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Tina
Niessner
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
30 anos . arquiteta . designer . ceramista

Nasci em Boituva, interior de SP, onde morei até meus 12 anos. Minha infância foi no meio do mato, tive um carneiro de estimação e eu queria muito ser inventora.  Mudei para São Paulo com a minha mãe - viúva desde a gravidez. Sempre fomos uma dupla, o que ficou mais claro pra mim com o passar dos anos e depois de alguns perrengues.

Depois do colégio entrei na faculdade de matemática. Lá me apaixonei por astronomia e aprendi a apreciar uma boa crise existencial. Apesar de adorar desafios, desisti na metade do caminho. E depois de muita terapia, resolvi ir pra arquitetura.  Eu não fazia ideia do que significava o curso, mas (diante da minha lua em Áries) parecia um caminho interessante. E foi. Na FAU eu aprendi que era mais de humanas do que imaginava, tive lições de vida significativas e descobri, depois de formada, que mesmo arquiteta, não tinha uma profissão definida.

Me aventurei em escritórios de arquitetura - dos quais me orgulho bastante, até começar a construir, sem grandes expectativas, a Gypso - com a minha sócia e melhor amiga, Débora.

Na mesma época encontrei a cerâmica, também tivemos a oportunidade incrível de participar do Projeto Feito, montamos um ateliê juntas e, finalmente, me dei conta de que me tornei inventora de muitas coisas.

Tina Niessner por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Gosto de muitas ferramentas. O barro tem sido minha inspiração ultimamente, mas obviamente sou uma baby ceramista. O concreto é o meio mais constante. Com a Débora, as descobertas surgem quase sempre de algo pré-existente, gostamos de reaproveitar e transformar coisas em peças novas, com latão, cobre, fios... e trabalhamos muito bem em dupla.

O desenho também faz parte do meu dia-a-dia, gosto de registrar as peças que fazemos e planejar no papel algo que conversamos, além de ilustrar.

Outro meio que eu gostaria de explorar mais é a linha. Herdei uma máquina de tear da minha avó e certamente vai ser meu futuro objeto de estudo.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Me atrai muito a possibilidade de desenvolver um projeto do começo ao fim. Transformar o barro em cerâmica, o cimento em pedra, a linha em rede. A escala do design de objeto pode ser muito palpável e eu gosto de ver algo surgir, de participar de todo processo de transformação da matéria e ideia.

Tina Niessner por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Basicamente é sentar e fazer. Sinto isso mais claramente na cerâmica, mas se aplica em qualquer meio. Sinto que produzo de forma emocional e empírica. Também sou desapegada e se uma coisa não funciona, tento de outra forma, re-aproveito como dá, busco aceitar a beleza do erro. Isso não me impede de depois lapidar e aperfeiçoar uma peça. Acontecem surpresas muito boas com essa metodologia, eu sempre tento propagar ela pra quem é muito exigente ou ansioso.

Tina Niessner por Projeto Curadoria
Tina Niessner por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tomo café!

Brincadeiras a parte, me manter criativa é existir, estar acordada. Também acho muito inspirador ter contato com outras pessoa. Recentemente fiz o curso da Catarina Bessel, de colagem e ilustração, foi muito produtivo. Ela aplica uma técnica de produção cronometrada que achei muito maravilhosa. Eu acho saudável estar produzindo algo constantemente, mesmo que a princípio eu não esteja satisfeita com o resultado. É um exercício. Depois você pode voltar pra algum esboço e enxergar o valor dele, partir dali pra outra ideia.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Acho que as peças desenvolvidas com o Projeto Feito consolidaram a linguagem da Gypso para mim. A partir dali pareceu real e possível trabalhar como eu me sentia a vontade e de maneira natural, reaproveitando e ressignificando objetos.

Parece um jogo de ligar os pontos, conectar peças a partir de uma bagagem existente. Foi uma espécie validação pessoal e profissional.

Tina Niessner por Projeto Curadoria
Tina Niessner por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tudo parece muito recente, mas acho que o momento mais crítico da minha vida pessoal até então me empurrou pro desenrolar da Gypso e pra um caminho profissional que ainda era turvo.

O fim de um relacionamento de uma década, perder o emprego e morar temporariamente no sofá de amigos, fizeram com que eu me reinventasse. A Gypso já estava engatinhando na época, mas entrei de cabeça nisso porque precisei me agarrar a algo, precisei criar raízes. E essa base que estamos construindo me trouxe um novo olhar sobre as minhas habilidades e o poder de ser autônoma.

Tina Niessner por Projeto Curadoria
Tina Niessner por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

São muitas!  A inspiradora Sara Carone, com quem comecei a cerâmica; os desenhos da Lygia Pape, da Lina Bo Bardi; as fotografias do Geraldo de Barros; as peças da Sandra Jávera, os móbiles do Calders; as colagens da Catarina Bessel; as pirações do Hundertwasser; a arquitetura dos meus professores e colegas; o empreendedorismo das queridas Sofia e Fernanda (Olive e Noni) e, claro, minha sócia/amiga, a Débora, com sua delicadeza e sensibilidade infinitas. Eles (e outros) são catalizadores da minha produtividade.

Tina Niessner por Projeto Curadoria
Tina Niessner por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Definitivamente a sociedade patriarcal ainda nos molda. E acho maravilhoso estarmos discutindo isso hoje. Não sei como explicitar num ponto específico do meu trabalho final de tão enraizada que está essa condição. O preconceito está nos comportamentos que nos cercam no dia-a-dia, os que nem percebemos, os que passamos a perceber há pouco. É um exercício diário termos consciência para quebrá-los.

Tina Niessner por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Me preenche receber amigos, fazer um bolo gostoso, viajar sem fazer planos, fins de semana no meio do mato, abrir o forno de cerâmica depois de muita espera, ver um projeto (de qualquer escala) se desenvolver.

Tina Niessner por Projeto Curadoria
Tina Niessner por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Apenas faça. As coisas acontecem naturalmente quando fazemos com amor. Precisamos apenas de um ponto de partida pra desenvolver qualquer criação. Não adianta esperar o momento perfeito, uma epifania ou a inspiração milagrosa. O movimento natural manifesta um caminho.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou bastante focada em consolidar a Gypso como empresa e estúdio criativo, então cada dia é um pequeno passo para tornar esse projeto mais redondo, inclusive lançar peças e coleções novas. Meu compromisso agora é também expandir a escala do concreto, incorporar mais arquitetura nos nossos desenhos e também outros materiais.

Tina Niessner por Projeto Curadoria
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