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Tatiana
Vieira
Brasil
vivendo em Köln . Alemanha
32 anos . designer . ilustradora . quadrinista

Meu nome é ​Tatiana Vieira​, sou Designer Gráfica, com formação também em Moda, Produção Cultural, Ilustradora, Visual Storyteller e escritora (de bobagens e haicais quando o fenômeno me ocorre).

Não me sinto muito em nenhum desses rótulos, então digo que sou Cientista Náutica, pois pesquisar é preciso. Minha formação e estudos são em áreas aparentemente desconexas, nas quais encontrei meu próprio sentido. Adoro aprender, e cheguei a cursar um ano de Pedagogia e um de História, mas não me vi “salvando o mundo” por esse caminho. Precisei dar mais voltas para perceber que o caminho estava em mim e eu não podia ignorar minha essência.

Trabalho remoto no meu estúdio, o Etérea Design, com projetos para diversos países. Nos últimos anos visitei mais de 20 cidades, morei em três continentes no ano de 2016 e acredito que o mundo é o meu quintal.

Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Predominantemente a escrita, sobre muitos papéis soltos, cadernos e lembretes de celular. Porém, de algum modo, isso tão logo não bastou. Desde pequena eu colecionava pedaços de embalagens de biscoitos que minha mãe não me deixava levar pra escola (por não serem saudáveis e ainda por cima caros), adorava explodir a agenda com colagens, sobreposições, cartas, cartões, adesivos e isso não mudou muito. Em casa, quando criança, me promovi à responsável por enviar cartões de Natal aos familiares todo ano. Fui só conhecendo mais pessoas ao longo do caminho e o que era “meu jeito” tomou outras proporções: virou minha metodologia e é o que/como faço em meu trabalho e vida.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha maior motivação é o meu eu do passado. Eu não tive acesso a livros infantis, em meu primeiro ciclo escolar. Então, como gibis eram mais baratos, compravam-me sempre. Sendo assim, comecei minha atividade como leitora com os ditos paradidáticos do Ensino Médio da minha mãe, como O Palácio de Circe e A Odisseia de Homero, esse último, que li quase uma dezena de vezes.

Talvez isso tudo tenha direcionado minha relação com o mundo com a jornada do herói e vontade de deixar algo que, de algum modo, possa ajudar/incentivar pequenos a serem o que quiserem e a não perderem o brilho, quando se depararem com o “mundo adulto”. A não esperar ter seus heróis com alguma característica física parecida, e se ver na Dori, que é um peixe, por exemplo. Que podemos nos criar, ou ainda, criar nossa própria personagem, nosso mundo, pinçando detalhes do entorno e que nada nos para.

Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Eu anoto tudo. Não importa o que ou pra quê. É como se meu corpo pausasse o mundo. Se não anotar, a vida não segue caminho. Guardo detalhes inúteis para a maioria, mas que são meus pedaços de afeto e colo em meus cadernos - que agora divido por continente. Deixo uma base da ideia pronta e só termino, se sentir que o post é para aquele dia. Como é um diário, às vezes acontece algo muito mais intenso e precisa ser feito de imediato e fura a fila. Ou prefiro agir com sinceridade, quando algo não vem ou estou mais envolvida com a emoção de um lugar, uma foto, um ​highlight​ de livro. Vou catalogando tudo isso em minhas 5 contas de Instagram, de gastronomia, com o que fui aprendendo a cozinhar, com os locais em que pisei, fotografando meus pés, recortes do universo, que fiz pelo caminho e o diário de projetos em design/leituras/processos do meu estúdio.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Não sei bem. Mas, acho que não penso nisso ou faço, vou matando minhas vontades. Se eu fizesse com essa ideia, em função disso, eu travaria. Como quando recebemos uma folha avulsa e rabiscamos sem dó, mas se recebemos o-caderno-mais-lindo-da-terra, simplesmente nosso senso crítico nos sabota e tememos começar, falhar.

Meu afan em entender sobre como as pessoas pensam, como o externo a mim funciona, é o que me move. Então leio muito, observo muito. Ao conhecer pessoas, faço mil perguntas, as deixando tontas, como se eu tivesse acabado de pisar aqui. Sabe como é, eu fiz planos, escolhi esse planeta, mas esqueci do manual e de vez em quando me faz falta, então, preciso de maiores informações de habitantes locais.

Hoje na aula de alemão, com uma professora de filosofia, dei minhas impressões sobre o que penso do que é o trabalho e falamos o que seria felicidade. Em dado ponto ela disse que havia algo de Kant em minha fala, mas eu não saberia localizar do que se tratava, então fui buscar, antes de tudo, sua biografia, pois só tenho leituras de partes de suas obras, todas lidas no meio acadêmico. Pude dar uma sanada temporária sobre ele, encontrar conexões e comecei a dissecar Wittgenstein. Uma coisa leva a outra. Só sei ser assim.

Faço coisas que não tem nada a ver com meu trabalho, aos olhos da maioria, comuns e menores, algo mecânico e vou me perdendo em mim mesma, e tudo acontece. Ou numa saída a pé ou de bike. Uma falha nos planos, que me dá mais ideias ainda. Tudo é motivo. Uns erros de metrô, propositais ou não. Leio e vejo de tudo, anoto, rabisco. Crio cadernos. Agora estou aprimorando um fichário, em que posso anotar tudo que aprendo nas aulas formais da escola e na escola das ruas, dos dias, que me interessam e me iluminam a cada dia com mais ​insights​. Eu não sei fazer uma coisa de cada vez, então, tem sido assim.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Apesar de coisas diferentes, como resultado, vejo tudo como uma só. A ilustração foi uma forma de dialogar com as pessoas, mesmo que elas não me respondam muito sobre o que sinto/posto, mas, quem sabe elas também perceberão algo, além do que vi, ou talvez nunca pensariam no detalhe que comentei, ao menos, não por agora. E passam a ver, através de mim. Assim como na Literatura, só que eu sigo numa linha livre e visual, despretensiosa. Eu só quero transbordar. Quem quiser, segue junto e o mundo é nosso.

Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
Tatiana Vieira por Projeto Curadoria

Meu processo em design segue o mesmo caminho de estudos e observação. Ainda o tornando inteligível, para que seja normal a pesquisa, o pensar no usuário, mas sem sermos robôs, menos mercado, menos belo só pelo visual, digamos. De forma que a empatia esteja ali, compreender o que nos é externo/diferente. Tem muita coisa incrível a se perceber, se realmente estivermos disponíveis para isso, como nas sensações que não sabemos explicar, apenas sentir. E o designer precisa decodificar e materializar, em muitos casos.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tive alguns bem bacanas. Posso citar quando entendi que eu podia aplicar o meu jeito, forma de pensar, para transformar coisas e isso já era o trabalho. Que eu não precisava ser todo mundo, apenas ser eu, da forma que desse, e tudo ficaria bem. Claro que dá mais trabalho, a gente se envolve mais com os detalhes, chora as pitangas, mas, nossa, não tenho como ser feliz nisso de outro modo. Ou ainda, posso trabalhar com qualquer coisa em cada lugar que eu pisar, que não seja o design ou a ilustração e isso somar ao que eu faço, ou mais, do que se eu só fizesse ou fizer design. Posso estudar metafísica e isso coincidir com um detalhe de projeto que eu nem esperava. Estava estudando mecânica quântica e surgiu um projeto de identidade visual para um logo de mapeamento de terrenos, inicialmente agrícolas, via drones. Sinto-me uma biblioteca simples, cheia de bons encontros. Digo que o que eu menos sei é o que eu mais faço. A maioria das coisas eu preciso buscar. É muito bom não ter as respostas.

Eu seguia anotando um monte de coisas, desde que me entendo por gente. Parecia ser tudo bobagem e na realidade era um descortinar de método que eu estava criando e hoje sou bem feliz por não ter deixado isso se apagar.

Pessoas com alguma sensibilidade e indefinição de caminhos, acrescida de curiosidade sobre tudo fica muito perdida. Oscilação entre ser muito e ser pouco, se comparar, mas, tudo avaliação externa, quando somos todos únicos, cada um com suas “maravilhices”. Felizmente chega uma hora em que não pensamos em mais nada além de que a vinda ao planeta tem que ser leve, ser livre. Meu agradecimento imenso aos meus professores. Pode parecer doido, mas, me revejo em certos dias nas salas de aula e sei dizer, exatamente, em qual detalhe muitos deles me fizeram o que sou. Como quando dei de cara com minha professora de Filosofia e Sociologia do Ensino Médio e ela era incrível. Sabe quando encontramos alguém como nós, que vai entender o que você diz, dar várias cópias de diversos autores para ler e você não desejar que esse tempo acabe. Era ali que você queria ir. Ou a de História da Arte que me mostrou que a arte era dura, mas tão possível. A de Geografia, que pediu para que eu nunca parasse de escrever. Isso me encorajou muito a fazer as redações do Enem, em que tirei nota máxima nas duas vezes em que fiz o exame.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tive insight uma vez com um quadro do Miró + os cartazes de Mucha e deles surgiram minhas Etéreas, meu primeiro conceito de personagem, a partir do nome do meu estúdio de design. De uma coisa que vejo, surge outra e o resultado muitas vezes nem tangencia a origem. São umas contas que fecham em nós, internamente, e tudo parece simples. Acontece.

Tenho muita inspiração no que é relativo ao céu e fundo do mar. Então faço ilustrações desse não-mundo.

Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
Tatiana Vieira por Projeto Curadoria

Não sigo nomes, autores, tenho fases. Teimo com um e leio quase todos, no meio deles, citam mais cinco, busco mais, quando vejo, mais 20 pessoas estão na minha lista. Adoro saber sobre pessoas, então leio muito sobre como foi o caminho delas. O resultado é outra coisa. Se o livro ou filme é bom. Eu gosto é de ler gente. Saber. Aí vejo, leio e faço minhas considerações de todo tipo, mas, gosto de checar. Da última leva, li Mia Couto, Manoel de Barros, Kerouac, Lya Luft, Aldoux Huxley, Alain de Botton, Neil Gaiman, Jack London, José Mauro de Vasconcelos, Yeonmi Park, Carl Honore, Byung Chul Han, entre tantos de uma fila que não para de crescer, diariamente. A tecnologia me ajuda muito, podendo ler com o celular, de onde eu estiver.

Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sempre senti, mas na questão financeiro-espacial também, por ter sobrenome comum, morar “longe-pra-caramba”, como carinhosamente ou não, citam Jacarepaguá, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ou que não podemos dizer exatamente o que pensamos, porque, “nossa, o que poderiam pensar de nós”? Que deveríamos ser duas pessoas, uma no pessoal, e outra no profissional, coisa que eu nunca soube ser.

Sempre me envolvo com o que faço, é parte de mim e como eu gostaria de ver funcionando, dando certo. Mas, como minha formação é bem “plural” (mesmo que eu não concorde com o rótulo, ouço muito: “mas, afinal, o que você quer fazer?”), ser Produtora Cultural mulher, é nada simples, Editora de Vídeo, em um mercado em que normalmente as pessoas trabalham de madrugada, não contratam mulheres com facilidade.

Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
Tatiana Vieira por Projeto Curadoria

Mas, talvez seja algo silencioso mesmo, e que buscamos desculpas pelas escolhas que fazemos, quando, em qualquer outra profissão, sofreríamos algo.

No Design, já trabalhei em um escritório em que havia uma pseudo igualdade. Sentia que o lado de organizar os materiais em tempo de poucas tarefas, sempre seria meu ou que havia liberdade para jogos, mas “toda mulher que trabalhou aqui antes, não curtia jogar, então...”. Existem umas pontas ainda, de que somos melhores em algumas coisas, mas elas comumente envolvem a ideia de mockup melhor acabado, coisas mais organizadas, “vocês são naturalmente mais delicadas e empenhadas” e ficamos com um papel maternal, sei lá, mesmo no meio profissional.

Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Fazer coisas iguais todo dia por escolha, não obrigação e isso se transformar continuamente em algo novo. Eu transformo meu tempo, o otimizo, o reinvento.

O fuso me ajuda nesse processo. É como se eu estivesse em outro lugar do planeta, ou ainda, o observando de fora. Poder pesquisar, aprender, seja formalmente ou em breves conversas. Brinco de olhar pros lados, forçando aumentar a alteridade e digo: “caramba, eu estou aqui! Eu ouço e entendo o que vocês me dizem!”. A maior bobagem do mundo, mas, cheguei na Alemanha com zero de alemão (cega, surda e muda, como costumo dizer), e agora as coisas parecem cada vez mais mágicas. Isso é o que me move. Não importa no que eu esteja trabalhando, sempre tenho insights e oportunidade de rever ou encontrar algo novo. Isso é maravilhoso.

Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Para que não se preocupem com a técnica, o resultado, com o que lhe é externo. Ninguém está pronto. Ainda bem. Ou não teríamos motivos para acordar todos os dias. Apenas comece hoje mesmo. Não pense em likes, que isso não significa nada sobre quem se é. Apenas divirta-se consigo mesmo e fim. Que o resto se conecta sozinho. Nunca se julgue incapaz ou que é tarde demais. O tempo, a gente inventa. Trabalhe com algo que te dê “o de viver”, para que você tão logo possa se “dar vida”. Todo dia fica tarde e volta a ser manhã de novo, não é mesmo? Se joga! O não é o mesmo que não tentar, dá em nada então, tentar só pode lhe permitir visitar a “terra do sim”.

Tatiana Vieira por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Um novo e um velho sempre. Vejo meu trabalho no design como um processo investigativo para encontrar possíveis detalhes não percebidos e promover soluções mais afetivas, humanas. Investigar sobre as pessoas, como elas pensam. Desse afan em contar, estou a escrever meu “TCC da Vida”, como divertidamente gosto de chamar, mas, que de fato, faz bastante sentido a tudo que coleciono e, talvez se enquadre em algo acadêmico em breve. É um compilado de anotações do que vi, senti e li nos últimos anos. Minha autobiografia, de desde antes do meu nascimento, porque, antes de escolher esse planeta para morar, eu já tinha planos. Só perdi meu manual pelo caminho e por isso me sinto sempre em fase de adaptação. Nesse projeto conto a todos, mesmo que seja lido quando eu não esteja mais aqui. Ainda não decidi quando isso se dará e de que forma, mas está em construção para que meus netos acessem depois. Sobre netos, leia-se, toda pessoa que puder aprender algo através de minhas anotações.

Gostaria de que eles soubessem quem eu fui, e isso longe do sentido de grandiosidade, mas, porque eu queria ter conhecido meus avós todos, os pais deles e antes deles, e.... Porque sou parte de todos os que vieram antes. Pra ele se sentir parte disso e ir muito mais longe. E rir junto, porque grande parte são minhas grandiosas bobagens, “viagens” internas.

Os demais projetos são mais focados em escritos, que darão mais forma ao meu processo em design etnográfico-espacial, repensando nossa relação com tudo que nos cerca.

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