar e se aproximar do que acontece no mundo ~ num conceito de “artivismo”, mesmo. Estou criando as artes pro IV Festival Sul Americano dos Sagrados Saberes Femininos e vendo de quantas formas possíveis a minha arte serve à sua própria inspiração.

Nas tatuagens, estou investigando a utilização da máquina de tatuar e a forma como ela irá se encaixar no formato de ritual que tenho hoje. Foi algo que me veio em sonho, inclusive me foi ensinado até como iria ser inserido o cristal na máquina. Senti que será uma forma de ampliar as minhas artes, que na técnica manual fica mais comprometida, além de coisas que ainda não sei.

Também tenho alguns projetos que são apenas sementes, mas gostaria muito de fazer um livro.

Verônica Alves por Projeto Curadoria

FOTO DO PERFIL/DIVULGAÇÃO POR ANA MOMM

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