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Roberta
Laas
Estônia
vivendo em Santos . SP . Brasil
30 anos . ilustradora

Meu nome é Roberta Laas, sou artista e ilustradora de um pequeno país nórdico europeu chamado Estônia. Eu cresci em uma família de músicos, então eu sempre tive muito incentivo para criar na minha casa. A maior parte da Estônia é formada por florestas, ilhas e praias, então esse é o cenário, e também o silêncio e o curto verão ameno definitivamente tem uma forte marca no meu trabalho. Nós procuramos pela luz do sol, porque temos muito pouca, e para mim, arte é uma outra forma de alimentar minha alma nos longos e escuros invernos.

Roberta Laas por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Tudo que faço começo com uma caneta e na maioria das vezes sigo com cores apagadas e texturas no Photoshop e Illustrator. Minha coisa favorita é traçar lentamente, linhas significativas com nanquim e caneta em papéis reciclados. Eu acredito que existe mais alma na maneira antiga, em coisas feitas a mão.

Roberta Laas por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Estampas nórdicas, natureza e design escandinavo. Estando nos trópicos, longe do norte europeu, tem realmente reforçado o meu amor pelas minhas raízes.

Além disso, a maior parte do que faço é impulsionado pela música. Eu tenho sinestesia, o que faz com que eu veja cores na música, letras e números, então eu sinto que todas as formas de arte são apenas diferentes maneiras de expressar exatamente a mesma coisa.

É como um processo de tradução, quando eu ouço música que me inspira e coloco no papel em forma de estampas ou cores. É a energia tendo diferentes formas, e pode ser muito poderoso para se sentir conectado a criadores de todo o mundo nesse sentido. É como este mundo tácito que só pode ser sentido quando conseguimos desligar o hemisfério esquerdo do nosso cérebro por um momento.

Roberta Laas por Projeto Curadoria
Roberta Laas por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Normalmente eu crio a noite, porque durante o dia os sentidos estão sobrecarregados com muita informação, barulho, luz e outras distrações. Eu sempre procuro estampas folclóricas para trabalhos comissionados, que é uma maneira de esconder pequenas mensagens na arte aparentemente ingênua.

Além disso, eu não faço muitos planos e apenas deixo as coisas fluírem. Eu descobri que raramente me lembro do processo criativo, é como um tipo de transe e eu sempre me surpreendo quando acordo na manhã seguinte e vejo o que criei na noite anterior. É como um tipo de café da manhã visual e sempre me dá muito prazer.

Roberta Laas por Projeto Curadoria
Roberta Laas por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu procuro novas músicas, leio novos livros e tiro um tempo para ficar sozinha e recarregar minha bateria. Eu também me mantenho atualizada sobre design escandinavo. E como quantidades infinitas de chocolate, o que faz eu ver as cores melhor!!

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Eu estou trabalhando em alguns pequenos projetos como livros, postais e outros tipos de divulgação com algumas pessoas criativas incríveis dessa pequena ilha da Estônia de onde minha família tem origem. E isso é maravilhoso. É uma grande missão para mim, apenas criando arte estou dando algo de volta ao lugar que é tão querido no meu coração e isso me faz sentir duplamente bem. É um círculo completo, porque eu comecei naquela ilha e minha essência criativa também tem sua raiz em todos aqueles verões que passei na ilha.

Roberta Laas por Projeto Curadoria
Roberta Laas por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Eu crio arte desde que me lembro, mas também sempre tive interesse em música, literatura, idiomas, antropologia, religião, culturas e uma enorme quantidade de outras disciplinas. Eu acho que o momento que eu me dediquei inteiramente à arte foi quando me mudei para o Brasil. O contraste era simplesmente muito grande. Estar longe do meu país, da cultura e natureza nórdica, me fez sentir mais conectada com isso e me deu a necessidade de criar. Esse foi o meio de me expressar quando não conseguia fazer isso com palavras ou de repente não me enquadrava em lugar nenhum. Eu acho que “saudade” como vocês dizem no Brasil, é um enorme motor de criatividade. Sentimentos fortes como anseio, tristeza e saudade de casa precisam sair de alguma forma, algumas pessoas começam a escrever em diários ou livros e outras colocam esses sentimentos em cores. Isso nos ajuda a nos sentirmos melhores.

Outra grande razão pela qual o Brasil mudou minha trajetória nesse sentido, foi a liberdade criativa que senti em um país que é tão grande que faz as pessoas serem absolutamente anônimas. Em um pequeno país como a Estônia, pode ser difícil “sair do armário” com o seu trabalho, porque você está sempre exposto e o público tem padrões muito altos. Então você não pode falhar muitas vezes pois você está no foco a partir do primeiro dia.

Roberta Laas por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Hollie Chastain, Andrew Bannecker, Patricia Urquiola e todos os designers da Marimekko, para nomear alguns. Eu bebo muito da fonte das traduções minimalistas de natureza do trabalho de Lotta Jansdotter e as estampas da Marimekko. Hollie Chastain é uma incrível artista de colagens que trabalha com papel reciclado e recortes de fotografias, seu trabalho é um deleite visual. Eu também sou absolutamente apaixonada por textura de papéis antigos escaneadas, elas adicionam tanta profundidade e significado nas criações.

Andrew Bannecker foi o primeiro artista que eu realmente me senti inspirada. Quando eu era mais nova, eu troquei muito de profissões porque tem muita coisa no mundo cultural que me inspira! Até que um dia eu entendi que a arte sempre foi uma grande parte de quem eu sou e foi um marco quando fiz uma tatuagem de um trabalho do Bennecker no meu braço. Esse é um lembrete para eu nunca me esquecer quem eu sou.

Roberta Laas por Projeto Curadoria
Roberta Laas por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Eu venho de um mundo sem supressão das mulheres na arte. Além disso, eu nunca tive que seguir as regras de outra pessoa. Então não, eu não sinto que existe isso, eu acredito que o mundo da arte talvez seja um dos lugares que a mulher está assumindo livremente hoje em dia.

// E o que te faz feliz?

Cores se juntando de uma forma satisfatória. Boa luz. Música. A profundidade do sentimento. Estar apaixonada.

Roberta Laas por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Nunca pense em si mesma como uma mulher. Não identifique. Apenas crie. Não tem nada te impedindo se você aprender a deixar o ego de lado! Eu acho que nossas “personas” não tem nada a ver com toda origem da arte. Para mim, arte é a canalização de alguma coisa maior e um tanto da essência do mundo, então o tamanho disso nem se compara com nossas pequenas mentes pessoais, onde temos sido forçadas a nos comprimir em algum tipo de identidade socialmente aceita.

Se falarmos do contexto da mulher no Brasil, onde talvez ainda haja muita supressão e expectativas em função do sexo, então isso também vem diretamente para a autoimagem. A imagem da mulher como alguém responsável pela casa, sua beleza, a criatura perfeitamente feminina ainda lutando pela liberdade – se as próprias mulheres pararem de acreditar nesse mito, elas verão que na realidade não existe muita diferença de gênero, raça ou qualquer coisa que sintam que está impedindo-as de criar. Você tem apenas que colocar o seu pé no chão.

Roberta Laas por Projeto Curadoria
Roberta Laas por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Eu acabei de terminar esse enorme projeto para uma exposição chamado “100 Dias de Jazz”, em que criei 100 retratos de músicos do jazz ao longo do tempo para prestar uma homenagem ao meu pai, que faleceu alguns anos atrás. Ele era um músico do jazz. Então, após um ano trabalhando nisso, estou tirando um momento para respirar um pouco e deixar tudo que aprendi durante o processo se assentar. Esse foi um trabalho real, realista e não teve nada a ver com meu próprio estilo, mas eu sinto que foi necessário para treinar minha mão para dominar o realismo e depois carregar para o meu trabalho minimalista. E sinto que tive sucesso. A exibição foi no maior festival de jazz dos Bálticos, e me senti muito bem. A seguir na fila, eu tenho alguns projetos de livros para Estônia e Brasil e uma grande quantidade de outros pequenos trabalhos.

Roberta Laas por Projeto Curadoria
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