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Renata
Malachias
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
40 anos . arquiteta . artista . bordadeira

Eu nasci em Belo Horizonte - MG, e faço trabalhos manuais desde bem pequena. Aprendi todas as técnicas a que tive acesso: desenho, pintura, tricô, um pouco de costura… Na faculdade, aprendi a fazer maquetes e também cozinho. Na infância, era famosa a reclamação da minha irmã mais nova de que eu gostava mais de fazer a casinha da boneca do que brincar de casinha. Uma das brincadeiras nessa época era confeccionar e vender colares de miçangas e laços de cabelo de tecido. Enfim, experimentei tudo o que foi possível.

Estudei arquitetura, me formei muito novinha, fiz mestrado e comecei a lecionar, mesmo trabalhando, em paralelo, com projetos de arquitetura. Sempre mantive meu lado ligado às artes e trabalhos manuais, quase que como um hobby, pois adorava fazer presentes diferentes e os embalar de forma super especial e carinhosa, buscando algo que traduzisse a personalidade do presenteado.

Toda essa trajetória me fez muito atenta às proporções, formas e cores. Meu envolvimento com trabalhos manuais e o gosto por presentear com exclusividade me levaram a criar o Manitu Estúdio em 2015. Hoje faço bordados contemporâneos variados, alguns trabalhos que incluem papel/papelão, customizo objetos e bonequinhos de madeira. Cada vez mais, tenho produzido e participado de oficinas, onde compartilho o aprendizado de trabalhos manuais e tento dividir com as pessoas os benefícios de se dedicar a esse tipo de atividade.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Utilizo principalmente o bordado e a pintura em bonequinhos, que são os que eu compartilho mais com o mundo, mas eu também desenho, escrevo, cozinho... Acredito que a ferramenta ou o suporte variam com o tempo, por isso não me fixo às ferramentas. Uso o que está disponível no momento, ou o que mais me atrai em uma determinada situação... O mais importante para mim é contar histórias sobre as pessoas. Estou sempre contando histórias, seja de uma família, de um momento importante, de um personagem...

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// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A necessidade é minha maior motivação para criar. Tenho um mundo interno muito “movimentado”, então preciso deixar fluir essa energia e compartilhar com outras pessoas. Crio para dar vazão a um movimento interno muito intenso.

Qualquer coisa pode me inspirar. Procuro me manter atenta, focada no presente e mergulhar fundo quando estou fazendo um trabalho sobre alguma pessoa. A singularidade me inspira. Muitas coisas me inspiram, mas adoro as pessoas. Todo ser humano é único e muito interessante. Acho incrível poder ter acesso a essa singularidade.

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// Como é o seu processo criativo?

Quando vou começar um trabalho específico, preciso de um tempo de imersão no tema: pesquiso e reflito sobre o assunto ou o personagem, procuro saber muito e ver através dos olhos dele. Depois preciso de um tempo disponível para essas informações se assentarem e as ideias aparecerem. Nesse momento, desenho muito, faço testes, até que surge um caminho. E é assim mesmo! A impressão que tenho é que o caminho se abre e, em algum momento, eu deixo de ter dúvidas e passo a seguir por ele.

Ao mesmo tempo, faço muitos testes com materiais. Algumas vezes compro materiais que me parecem interessantes sem saber bem em que vou usar e só depois faço testes e descubro o que ele “pede para ser”.

Acho que nessas duas formas de criar, passo por uma fase de alimentação, uma fase de descanso, e uma de síntese. E, claro, para conduzir todo esse processo, é imprescindível estar muito bem embasada: procuro ler, estudar, ir a exposições, shows... Exercitar o olhar é fundamental.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu trabalho para me manter criativa. Crio. Acredito que todas as pessoas são criativas; essa é uma capacidade intrínseca ao ser humano. Acontece que algumas usam mais do que as outras e aquelas que deixam a criatividade de lado acabam sem saber como usá-la.

Esta é, inclusive, uma das principais razões pelas quais me encanto ao compartilhar processos criativos nas oficinas: eu procuro relembrar às pessoas toda a liberdade criativa que elas já têm, mas está esquecida, adormecida. Tenho a esperança de abrir uma “janela” em que as pessoas possam vislumbrar toda a criatividade que está dentro delas e poder dar vazão a isso. Porque a criatividade não se gasta: quanto mais a gente cria, mais criativo fica.

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// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto muito da série de fotografias bordadas de mulheres que tiveram uma trajetória relevante. Esses trabalhos são, de alguma maneira, um presente para minha filha, para dar a ela exemplos, referências, e mostrar quem são as mulheres que foram protagonistas de suas vidas. Adoro bordar momentos especiais, sob encomenda para meus clientes., gosto de saber de suas vidas e colocar afeto e história nas fotos. Pela mesma razão, amo representar famílias em pegdolls: recriar detalhes, particularidades, preferências...

No ano passado, participei de um desafio que chamava 30 idéias em 30 dias (#30ideias30dias) e fiz 30 bordados em 30 dias, usando suportes que não fossem tecidos (veja detalhes no meu blog). Foi incrível e divertidíssimo exercitar a minha capacidade de olhar para objetos aparentemente cotidianos e ver um bordado neles. Alguns resultados ficaram realmente muito interessantes.

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// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Há 11 anos, me mudei de Belo Horizonte para São Paulo e há 6 anos nasceu minha filha. Nesse momento, aconteceram duas coisas que foram fundamentais para o início do Manitu: eu comecei a querer uma rotina um pouco mais livre, para acompanhar de perto o crescimento e desenvolvimento da Sofia; e, por consequência, também comecei a fazer mais trabalhos manuais para as festinhas dela, presentes para os coleguinhas e professores. Foi quando percebi que essa atividade, que era muito natural para mim, despertava a atenção e o interesse de outras pessoas.

A partir daí, informalmente, comecei a receber encomendas de amigos, que foram aumentando aos poucos até que em 2015 decidi encerrar definitivamente o trabalho com o escritório de arquitetura e assumir o Manitu como meu projeto profissional mais importante. E olha que eu não era infeliz trabalhando com arquitetura, mas já havia um movimento “de alma” que pedia essa mudança.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Sou influenciada por tanta coisa... Trago muitas referências da arquitetura, que é minha formação original: a Bauhaus, o trabalho da Lina Bo Bardi no Brasil, Gaudi, a obra do Tadao Ando, o design escandinavo. Gosto muito de arte, amo as obras do Calder e seu movimento, sua disponibilidade para se modificarem a cada ângulo ou a cada movimento do ar. Adoro Picasso e amo a obra do Leonilson (artista brasileiro que trabalhou muito com bordado). Adoro arte contemporânea e o Inhotim é como se fosse um parque de diversões para mim!!! Ainda gosto de cinema, de poesia, de MPB. De Minas, trago o amor pelos trabalhos manuais, bordado, costura, tricô e também por cozinhar. Adoro saber sobre pessoas e conhecer histórias novas: no momento, estou apaixonada pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Por aqui, ela já virou uma pegdoll e, em breve, deve inspirar um bordado.

O que consigo observar dessa mistura no meu trabalho é uma afetividade que vem dos trabalhos manuais aprendidos em Minas, na infância, junto com uma certa “racionalidade” e “contenção” no traço, que provavelmente vêm da arquitetura e a interpretação poética dos temas, trazida do gosto pelas artes em geral.

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// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Acredito que vivemos em um país com uma cultura muito machista. Ponto. Tudo o que fazemos tem que considerar esse fato como pano de fundo, não dá para ignorar que socialmente existe uma distância enorme entre ser homem e ser mulher. E esse machismo oprime tanto homens quanto mulheres. É só reparar que vários homens são totalmente podados em sua sensibilidade. Temos que lutar por direitos que deveriam estar garantidos a nós, como estão garantidos aos homens: ser respeitadas no trabalho, nos sentirmos seguras, sermos ouvidas sem piadas ou preconceitos... Então acho que existe, sim, muito preconceito contra a mulher se expressar livremente. No meu trabalho, procuro dar voz e protagonismo às mulheres. Mas, como trabalho com ferramentas que são “femininas”, como o bordado por exemplo, sinto às vezes um certo desdém – de homens e mulheres machistas, diga-se de passagem. Nas oficinas, também, isso fica evidente: quase nunca temos homens presentes (mas olha que, quando eles aparecem, adoram!).

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// E o que te faz feliz?

Sou feliz por estar viva, então muitas coisas me fazem feliz: o cheirinho da minha filha de manhã, longos cafés da manhã com meu marido, estar com a família e com amigos queridos, brincar com minha cachorra, ouvir música... Quando estou no carro num dia bonito e toca no rádio uma música que eu gosto, penso que é um presente pra mim! Aliás, adoro receber presentes com cartão. Pode ser até uma bala, se vier acompanhada de um cartão, me deixa muito feliz!

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// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Criem! Seja pintando, desenhando, escrevendo, cozinhando, esculpindo, tocando algum instrumento... Olhem para dentro e expressem o que vocês vêem, sem se colocar limites. Comecem logo, sem medo. Não ouçam o julgamento de ninguém, muito menos os internos, que são os piores. Criem, criem, criem. Isso alimenta a alma, nos fortalece e nos deixa cada vez mais felizes.

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// Você tem algum novo projeto em andamento?

Vou completar a série de bordados sobre figuras femininas significativas, com novas personagens agora (já fiz a Frida, a Carmen Miranda e a Amelia Eahart). Estou querendo ampliar a escala de trabalho, transitar também na escala “grandona”. Me encantei com o ponto cruz e estou lançando um conjunto em que faço uma releitura de motivos tradicionais de ponto cruz, adotando uma estética mais geométrica e contemporânea que gostei demais.

E, além disso, continuo investindo muito nas oficinas, para compartilhar conhecimento, estar em contato com outras pessoas, abrir as tais “janelas”para criatividade... Tudo isso me deixa muito feliz!

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