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Talitha
Rossi
Brasil
vivendo em Rio de Janeiro . RJ
30 anos . artista

Desde pequena criava as minhas próprias brincadeiras, roupas, cadernos e objetos. Transformava as minhas bonecas...

Sou estilista por formação. Durante a faculdade de moda, os meus trabalhos não eram apenas roupas, eu já criava esculturas e instalações que dialogavam com corpo nu e o corpo vestido. Nesta época, criei uma personagem para os meus croquis, uma boneca nua e sem olhos, com traços de mangá. No dia da minha formatura fiz uma performance me vestindo dela. Este foi o início de tudo...

Trabalhei 8 anos para grandes marcas de moda no Brasil, como estilista e gerente de marketing. Na hora do meu almoço, eu saia anônima para fazer intervenções urbanas com a minha boneca de 1,80cm pelas ruas.

Uma nova fase se iniciou quando fui convidada para ser gerente de marketing em uma galeria de arte contemporânea, a Galeria Inox. Mesmo não sabendo nada sobre arte, decidi dar um tempo da moda, aceitar o emprego novo e reescrever a minha própria história. Trabalhei por 3 anos nesta galeria, e foi nesse período em que me entendi artista e percebi que precisava finalizar um ciclo para recomeçar. Me separei do meu ex-marido, pedi demissão da galeria, e montei o meu ateliê.

Talitha Rossi por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

A força antes da forma é a minha maior ferramenta.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha maior motivação para criar é o não ter que.

Não ter que...criar.

Não ter que...pensar.

Não ter que... sentir.

Estar livre comigo mesma, administrar o meu próprio tempo e todos os instantes que vem junto com ele.

Ter tempo com o meu próprio tempo, sem pressa é o que me inspira.

Talitha Rossi por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

É um círculo vicioso e dolorido da ausência. Uma coleção de desejos pela falta. Uma eterna busca por preencher um desejo que eu sei que jamais vai ser preenchido, como um buraco mal tapado. Quando eu crio, eu tapo e tapeio algum buraco. Isso dá um alívio, traz uma leveza momentânea. Gosto de ser experimentalmente plural. De não ter rótulos artísticos sem precisar me preocupar com técnicas.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Não me preocupo com a minha criatividade. Mas tento organizar a bagunça dos meus afetos e desafetos de vez em quando. Tipo arrumar gaveta, sabe? Estou sempre estudando, pesquisando, fazendo cursos e imersão em ateliês de outros artistas...

Talitha Rossi por Projeto Curadoria
Talitha Rossi por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Meu trabalho é uma coletiva de mim mesma. Não separo a minha vida da criação. Ele funciona sem parar, às vezes, descontinuamente. Ele se atualiza conforme eu fabrico meu tempo. Nunca tive um trabalho ou projeto preferido. Mas com certeza, a minha temática preferida é sobre relacionamentos. Adoro conversar sobre isso com outras mulheres, saber o que pensam, até onde vão...

Minha poética também diz muito sobre o amor e a natureza.

Talitha Rossi por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Precisei de muita coragem para deixar para trás certas cascas grudadas que de certa forma me davam segurança, como a minha carreira bem-sucedida no mundo da moda, e um casamento. Estar atenta à secura das cascas é fundamental. Estar atenta aos seus ciclos, aos sinais do seu corpo e ao silêncio entre os sons é o pulo da gata. Descascar cicatriza muita coisa, né?

Comecei fazendo arte de rua, rabiscando uma boneca fetichista nos muros das cidades. O tempo passou, amadureci e essa mesma boneca precisou me acompanhar. E por isso, resolvi dar corpo e vida à ela.

Hoje, viajo o mundo me vestindo desta boneca despida e faço performances pelas ruas.

Gosto do ato real sem muita programação. Da ação que não é um espetáculo, não há representação nem exibicionismo. Na rua não tem telespectadores, e sim testemunhas, que fazem parte do ato.

Uma boneca sem olhos que criei para mim mesma, que representa uma crítica à minha geração imediatista, narcisista que sofre de miopia contemporânea: a cegueira de não olhar o próximo, de não enxergar a natureza implorando socorro, de não querer ver o nosso planeta morrendo e de desviar o olhar do amor e afeto para o ego.

Estar na rua foi e é decisivo. É o mesmo que estar exposta, um paralelo sobre ser uma mulher livre.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

São muitos! Reais e imaginários. Me encanto pelas yabas, Eva Hesse, Yayoi Kusama, Simone de Beauvoir, Louise Bourgeois, Antonin Artaud, Bispo do Rosário, entre muitos outros (as). Mas o artista que mora no meu coração é o Tunga!

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existe bastante, mas juntas estamos atravessando um importante período em meio à tantas ressignificações de valores humanos. Existe hoje, um movimento de compreensão feminina que está crescendo rapidamente entre as novas gerações nas redes virtuais. Acredito e sinto ser um novo tempo de cura pelo feminino. Essa missão é para quem é fêmea porque o feminino cura e gera nova vida. Nós mulheres, somos mães, e juntas podemos e devemos cuidar do nosso planeta. Da nossa Terra. Do nosso Tempo. Para juntas, nutrirmos e gerarmos mais amor. É dever de filha. E somos filhas da grande Mãe. Temos muito para parir...

Talitha Rossi por Projeto Curadoria
Talitha Rossi por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Meus cachorros!

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Experimente! Experimente de novo, e de novo, e de novo...

Talitha Rossi por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Participo até Novembro de 2017 da coletiva “Natureza Concreta" na Caixa Cultural – RJ, com a foto-instalação “A Curadora”, em parceria com a fotógrafa Ana Quintella. Um trabalho muito especial que surgiu de uma pesquisa sobre o resgate de saberes ancestrais femininos. Nós mulheres sabemos que temos o poder da vida, vínculo direto com o divino. E que neste momento, juntas, estamos em processo de despertar. Acreditamos que as práticas ritualísticas estão “repaginadas" por jovens mulheres unidas em rede. Uma ajuda a outra, uma grita pela outra, uma honra pela outra. Acreditamos na aproximação de valores mais humanos, seja pessoalmente, seja virtualmente. Não existe distinção entre benzedeiras, parteiras, médicas, donas de casa, artistas. Somos todas uma única força. Especialmente no Brasil, absorvemos a riqueza de nossa identidade cultural e sincretismo.

Participo também da Feira Parte, em São Paulo, com trabalhos inéditos da série “La femme et l'aiguille" que estarão disponíveis para a venda pela Janaína Torres Galeria.

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