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Telma
Melo
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
36 anos . artista

Sou filha de pernambucanos que vieram pra São Paulo no fim da década de 70 em busca de trabalho na então efervescente indústria metalúrgica, e isso diz muito sobre quem eu sou e qual o meu lugar no mundo. Era um tempo de mudança política, grana curta, muitas vontades, e cada um se virava como podia. Na minha família as pessoas fazem de tudo, não por gosto, mas por necessidade: do alicerce da casa às roupas para as crianças e mimos para a casa. Assim, cresci entre materiais de construção, agulhas e tecidos, vendo e aprendendo a fazer um pouco de cada coisa. Minha mãe sempre diz que a gente precisa aprender a fazer para “se virar no mundo”. Hoje entendo que isso é autonomia.

Cursei o antigo magistério, me formei em história, fiz uma pós graduação em educação e direitos humanos. Optei por ser professora de educação infantil, mas nunca abandonei o fazer artístico e a exploração de materiais.

E cá estamos.

Divido a vida entre o universo escolar e o universo artístico, onde me perco entre linhas, agulhas, tesouras, papéis, radiografias, palavras, imagens, imperfeições e belezas do corpo e da mente.

Telma Melo por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Agulhas. Linhas. Tesouras. Papéis de todos os tipos. Tecidos. E imagens, claro.

Telma Melo por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Quando eu tinha uns 12 anos caí e bati as costas. Minha mãe me levou ao médico e, após uma radiografia, concluiu que a queda nada causara, mas que eu tinha uma escoliose que precisava ser tratada. Para tanto, sugeriu o uso do Colete Milwaukee, que foi imediatamente comprado e posto em uso. Era o início da adolescência, um turbilhão de mudanças e eu tinha que lidar com um colete que me causava desconforto físico, somado às piadas maldosas dos colegas de escola. Assim, deixei de usar o tal colete, para a ira da minha mãe, que sentenciou que eu nunca mais deveria reclamar de dor já que eu estava abrindo mão de um tratamento muito custoso.

Nunca

Mais

Reclamar

De

Dor

E foi isso o que eu fiz. Fui tolerante com a dor até o limite, sofri em silêncio até onde deu.

Até que não deu mais, e a vida me obrigou a fazer uma pausa, a desacelerar. A minha coluna, problemática desde os meus 12 anos, ganhou seis pinos, duas hastes flexíveis, muitas histórias e imagens.

O que me inspira? A dor e a sua superação. Aquilo que deveria funcionar mas não funciona, pelo menos não da maneira como se espera, como se deseja. A disfuncionalidade das coisas, sejam elas órgãos, corpos, estruturas e ações.

// Como é o seu processo criativo?

Eu coleciono imagens.

Comecei com os meus exames médicos de imagem, como radiografias e tomografias, e hoje ganho de presente esse tipo de material dos amigos. Além disso, frequento os sebos em busca de livros antigos e boas ilustrações.

Passo por um período de encantamento até entender (e resolver) que tipo de intervenção cada imagem merece, qual história deve ser contada.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Aprendi, graças a ação com as crianças pequenas, que precisamos ampliar repertório. Uma criança aprende a desenhar desenhando e vendo outros desenhos, num constante equilíbrio-desequilíbrio-elaboração. Assim somos nós. Dessa maneira, busco ampliar meu repertório visual constantemente, estudando, frequentando exposições, feiras, eventos e dialogando com pessoas próximas.

Telma Melo por Projeto Curadoria
Telma Melo por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto da Tábua. Demais, até.

Trata-se de uma tábua de carne com um coração remendado. Fiz pensando no dia dos namorados porque né, é só um pedaço de carne, às vezes com defeito.

Telma Melo por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Sempre produzi coisas, que ficaram escondidas num canto por vergonha. Sim, vergonha. Porque em algum momento da minha vida alguém disse que o que eu produzia era tolo e frívolo. Tomei aquilo como verdade absoluta e me fechei. Até que meu parceiro insistiu para eu me inscrever na Feira Plana (edição Fim do Mundo, realizada em março/17), fui selecionada e enfim estava lá, lado a lado de gente que sempre admirei. Num dado momento da feira os cartões de contato acabaram, alguns trabalhos também, as pessoas conversavam comigo, elogiavam meu trabalho e aquilo me encheu de felicidade: tinha dado certo, a minha arte fazia sentido pra muita gente.

Telma Melo por Projeto Curadoria
Telma Melo por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tem alguns artistas que admiro profundamente, pelo  trabalho e história de vida. Gosto muito do trabalho do Alex Flemming, as relações corpo-palavra-cidade, da Carmela Gross e seus luminosos, carimbos e instalações, da Leda Catunda e o uso de diversos materiais têxteis, da Claudia Andujar, que é uma fotógrafa incrível e engajada junto aos Yanomamis. Por fim, Rosana Paulino QUE TRABALHO INCRÍVEL, QUE MULHER MARAVILHOSA!

Telma Melo por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim, claro, óbvio! O mundo é organizado pelo homem e para o homem, então todo dia é dia de luta.

Vou contar uma historinha: aos 29 anos o meu problema na coluna se tornou extremo. Entre o diagnóstico e a cirurgia se passaram nove meses de dor intensa, medicação constante e afastamento das atividades cotidianas, do trabalho até a ida ao supermercado: não poderia sofrer nenhum tipo de impacto para não agravar aquela situação.

Pois bem: para passar o tempo, fiz muitas tiaras, broches, enfeites para o cabelo, com feltro, botões e bordados. Montei uma loja online, tinha um blog, era cuidadosa com os textos e fotos. Me esforcei para divulgar entre os desconhecidos, até que um "amigo" descobriu meu blog, a lojinha, e começou a fazer piada com tudo aquilo e compartilhar com outros "amigos", como se a minha ação fosse algo bobo, inútil, pouco engajado e sei lá mais o que.

Na hora me senti desconfortável, fiquei nervosa, ri, senti vergonha, e me fechei novamente para o mundo. Hoje entendo que aquilo foi de uma crueldade sem tamanho, pois estava extremamente fragilizada e tudo o que eu precisava era apoio.

Telma Melo por Projeto Curadoria
Telma Melo por Projeto Curadoria
Telma Melo por Projeto Curadoria
Telma Melo por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Em meio ao caos e as turbulências todas, a Holga me faz feliz. (Holga é uma vira-lata de 20 quilos, 5 anos e zero vergonha na cara)

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Dê menos importancia ao que os homens acham.

Dê mais importancia ao que você quer.

Converse. Muito.

Forme grupos, se fortaleça. Você não está sozinha.

Telma Melo por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho um trabalho novo, que é resultado de uma breve pesquisa em revistas voltadas para o público feminino do fim da década de 60. Selecionei algumas propagandas, fiz colagens, o que se transformou numa publicação e numa série de lambe-lambes intitulado “Julie prefere ser feia”. A meta agora é ampliar esse acervo e espalhar por aí

Telma Melo por Projeto Curadoria
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