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Priscila
Menegasso
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
30 anos . artista

Em 2013 concluí minha graduação em Arquitetura e Urbanismo mas, desde 2008, venho explorando diversas possibilidades de ser e estar no mundo. Atuei nas áreas de conservação e restauro de edificações, projeto em arquitetura, assistência à artista, ilustração, design e artes. Recentemente, tenho dedicado parte de meu tempo, também, a pesquisas em educação, e essa imersão tem contribuído muito para meu entendimento de como as coisas estão cosmicamente conectadas, potencializando ainda mais minha percepção da importância do fazer criativo e reflexivo em nossa vida, nas diversas áreas de atuação. Tenho percebido também a educação como um lugar privilegiado de integração das coisas, de encontros de pessoas, ainda que com diversas restrições.

Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Sempre me vali muito das artes gráficas, principalmente do desenho, mas timidamente estou buscando o espaço com objetos tridimensionais. Utilizo muito ferramentas digitais - já fui a louca da digitalização -, mas às vezes acho limitado, preciso tocar, moldar, encaixar, rasgar... É curioso que, por mais que eu mude o suporte, há parâmetros que são constantes, e que partem dessa pesquisa gráfica, como a cor, a composição e o símbolo. Nesse último ano tenho cismado também com a importância da consciência corporal e do corpo como campo para experimentação, algo que é muito novo para mim, e ainda não sei bem onde vai dar!

Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Acho que minha maior motivação seja esse impulso genuinamente humano do criar. Tenho entendido o criar como uma metáfora da vida, dessa inevitabilidade de lidar com o futuro, com o desconhecido, que passa por nossa elaboração intelectual, como se o ato criativo fosse um centro de condensação da energia vital, por isso, impregnado dos acontecimentos da vida. Tudo que nos comove é gatilho para a criação, então é importante pensar a que nos colocamos expostos no mundo. Sou muito estimulada pela percepção retínica, então os olhos sempre atentos para as composições, cores e símbolos no dia a dia. Gosto muito de ficar olhando imagens na internet ou em publicações impressas, mas acho que o olhar pode ficar um pouco viciado em certas tendências inerciais. Por isso acho que viajar e/ou conhecer lugares novos é um estímulo incrível, e que mexe com toda a nossa percepção. Não precisa ir longe, pode ser uma cidade vizinha, uma rua inédita no nosso caminho ou um jardim, e já podemos encontrar matéria-prima abundante.

Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Costumo produzir de maneira reativa, então é comum surgirem projetos a partir de alguma vivência, seja ela afetiva, visual, sonora ou literária, e a produção se dá muito da experimentação da matéria, o que por vezes é muito frustrante, exigindo uma paciência nem sempre presente. Mas o segredo para mim está na repetição e na aprendizagem que só o erro proporciona. Tenho valorizado muito o erro. O problema é que para errar precisamos de tempo. Percebo muito a importância do tempo na cerâmica, por exemplo, totalmente distinto do das mídias digitais. É um processo bastante específico, em etapas que demandam tempo, talvez um tempo mais claramente perceptível, demarcado. E isso é bonito… a cerâmica nos ensinar sobre o tempo.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

A existência por si só é criativa! A questão é em que canalizamos nossa criatividade, como deixamos ela aflorar. Eu tento viver as coisas com intensidade. Viver com intensidade no sentido de estar presente, e sentir esse presente, que pode ser tanto um momento de silêncio prolongado, quanto uma experiência catártica em um espetáculo de música renascentista. Esse tem sido um grande desafio atualmente. Existem muitas demandas cotidianas que nos distraem do viver intenso, da contemplação, e nos tornam insensíveis aos estímulos da vida. Eu brinco que preciso ter momentos de só olhar para a parede, sem objetivo definido… deve ser um pouco me permitir apenas existir.

Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tenho uma relação afetiva com um dos meus últimos projetos, "Homem genérico", por ele falar de algumas angústias minhas em relação à forma de vida que muitas vezes nos é imposta. Produzir se torna uma maneira que encontro de pensar sobre isso, sem necessariamente estar pautada pelo pensamento lógico, racional. Também é super importante para mim a pesquisa com colares de contas, que faço pelo mero prazer de compor e resolver, é algo muito singelo, mas que está presente na minha produção há algum tempo. Gosto muito de como é possível acessar as pessoas com uma simples indumentária, um retorno muito rápido do seu trabalho, que está no cotidiano, na informalidade.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Foi revolucionário (e aconteceu no meu retorno de saturno, diga-se de passagem!!) quando deixei de vez de trabalhar com arquitetura. Prestei vestibular em artes e em história, acabei me matriculando em artes. Simultaneamente, passei a trabalhar em uma instituição cultural como arte educadora… desde então todo um novo universo se abriu, e ainda estou me embrenhando por essa mata fechada, sem saber bem o caminho, mas está incrível. Acho que o mais significativo foi descobrir essa possibilidade de criação em outro lugar que não o da produção material, e provavelmente daí vem o interesse pelo corpo. Fica mais difícil dimensionar, mas é no próprio corpo que sentimos os processos.

Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Por um lado, tenho muito interesse por referências que apresentem algo de enigmático, misterioso e simbólico. Tenho muita curiosidade pela ancestralidade e pelo acúmulo de conhecimento humano, então me interessa o antigo, o velho, as camadas históricas. Por outro, tenho uma obsessão formal com cores e grafismos. Disso tudo meio misturado posso citar, que me vêm de imediato, Giorgio De Chirico, René Magritte, Marc Chagall, Frida Kahlo, Remedios Varo, Henri Matisse, Edward Hopper, Luigi Ghirri, Constantin Brancusi… não sei ao certo em que medida isso tudo influencia minha produção, mas são referências que me permitem ir longe no devaneio.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Certamente ainda existem sim preconceitos em relação a expressividade livre da mulher - seja no âmbito criativo, seja no social - e, por mais que nosso debate e engajamento esteja cada vez mais amplo e fortalecido, parece-me que é, também, nas camadas mais profundas do ser mulher onde encontramos muitos entraves que devemos trabalhar e desmantelar progressiva e cotidianamente. É uma vigília, um exercício constante.

// E o que te faz feliz?

Depende muito do dia! Eu gosto muito de ficar em casa, perceber a hora passar vagarosamente, sem nenhuma urgência. Mas gosto também de situações inusitadas que me tiram da mecanicidade do cotidiano, que trazem um frescor e nos lembram que o mundo é vasto.

Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Vejo uma força muito grande na pesquisa introspectiva. Acho que para uma existência melhor, mas que acaba por potencializar nossas ações no mundo, encontrar uma maneira muito própria de ser, de cada um, é a riqueza de compartilhar com o mundo algo que só a gente pode aprender na nossa subjetividade. Sendo mulher ainda, acho que a potência dessa voz, das vozes das minhas colegas, não só é importante para nos sentirmos cada vez mais representadas na coletividade, mas também para que reconheçamos nossa força e nos imponhamos cada vez mais.

Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Pretendo retomar minha produção da série Homem genérico que anda parada pelas intempéries da vida.
Tenho tido também a ambição de aprofundar meus estudos na contação de histórias tradicionais, algo que demorou muito para se apresentar para mim, mas que parece fazer muito sentido. Vejo com otimismo a possibilidade de explorar essas múltiplas instâncias da experiência criativa.

Priscila Menegasso por Projeto Curadoria
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