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Raisa
Christina
Brasil
vivendo em Fortaleza . CE
30 anos . artista . escritora

Cresci em Quixadá, Sertão Central do Ceará. A paisagem árida, povoada de monólitos e as histórias de vida extraterrestre que se multiplicavam pela região me inclinavam à fabulação. Costumava acompanhar meu pai pela cidade, a encontrar seus velhos amigos e a colher curiosas narrativas.

Desenho desde criança e entendo que o desenhar veio se tornando uma maneira muito espontânea de aproximação com o entorno. A miopia, traço genético que atravessa a família de meu pai e que me levou a usar óculos desde muito cedo, de alguma forma detonou a vontade permanente de desenhar o rosto das pessoas. Ao fazer retratos no papel, tinha a permissão de, estando perto, deter-me num rosto que a princípio era pura mancha de configuração difusa. Nessa relação mais íntima, poder conversar e lidar com os silêncios.

Então meu desenho teve sempre essa fixação: olhar o rosto do outro. Porque esse olhar já era desenho. Não era exatamente o traçado depois de pronto no papel que mexia comigo, mas o exercício de observar com determinada paciência e encanto toda a geografia de um rosto que mais tarde eu tentaria fazer em linhas e borrões. Hoje, aos trinta, pergunto-me para quais rostos tenho sido atenta ao longo da vida.

Raisa Christina por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Não entendo que lápis, canetas, tintas, papéis e outras superfícies sobre as quais escrevo ou desenho sejam apenas ferramentas com as quais me expresso. Tratam-se elas mesmas de matérias de criação, tão importantes quanto a própria linha do desenho e o verso do poema, ou uma memória de infância, um desconhecido de quem tenho vontade de me aproximar, uma súbita sensação de saudade, uma manchete no jornal que me parece absurda.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Aquilo que me leva a criar parte exatamente de algo que não está ao meu alcance, algo que desejo, que me inquieta, que me acompanha o pensamento, mas que se encontra, ao mesmo tempo, longe ou que não tem possibilidade de se mostrar por completo. Tem a ver sempre com a saudade, a telepatia, a música e o cinema, o fora de quadro – aquilo que sabemos que está ali, que de algum modo intuímos sua presença, mas ainda assim não o vemos.

Raisa Christina por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

No desenho, o processo se dá no encontro. O encontro com o outro: aquele para quem quero olhar atentamente. O encontro entre o olho, a mão, o lápis, o papel. O gesto da mão com a linha varia em proporções inesperadas. Em termos de marca gráfica sobre uma superfície, desenho envolve grupos inteiros de músculos; tecnologias para traçar, manchar, gravar e também aquelas que recebem a inscrição dessas marcas. Mas, de maneira dilatada, desenhar é fabular, é estar atento às linhas, às formas e às configurações visíveis, invisíveis e imaginárias que estão ao nosso redor.

Na literatura, às vezes me apego a uma ideia de micro perfomance que me parece interessante enquanto imagem, ação ou gesto, e então tento pôr essa ideia em narrativa, quase sempre em primeira pessoa, uma espécie de autoficção. Posso também me deparar com informações acerca de descobertas geológicas, astronômicas ou curiosidades banais do campo das ciências e encontrar alguma ressonância dessas informações em meu estado de corpo, em meus relacionamentos amorosos, em meus modos de perceber o tempo.

Para ambos os casos, tanto nas artes visuais, como na literatura, não creio possuir métodos rígidos quanto ao processo de criação. Apenas tento propor a mim mesma certos exercícios, como, por exemplo, sair do papel e experimentar ampliar o desenho de figuras humanas em muros, com trinchas e rolos, ou como procurar focar um texto em movimentos, reduzindo descrições de humor ou sentimentos abstratos.

Raisa Christina por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Mantenho-me atenta aos acasos. Estou aberta a eles. Gosto de olhar nos olhos de pessoas estranhas, de sentir o peso das palavras. Acho importante cuidar do cotidiano, de me dar um tempo fora de mim para, dentre outras coisas, olhar Catarina, minha filha de três anos, pintando pela casa; um tempo para cantar, ler, realizar o ritual da sala escura do cinema, inventar uma paixão.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Não tenho um projeto preferido. Acho que cada produção, a seu tempo, teve uma importância específica pra mim. Mas sinto que, de maneira geral, prefiro revisitar mais os textos do que os desenhos. Os desenhos parecem me importar mais no momento em que estão sendo feitos, na artesania da coisa, no processo. Já os textos, ainda depois de finalizados, ficam latejando, ecoando em mim. Eles às vezes me surpreendem porque me desconheço um pouco cada vez que os releio.

Raisa Christina por Projeto Curadoria
Raisa Christina por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Na vida – é brega dizer isto - penso que os marcos talvez tenham sido os instantes de paixão. Como nunca sabemos bem como lidar com tal estado de emoções, essa verdadeira inabilidade, pelo menos no meu caso, tem me levado ao longo dos anos a me desfazer e a me reconstruir constantemente. Gosto de perceber a paixão alterando meu corpo e minha relação com o mundo.

No que tange ao pensamento e à arte, devo dizer que a experiência do Curso de Realização em Audiovisual da Vila das Artes foi um divisor de águas na minha trajetória de pesquisa e produção. Ter tido contato com grandes professores, artistas, técnicos e curiosos que, de forma muito generosa e sensível, partilhavam reflexões, questionamentos e propostas acerca de assuntos diversos do campo artístico, cultural e filosófico foi algo extremamente enriquecedor, que me abriu novos possíveis.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

A maior parte de minhas inspirações, sem dúvida, vem da música e do cinema. Adoro a solidão, o amor e a melancolia nas canções de Elliott Smith, assim como as guitarras distorcidas nos riffs de Sonic Youth e Jesus & Mary Chain. Gosto da juventude e seus corpos em movimento nos filmes de Gus Van Sant, especialmente em Paranoid Park, Last days, Gerry e Elephant. Posso acompanhar por horas seguidas as narrações em off dos filmes de Marguerite Duras e olhar para as imagens como quem contempla, da janela do carro, a paisagem em constante transformação. Ultimamente a poesia de Manoel Ricardo de Lima e a de Júlia Studart têm me tirado o chão.

Raisa Christina por Projeto Curadoria
Raisa Christina por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sem dúvida, há. Esse preconceito deve habitar camadas muito sutis de certos discursos e comportamentos. De todo modo, sigo criando e percebo - tanto por parte da família, dos amigos íntimos, quanto de alguns desconhecidos - mais estímulos do que o contrário.

// E o que te faz feliz?

Desejar, errar e conversar. Esses são bons verbos que costumam me trazer momentos de felicidade.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Serem fieis aos seus desejos.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho dois projetos de livro em andamento. Um deles é uma publicação proposta por Urik Paiva e Joice Nunes, que já estão editando os textos. A previsão de lançamento é para o início do próximo ano. A publicação será num formato experimental. Os textos estarão acoplados ao desenho de uma grande figura humana, feito uma ficção do corpo em mapa-múndi.

O outro livro é em parceria com o fotógrafo e músico argentino Nahuel Souto Martinez. Publicaremos pela Nadifúndio, editora de Bianca Ziegler. A ideia é fazer um recorte dentro da produção que Nahuel e eu temos realizado juntos, dentre desenhos, textos e fotografias. Esse material todo surgiu a partir do nosso encontro e aponta para uma poética da saudade, do acontecimento e do acaso.

Raisa Christina por Projeto Curadoria

Foto do perfil/divulgação e foto 1 por Jamille Queiroz, fotos 2 e 3 por Lua Branca.

Imagens 4 a 8: desenhos sobre fotografias de Nahuel Souto Martinez.

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