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Renata
Dania
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
30 anos . ilustradora . bordadeira

Nasci em Joinville, Santa Catarina. Mas ao longo dos meus 30 anos já morei em 13 cidades, em 5 estados diferentes do Brasil. Todas essas mudanças me trouxeram um repertório cultural que nem eu me dava conta até pouco tempo atrás.

Sou ambidestra e, muitas vezes, não sei com que lado do corpo devo executar alguma ação – seja com que mão segurar o garfo ou de que lado seria mais fácil aprender violão. Sou formada em Design de Moda pela Universidade Estadual de Londrina e trabalhei 8 anos no mercado de lingerie nas áreas de criação, modelagem e marketing.

Com uma avó costureira, cresci brincando no armário de aviamentos, entre botões e tecidos. Já com a vó materna, pude aprender sobre o fazer manual e seu poder de subsistência, através de seus relatos dos tempos de fome, em que pintava rostos de bonecas e crochetava panos de prato para vender. Foi com essa avó que aprendi meus primeiros pontos, mas foi no Clube do Bordado, empresa que mantenho hoje com mais 5 sócias, que o bordado se tornou uma das minhas principais técnicas de expressão e trabalho.

Renata Dania por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Nanquim, processos digitais, linha e agulha de todos os tipos e tamanhos. O papel vegetal é meu melhor amigo e prefiro fazer meus rascunhos e experimentos de diagramação todos à mão, com lápis, borracha e sobreposição de papéis e recortes – como nos velhos tempos do design.

Renata Dania por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Me sinto muito inspirada por minhas memórias – visuais e olfativas, principalmente. Quando tenho que criar algo, fico com essa gavetinha aberta na minha cabeça e muito do que me acontece nos dias seguintes interfere nesse processo – seja um filme que assisti, uma música, os aromas de um lugar que visitei ou as cores da roupa de alguém que passou por mim na rua. Vejo no meu trabalho uma oportunidade para expressar minha opinião política e social através das ilustrações, bordados e cursos que ministro pelo Clube.

Renata Dania por Projeto Curadoria
Renata Dania por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Trabalho muito com rascunhos mentais e acho que a maior parte do meu processo criativo acontece dentro da minha cabeça. Por isso, o ato da execução da ilustração acaba sendo um processo rápido. Porque, na verdade, já teve todo um longo processo gestacional dentro de mim antes que a ideia se tornasse tátil.

Como gosto muito de música, sempre estou acompanhada de algum som que me comove enquanto desenho ou bordo. Ultimamente, os sons instrumentais tem dominado minhas playlists.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Acho que a busca por informação. Sempre fui muito curiosa, por isso sempre estou procurando uma banda nova para ouvir ou o álbum novo de um artista que acompanho. Também gosto de aproveitar o momento do bordar para assistir vídeos, documentários ou ouvir podcasts. Nesses momentos cresce em mim um sentimento de polivalência e isso me agrada bastante.

Ah! Cozinhar também me inspira muito. Gosto de cozinhar para muita ou pouca gente. Sempre invento as receitas na hora e dificilmente consigo reproduzi-las com o mesmo sabor, o que faz delas experiências únicas. Esse processo de abrir a geladeira e criar algo com o que tenho disponível estimula muito a minha criatividade.

Renata Dania por Projeto Curadoria
Renata Dania por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

A coleção que criamos em parceria com a Gioconda Clothing foi muito importante para mim, pessoal e profissionalmente. Além de ter gostado muito do resultado do bordado que fiz para a coleção, posar para as fotos foi uma experiência muito engrandecedora no meu processo de autoaceitação e no meu posicionamento perante a sociedade como mulher gorda e fora dos padrões esperados pelo senso comum.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Entrei no mercado de trabalho no segundo ano da faculdade. Desde então ganhei um carimbo na carteira de trabalho com o qual fui romper somente 8 anos depois, sem parar muito para refletir no meio desse caminho. Em 2013 eu já estava bem saturada do mercado da moda como um todo: a criação desenfreada de produtos, os grandes números de reprodução mensal e a estrutura hierárquica de uma empresa tradicional. O grande divisor de águas na minha carreira foi o nascimento do Clube do Bordado, quatro anos atrás. Um projeto que começou como um hobby e me trouxe novas possibilidades. O Clube é o atual realizador dos meus anseios profissionais e o que me deu coragem para assumir minha primeira experiência como autônoma.

Renata Dania por Projeto Curadoria
Renata Dania por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Manuel Bandeira e Fernando Pessoa, pelas memórias de tardes de poesia quando criança com uma amiga querida. Pink Floyd, pelos incontáveis dias em que minha mãe mexia as panelas cantando bem alto e onde me encontro em momentos de introspecção. E, hoje, as minhas 5 sócias do Clube do Bordado me inspiram diariamente em como coexistir em uma empresa colaborativa, aceitando e ajustando nossas necessidades pessoais e adequações às do coletivo, nas inúmeras trocas de ideias e, principalmente, na hora de respeitar o meu processo artístico e pessoal de silêncio.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Eu lido com esse preconceito diariamente. Por ser mulher, por estar acima do peso e por ter escolhido trabalhar com o bordado. Eu nunca vi, por exemplo, um homem sofrer preconceito em seu trabalho por estar gordo. Um chefe me falou uma vez que se eu não me cuidasse, dali a pouco tempo não poderia mais trabalhar naquela empresa porque não ia servir na grade de tamanhos que representava a marca (isso foi em 2014, século XXI, acreditem). Além das minhas vivências, também recebo relatos de alunas e mulheres que acompanham o meu trabalho. Acredito que elas se sintam seguras ao ver minhas inseguranças expostas e compartilham comigo suas experiências e frustrações – seja como mulher, como gorda ou como bordadeira. O preconceito é real e latente, infelizmente.

Renata Dania por Projeto Curadoria
Renata Dania por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Sempre encontrei minha felicidade estando rodeada por pessoas. Nesse ano tive a oportunidade de me sentir acolhida por mim mesma, e me permiti mudar – os pontos de vista, o jeito de me relacionar comigo e com os que estão ao meu redor. É um processo pelo qual ainda estou passando. Essa foi a pergunta mais difícil de responder até agora. Acho que no momento o que me faz feliz é poder assumir e respeitar esse novo eu que venho construindo.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não tenham medo de olhar para dentro. Vai doer bastante. Mas esse mergulho é necessário e gratificante. Pode parecer piegas, mas a maioria das respostas está dentro de nós e o autoconhecimento ajuda num tanto absurdo na nossa colocação perante a sociedade e perante a nós mesmas.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

No Clube do Bordado temos sempre muitos projetos acontecendo ao mesmo tempo, seja em fase de casulo ou já na eclosão. No momento, e pela primeira vez, estou fazendo um projeto de bordado independente do Clube e um trabalho em que falo de mim mesma. Tem sido um processo bem intenso e difícil de me colocar para fora, seja em símbolos que só tem significado para mim, seja em representações literais de acontecimentos da minha trajetória de vida. Estou bordando sem hora para acabar, processando os acontecimentos conforme a agulha vai marcando os caminhos do desenho. Não tem prazo, mas espero conclui-lo até o final desse ano.

Renata Dania por Projeto Curadoria
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