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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Thaisa
Zanardi
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
29 anos . artista

Desde criança tenho lembranças de que sempre curti desenhar, pintar e criar em geral! O tempo passou, fiz bacharelado em Artes Visuais na Belas Artes e me formei em 2010, foi muito bom para o meu desenvolvimento, inclusive para desconstruir ou desaprender o que eu achava que sabia dentro do universo da arte.

Sempre trabalhei no meio das artes, com arte-educação e monitoria de exposições, quando conseguia desenhava por conta própria em casa mesmo. Já trabalhei em uma escola de desenho em meu antigo bairro, em um espaço de recreação e oficinas para crianças, no Sesc Pompéia e em uma ONG na periferia na qual tive a oportunidade de vivenciar o grafite.

Lá na ONG, eu criava desenhos para colorir as paredes juntamente com crianças e adolescentes. Chegamos até a fazer um painel para expor na recepção do Cirque Du Soleil. A experiência que tive por dois anos naquele trabalho resultou num processo de troca importante e de aprendizado muito grande para mim, fui professora mas também muito aluna. Porém, eu ainda sentia que faltava alguma coisa, até que consegui a oportunidade de trabalhar em um museu (MIS) como orientadora de público e foi bem interessante acompanhar os bastidores e montagens de exposições, mostras e shows.

Mas sempre tive uma inquietação e trabalhar daquela forma não era muito minha praia, mas em paralelo a isto, uma amiga sabendo que eu curtia desenhar me chamou para fazer uma arte na parede de sua casa e deu muito certo, só que até então minha arte autoral se apresentava mais como um hobby. Entretanto naquele momento me senti realizada e comecei a desenvolver mais trabalhos pessoais. Outros grafites foram surgindo e eu ia conciliando meu emprego atual com meus desenhos e pinturas.

Tive outra oportunidade de trabalho e no final de 2015 ingressei em uma distribuidora de filmes mais cult, em paralelo tudo o que vai aparecendo que condiz com a minha arte eu vou abraçando!

São trabalhos muito gratificantes e em cada processo sinto que vivo o momento presente e que realmente me encontro ali. Gosto de pensar na arte como elemento transformador e criador, capaz de mudar ou expandir pensamentos, atrair o olhar à viagens interiores, o que tenho chamado de Self Travel!

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Utilizo qualquer suporte que seja liso: paredes, madeira, telas, papéis e a pintura é feita na maioria das vezes com spray, além da cereja do bolo que são os detalhes com canetas em geral (principalmente a Posca)!

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha arte está em constante transformação e amadurecimento mas o que mais me inspira é a natureza e seus mistérios. Sempre penso nos seres e elementos do fundo do mar, nas matas, nas plantas, nos animais, no fogo, nas cachoeiras e etc.

E o que mais existe de místico e poderoso dentro desse universo eu procuro tentar deixar visível através do meu olhar.

E o que me move a criar são sinais gráficos e detalhes que se repetem remetendo até mesmo a mandalas ou fractais, mas de uma forma menos linear e mais expandida.

A natureza é o que dá forma a tudo nesse mundo, e essas são algumas das coisas que me encantam e se conectam com espiritualidade e ocultismo, tema que me interesso também.

Orixás, entidades, deuses, sereismo, budismo e algumas sabedorias orientais e hindus me fascinam. Atualmente, por exemplo, desenvolvi uma identidade para os Orixás da Umbanda, eu queria criar algo diferente do que eu costumo ver e de forma delicada e mais desconstruída como se materializasse a irradiação e energia de cada um.

Mas busco sempre estar aberta a novas ideias e criações.

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Para mim é um trabalho de expansão de consciência através do desenho. Tem de ser um processo livre no qual posso ser eu mesma ali. Costumo pegar uma referência ou outra, seja da natureza ou do elemento existente para buscar a essência principal daquilo e a partir daí começo a criar. Algumas coisas deixo a imaginação me levar mesmo. Também consulto bancos de imagem como o Pinterest.

Em geral é um processo mais intuitivo, mas quando se trata de espiritualidade e coisas que necessitam de uma leitura e pesquisa eu a faço com prazer!

De toda forma gosto de ter autonomia para criar pois as coisas fluem mais e ai vou adaptando aos poucos. A criatividade é variável e se dá também por afinidade com cada coisa criada.

Como utilizo muita repetição de padrões e linhas é como se o desenho fosse um mantra materializado o qual repito inúmeras vezes e cada um tem uma intenção, uma onda, uma vibração.

O tipo de arte que desenvolvo para mim é como uma meditação, tento delinear os detalhes que vejo dentro de mim mesma e também a partir de coisas e objetos. Gosto de pedir para a pessoa que solicita a arte que me conte um pouco sobre ela e o que mais gosta na vida, como uma terapia mesmo, pois a partir dessas referências crio algo que descreva um pouco de sua essência também.

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu escuto muita música. Sem música a arte seria sem tempero para mim. E depende muito de cada criação, mas para algumas escuto músicas que elevam a frequência como as de meditação, escuto pontos de Umbanda, rock e músicas instrumentais. Eu sou muito fã do Steve Vai que é um guitarrista famoso e o som dele me dá muita inspiração. Também busco meditar quando possível, caminhar, e tenho estudado e lido bastante sobre magia, Umbanda e etc.

Quando consigo gosto de escapar para a natureza, seja em um parque que tenho perto de casa mas, melhor ainda se conseguir ir à praia, afinal dá uma renovada nas energias e nos olhares sobre as coisas.

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Meu projeto mais querido foi o Painel dos Orixás feito este ano, 2018, no Colégio de Umbanda Sagrada Pena Branca do Pai Alexandre Cumino, foi um dos trabalhos mais incríveis, mágicos e profundos de se fazer. Tudo começou quando comecei a criar uma série de quadrinhos com cada Orixá e sempre fui fã do Cumino, quando despretensiosamente marquei ele em uma publicação no Instagram, ele me descobriu e tudo aconteceu! Fui super bem recebida pelo dirigente e por todos os envolvidos. Sinto muita honra e gratidão de fazer parte dessa construção de uma nova identidade aos Orixás tão amados naquele e em diversos lugares. O painel tem em torno de 12 metros de largura e me orgulha muito ele fazer tanto sentido em um templo sagrado tão especial! Tudo isso fez meu trabalho e minha motivação crescer muito e agora estou em uma fase de transição para realmente viver só da minha arte, finalmente estou vendo que ela pode e deve dar muitos frutos. A Umbanda me acolheu e esse encontro tão importante e essencial para a minha vida estava escrito no meu destino.

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Em 2016 e 2017 aconteceram muitas reviravoltas e períodos tensos na minha vida em geral e eu fui em busca de autoconhecimento e também uma busca espiritual mais firme. Uma das coisas marcantes que estava ocorrendo era o fato de que meu pai estava quase por um ano internado no hospital a espera de um transplante de coração, lidar com a vida e a morte é algo muito transformador mas ao mesmo tempo desconhecido, aquele período estava sombrio pra mim.

Até que no final do ano passado acabei recebendo uma oportunidade que marcou minha vida. O estúdio de dança, Studio Metrópole (o qual eu já havia grafitado em meados de 2014) me chamou pra dar uma cara nova ao seu novo espaço. O espaço estava BEM maior e para mim era um enorme desafio, nunca tinha feito algo tão grande até então, mas aceitei e fui de peito aberto. Aquilo marcou uma ruptura forte na minha vida e me colocou de volta no caminho da arte! E o mais louco é que exatamente quando eu terminei aquele trabalho o coração do meu pai apareceu e o transplante foi um sucesso!

Foi um processo bem delicado mas muito importante para rever as coisas que realmente importam nessa vida, e uma delas é fazer as coisas de coração.

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Difícil escolher! Mas vou citar novamente o Steve Vai pois mesmo que seja de uma outra área da arte que é a música é uma grande fonte inspiradora pra mim como se fosse possível materializar a música através do desenho. Das artes visuais amo as pinturas do Alex Grey, do Alphachanneling, Iveta Abolina, Daria Hlazatova, Jakutchu Ito, Salvador Dali, Escher, Bosch, Basquiat, dentre tantos, alguns tem questionamentos espirituais, outros a exploração do desenho abstrato e repleto de linhas dos quais gosto muito. Gosto também das gravuras de Posada, Francisco Maringelli, Borges, que me remetem a época da faculdade e minha formação e também as meninas do grafite como Clara Leff, Minhau, Jana Joana, Nina e etc, e dos caras, Gêmeos, Chivitz, Inti, Derlon. Todos me inspiram com suas cores vibrantes e marcantes. Também curto muito o universo da tatuagem em geral! A arte é muito rica e variada!!

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Eu sempre tive muita abertura em meu caminho com relação a isso, 90% do meu público já era feminino, principalmente ao se tratar de uma pintura dentro de casa. Nesse sentido as mulheres devem se sentir mais confortáveis em saber que vão receber uma mulher além de naturalmente já apoiarem mais os trabalhos femininos em geral sabendo que existe uma certa “invisibilidade”, principalmente a nós, artistas que não estão na mídia ou com fácil acesso ao mundo da arte mais consolidado.

Mas é fato de que tenho muita dificuldade em fazer trabalhos na rua, é algo que não consegui realizar por diversos fatores e ainda mais por trabalhar sozinha. Por um lado ainda não experimentei mesmo, mas por outro tenho receio de sofrer abordagens ruins e preguiça de ter de encarar assédios ou precisar ter um homem ao meu lado pra me sentir mais segura.

Quando vou comprar sprays costumo ir a uma loja na qual só trabalham homens, e sempre me atendem bem, mas é preciso ter firmeza e certeza do que foi buscar ali pois dá uma sensação de olhares surpresos em ver uma moça comprando várias latas.

As mulheres conquistaram bastante espaço, precisam ser enaltecidas sempre mas também com naturalidade, sem “forçar a barra”, pois o que costumamos ouvir é “nossa uma mina fazendo grafite!” e coisas do tipo, daí já vemos que a representatividade é menor e que é uma “surpresa” uma mulher realizando tal tipo de trabalho. Eu aprecio muitos trabalhos de artistas homens, o que avalio aí é a qualidade, a afinidade, assim como de mulheres. Acho que deve ser um universo misto de ambas as partes, sem estereótipos, mas que ninguém apareça mais do que ninguém, entretanto, infelizmente o trabalho feminino mesmo com tanta qualidade já parece ser menos escolhido nos lugares e mídias mais influentes.

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Me faz feliz o ato de viver e não apenas existir e isso se dá quando me sinto no momento presente e sinto isso ao ser livre para criar, ao ser livre de forma geral, ou aprender o que é ser livre e o que é amar de verdade. Me enche de alegria saber que o trabalho da minha alma dá resultados e me deixa feliz quando as coisas estão amenas e leves. Me sinto feliz de encontro com a natureza e com o mar, e com pessoas que amo. Felicidade é um estado, é certo de que nem sempre ela está aqui, mas há felicidade também na tristeza, na solidão e nas coisas difíceis porque também delas podemos extrair coisas bonitas que gerarão “felicidades”!

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Muitas vezes rola uma insegurança, a gente não acredita no nosso trabalho por diversos motivos mas um dos principais é sermos educadas de uma forma limitante e que não explora a criatividade, não aprendemos a ter autonomia, a sociedade nos cria para fazermos outros tipos de serviços e para não falharmos, então o que eu sugiro é aquele velho, mas real e lindo clichê, siga seu coração. Tudo o que é feito de coração é a sua essência mais pura e verdadeira materializada em alguma obra e simplesmente não tem como dar errado, pois o que é feito com amor é perfeito. Parece óbvio e simples, e é, mas é preciso fazer toda uma adaptação mental para seguir em frente neste caminho.

Arte não é comprimido, não é hospital, não é dinheiro, por que ela não precisa dessa funcionalidade. Justamente por não ter essas “utilidades” parece um sonho distante, porém, é fato que quando feita com gosto, a recompensa sempre virá! E ela já é um processo de cura.

Mesmo que você esteja trabalhando com outras coisas, nunca deixe a arte de lado, uma hora ela vem a tona no tempo certo para que você possa vive-la 100%!

É importante também ter um período para fazer suas criações de preferência sozinha. Ficar mostrando ou pedindo sugestões sempre imprime uma dificuldade a mais no trabalho, pois bem lá no fundo você já sabe o que fazer, tudo está se realizando de dentro pra fora. O desenho/escultura/arte já está lá, basta você começar a procurar e revelar.

Confiar em si mesma pode ser uma tarefa árdua, confusa, por isso continuar e não desistir de sua arte vai te dar o amadurecimento necessário para ir ganhando essa confiança, até que uma hora ela aparece estampada em uma de suas  pinturas/tatuagens/designs/mandalas/ etc etc etc!

Parece uma fala “romantizada”, mas acredito que a arte é uma parte da sua alma que você oferece ao outro e ao mundo, tem o poder de modificar. Simplesmente continue a nadar!

Thaisa Zanardi por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim, na realidade tenho algumas ideias que preciso de um pouquinho mais de tempo para definir e realizar. Estou em um processo de transição para me dedicar somente a arte.

A princípio alguns quadros também ficarão expostos lá no colégio Pena Branca e pretendo futuramente expor mais trabalhos em outras vertentes como feiras, festivais e etc. Também fui chamada para pintar mais algumas paredes e tenho algumas encomendas de quadrinhos para finalizar.

Estou em processo de construir um site pessoal para centralizar os pedidos. Penso em passar os desenhos já criados para outros suportes, como canecas, camisetas, cadernos, papéis diversos... e até mesmo desenvolver desenhos para tatuagens. Mas também quero criar mais deuses e mitologias seguindo a mesma linha de pensamento das criações dos Orixás

Tenho deixado fluir e toda oportunidade que acho que condiz com minhas criações busco mergulhar.

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