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Thaís
Mor
Brasil
vivendo em Belo Horizonte . MG
37 anos . artista . designer

Os traços do meu trabalho formam-se da convergência entre as artes plásticas, presentes na minha vida desde a infância, e o design.

Sou mineira, aos 8 anos de idade comecei a pintar com a minha mãe que ensinava pintura à óleo sobre tela na cidade onde nasci. Cresci dentro do ateliê dela. Aos 11 anos de idade comecei a aprender a pintura em porcelana com outra professora e me rendi às possibilidades da técnica e à concentração e quietude que ela causava em mim. Uma entrega total à reflexão. Formada em Publicidade e Design Gráfico, e pós-graduada em Coolhunting em Barcelona, trabalhei em diversas agências de design em Belo Horizonte e criei meu próprio ateliê em 2014. Hoje, a minha assinatura Thais Mor Atelier Design une o design à exclusividade do trabalho artístico feito à mão, tendo as cerâmicas de alta temperatura e a porcelana como principais suportes para estampar meus traços.

Thaís Mor por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Pintura sobre peças de cerâmicas e porcelanas utilitárias. Acredito que os objetos utilitários se aproximam mais das pessoas, talvez porque o design me faça questionar isso todo o tempo: a função. E unir o design com a arte, que não precisa ter função, exige duas linhas de raciocínio.

Thaís Mor por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha maior inspiração para criar é buscar a valorização das riquezas locais de Minas Gerais e do Brasil. Acredito que os nossos valores e belezas regionais expressem melhor o que é nosso. Me enveredei pela criação de objetos utilitários porque eles levam para o dia-a-dia novas histórias, o que possibilita a disseminação da nossa cultura e da nossa arte.

Thaís Mor por Projeto Curadoria
Thaís Mor por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Transpiração antes de tudo. Trabalho, pesquiso, testo a todo tempo. Observar e aprender é o mais importante no meu processo criativo. Depois de introjetar temas de viagens, conversas e trocas, o processo passa pela desconstrução da estética do óbvio ou pela captura dos clássicos. Começando pelos rabiscos, depois testes de cores e finalmente a produção dos protótipos com testes de acabamentos e queimas das cerâmicas.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu vivo o que eu faço de segunda a domingo. Também valorizo a gastronomia, já que trabalho com peças utilitárias, cozinhar para mim é um gesto de partilha e afeto com as pessoas que amo. Adoro conhecer pessoas que me apresentam uma nova forma de viver e ver a vida. Me incomoda a rotina, embora precise dela. Cinema e dança também fazem parte do meu dia-a-dia, além da música e da literatura. Me estimula descobrir outras culturas.

Thaís Mor por Projeto Curadoria
Thaís Mor por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

A coleção Castelos Imaginários tem um importante significado para mim: além de valorizar a azulejaria da Pampulha abriu muitas portas para o meu trabalho. A coleção Sempre-viva do Cerrado me abriu possibilidades de desenvolver novas formas para explorar a cerâmica no dia-a-dia. E agora me surpreendo com a coleção Soul das Cores que sinto que cada peça “fala” com o público, expressando o conceito de pluralidade, diversidade e valorizando a miscigenação brasileira.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tive duas etapas importantes na minha carreira até agora: a primeira foi decidir montar meu próprio negócio. Deixei de trabalhar em agências de publicidade e design em 2011, depois de 15 anos de experiência. A segunda etapa foi quando decidi unir o design ao que sempre sonhei fazer: cerâmicas, da modelagem à pintura e fui expor meu trabalho em São Paulo. Logo na primeira vez que cheguei na megalópole, várias portas se abriram para mim.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

A arte popular brasileira, grandes pintores, vários designers, arquitetos e pensadores me influenciam. Me encanto pela pintura desde sempre. Alguns nomes: Matisse, Tarsila do Amaral, Leonard Freud, Athos Bulcão, Amadeo Lorenzato, Josephine King, Lina Bo Bardi e tantos outros. Sou mineira, terra de grande expressão artística, a história do ouro e da repressão católica reverbera até hoje e certamente calou em nós.

Uma vez li uma citação de Amilcar de Castro “Para ser original temos que voltar a origem”. Aí percebi o quão importante eram os meus valores locais. Além do Jequitinhonha que sempre me ensinará a ser mais humanizada. Não posso esquecer da azulejaria portuguesa, a riqueza do grupo de teatro Ponto de Partida que me traz novas perspectivas para a arte de se reinventar. Na literatura, Valter Hugo Mãe tem colorido a minha imaginação e descobrir Maura Lopes Cançado foi um soco no estômago. As influências são múltiplas, acho que o meu trabalho mostra isso.

 

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Vivemos numa constante desumanização. É difícil ser mulher, como também é difícil ser criança, homem, negro, idoso, pobre. Não acho que quem ganha é o mais forte. Ganha a delicadeza, o sentido de viver ou pelo menos de dar sentido à vida. Toda mulher sofre algum tipo de preconceito e cabe a nós, em nossas atitudes diárias mudar essa ofensa.

Thaís Mor por Projeto Curadoria
Thaís Mor por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Sentir que as pessoas estão se sensibilizando para o trabalho manual me faz muito feliz! Ver as pessoas conscientes dos processos de um trabalho artesanal e a valorização de um trabalho humanizado e intelectual é uma vitória na América Latina. Mesmo ainda sendo pequeno em relação ao consumismo exacerbado, é um começo. Me sinto feliz dando aula, ensinando e claro, aprendendo!

Thaís Mor por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Ser mulher com a dor e delícia de ser o que é. O mundo de hoje precisa de mais sensibilidade e as mulheres já têm diversas vantagens em colocar isso em prática, tanto pela experiência histórica social da humanidade, quanto pela sua natureza. Precisamos nos capacitar cada dia mais e sempre. Se unirmos competência e inteligência com essa sensibilidade, acredito que poderemos fazer belas interferências para melhorar o mundo e o dia-a-dia das pessoas.

Thaís Mor por Projeto Curadoria
Thaís Mor por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Eu não paro de pensar em novos projetos e de reinventar o meu trabalho. Em breve a loja no meu site estará completa com todas as peças das coleções para enviarmos para todo o Brasil!

Foto do perfil/divulgação e fotos 1 e 2 por Zoe di Cadore, fotos 3 a 6 e 11 por Danilo Koshimizu/Feira Rosenbaum, foto 9 por Isadora Fonseca

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