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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Thisby
Khury
Brasil
vivendo em Graz . Áustria
31 anos . artista

Sou uma curitibana típica, de sangue misturado de muitas origens: polonês, espanhol, libanês. Sou meio filha do mundo, nascida de um pai e de uma mãe que são pura emoção. O resultado é uma filha do mundo paradoxal, que vive por conhecer novos locais, viver em diversas cidades, mas que sente o peso da saudade de casa todos os dias.

Minha primeira grande mudança foi aos 19 anos, quando me mudei para São Paulo para estudar Design de Moda no Istituto Europeo di Design. Sampa e a universidade abriram minha cabeça de menina vinda da Curitiba que, na época, era ainda bem provinciana; história da arte, arte moderna e contemporânea se tornaram minha obsessão instantaneamente. Quando terminei o técnico em Design de Moda, eu não aguentei e queria me aprofundar mais: emendei uma segunda graduação em Artes Visuais na Belas Artes de São Paulo e, em menos de 6 meses, comecei uma formação para trabalhar como arte educadora na 29a Bienal de Arte de São Paulo — experiência que ampliou ainda mais meus horizontes. Comecei aí uma rotina que mesclava a criação de uma poética visual pessoal com a do trabalho de educação informal que me faziam acordar todos os dias muito, muito cedo e que eram muito, muito intensos. Em cinco anos esses dois universos (o da criação e o da educação) me fizeram uma pessoa viciada em aprender algo novo todos os dias — e isso era, sim, parte da rotina — e, principalmente, conversar sobre arte e sobre o que ela suscitava em todos os instantes.

A segunda mudança aconteceu exatamente dez anos e um mês depois da mudança pra São Paulo, quando me mudei com meu companheiro, Michel, para a Áustria. Ele recebeu uma bolsa para fazer o doutorado por aqui e, como sempre sonhamos em morar na Europa, decidimos nos casar e vir juntos. E, com a mudança, veio uma nova etapa no processo de abrir a cabeça.

Moro há quase três anos em Graz, uma cidade com a mesma quantidade de habitantes que a cidade do Rio de Janeiro tinha em 1850. As coisas aconteceram de modo bem diferente do que eu planejava, mas, pela primeira vez, estou tendo tempo de me conhecer de verdade. Longe da universidade e das reuniões filosóficas em instituições de arte, posso descobrir o que eu gosto MESMO de fazer e o que me faz feliz.

// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Hoje me dedico principalmente ao bordado. Sempre que sinto desejo volto para a pintura à óleo. Já naveguei nas linguagens da performance e da instalação, por exemplo, mas hoje meu trabalho está mais voltado a um fazer mais manual, visual, intuitivo e menos conceitual. Apesar disso, gosto muito de pensar o bordado como um ato performativo, um modo de registrar o tempo cronológico. E de fixar o tempo no tecido.

Sempre penso muito também no plano tridimensional, mesmo trabalhando essencialmente com objetos bidimensionais. Tenho tentado trazer o trabalho para o espaço, para a vida e para o dia-a-dia. Acho que a arte só faz sentido se inserida na vida, ativada ou carregada por alguém.

Thisby Khury por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A arte e a vida me bastam como motivação para me considerar uma artista até o resto da minha vida. Acredito muito no poder transformador da arte, no diálogo rico que ela pode desencadear se colocada em conflito com a vida e em como ela pode nos fazer olhar o mundo por outras perspectivas — seja em frente a uma instalação num museu, vendo um grafite na rua ou no broche que você carrega no casaco.

Visitar exposições me inspira muito! As melhores são aquelas que me fazem fritar a cabeça.

Viajar é, sem dúvida, uma das minhas favoritas fontes de inspiração pra vida. E a natureza também, especialmente o universo vegetal… meus “musos” favoritos são aqueles matinhos perdidos que ninguém nota.

// Como é o seu processo criativo?

Hoje ele é muito diferente do meu processo de alguns anos atrás, que era muito mais teórico.

A fim de me propiciar um processo tranquilo e orgânico, mais coerente com a vida que eu estou vivendo hoje, eu me dedico a olhar muito ao redor. Desde que me mudei para a Áustria, descobertas novas fazem parte da rotina: artistas locais que eu não conhecia, plantas interessantes que eu nunca tinha visto, paisagens muito diferentes e, principalmente, estações do ano bem marcadas. Isto faz uma diferença grande para quem se inspira na natureza! Pra tanto, eu sempre ando com meu celular comigo e fotografo tudo que chama minha atenção. Eu recorro muito a estas imagens na hora de desenhar um traço novo para um bordado ou uso a própria foto como base para vetorizar a forma que eu desejo.

Thisby Khury por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Música é um elemento importante na minha vida, pois influencia muito meu humor. Portanto, a primeira coisa que faço após o café da manhã é ligar um som compatível com meu espírito no dia e com o clima lá fora.

Outra coisa importante é meu local de trabalho, minha mesa. Tenho uma parede lotada de referências, cores, fotos, cartas e mensagens de pessoas que amo e que me ajudam a lembrar sempre de continuar a criar.

Ter muitas plantas em casa é uma fonte infinita de pequenas mudanças e de vida. Tenho a sorte de morar numa casa com um jardim lindo… O ritmo do jardim que observo todos os dias de manhã por alguns minutos me conecta com o tempo real da vida.

Recorrer a aqueles registros fotográficos que falei anteriormente também me ajudam bastante. E ir atrás de novas imagens caminhando na rua ou no Jardim Botânico de Graz também é muito precioso pra exercitar o olhar pra novas formas e cores.

Thisby Khury por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tenho um carinho grande por todos meus trabalhos, principalmente porque trabalho por um tempo bem extenso neles e naturalmente um pedaço importante da minha vida fica neles registrado.

Thisby Khury por Projeto Curadoria

Adoro este bordado porque ele foi feito de um modo totalmente diferente do que eu costumo trabalhar. Não fiz nenhum projeto e eu fui construindo a composição conforme ia bordando. Além de ser um dos meus “abstratinhos”: os bordados que eu tenho um carinho especial. Sempre que estou em busca de algum caminho porque não sei muito bem como continuar um trabalho, olho pra ele pra buscar alguma dica.

Thisby Khury por Projeto Curadoria

Este bordado foi o primeiro feito apenas com linhas pretas e testando fios diferentes, bem finos e com “gramaturas” diferentes. Eu amei muito o resultado! Gosto da qualidade das linhas, me lembra muito um desenho feito em caneta nanquim.

Thisby Khury por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Minha mudança para Graz foi, até o momento, o maior desafio pelo qual já passei. Não apenas porque eu cheguei sem saber nada de alemão, mas a escala da cidade também é bem diferente da São Paulo frenética e infinita de novidades que eu morei antes por dez anos.

O peso emocional foi o mais difícil. Aprender a lidar com a distância da família e dos amigos. Além disso, todos os meus contatos profissionais eram de São Paulo.

Acho que a mudança me fez olhar para dentro meio à força (é algo que a gente evita bastante, né? Eu, pelo menos, sempre evitei bastante!). Com isso, em alguns momentos a duras penas, rolou um processo de crescimento interno enorme. Hoje sei com muito mais clareza as coisas que são saudáveis ou tóxicas emocionalmente pra mim. Me importo menos com a opinião dos outros, aprendi a apreciar e a valorizar os momentos em que eu estou sozinha.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Admiro o trabalho de muita gente, e acho que tudo que eu faço acaba sendo, sempre, uma colagem de tudo que eu gosto. Tudo é inspiração.

Algumas artistas mulheres que me guiam nos últimos meses são a Amanda Palmer com a música que ela sempre fez e o maravilhoso livro “The Art of Asking”; a Britta Marakatt-Labba e seu trabalho Historja, o bordado que mais me deixou boquiaberta até hoje, com 24 metros de história e contos de um povo indígena nórdico; e os desenhos de botânica e xilogravuras da artista Norbertine Bresslern-Roth, que viveu aqui em Graz.

Thisby Khury por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

O feminismo faz muito parte do meu dia-a-dia, das minhas reflexões cotidianas. O processo de desconstrução é constante e, sem dúvidas, ele faz parte do meu trabalho mesmo que não apareça de modo óbvio. O trabalho manual, em especial o bordado, é uma linguagem típica feminina — e eu tenho muito orgulho disso.

Acho que enquanto houver mulheres caladas no mundo, que não sejam livres para se expressarem e fazerem o que quiserem, da forma com que desejarem, a nossa luta continua.

// E o que te faz feliz?

Pergunta difícil! Por que eu acho que é bem fácil me fazer feliz e é um desafio listar tudo!

As primeiras coisas que passam pela minha cabeça são: descobrir uma música linda por acaso, dia de chuva e frio em casa com chá quentinho e bordado, encontrar um matinho simpático, minha irmã, a carinha de sono de manhã cedo do meu marido. E risoto.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não deixem de serem sinceras com vocês mesmas. Nada e ninguém deve e pode se sobrepor a aquilo que te faz feliz e te deixa calma e tranquila com você mesma. Faça só aquilo que faz sentido primeiro pra você.

Thisby Khury por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Na primeira semana de dezembro abri minha muito sonhada loja virtual pra vender meus bordados. Ela é parte do meu ateliê, que na verdade é a mesa onde eu produzo tudo sozinha. Está longe de estar como eu gostaria, mas a utopia da perfeição só é possível se começarmos de algum lugar, não é?! Eu comecei aqui: Meipuru Studio.

Gostaria muito também de dar cursos de bordado livre em inglês ou português um dia aqui na Europa… Ainda mais aqui em Graz. Sinto saudades do papel de educadora, atelierista. Quem sabe um dia? Se você mora na Áustria ou nas redondezas e tem vontade de tomar um chá e bordar junto, entre em contato comigo!

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