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Priscila
Amoni
Brasil
vivendo em Belo Horizonte . MG
32 anos . artista

Meu nome é Priscila Amoni, nasci em Belo Horizonte, Brasil, em 1985.

Morei 3 anos em Portugal, onde fiz o Mestrado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes. Considero-me uma pintora, mas além de pintar sou diretora de Arte para cinema há 10 anos.

Comecei a pintar telas em 2008. Pintava em ateliê quando decidi ir cursar o mestrado em pintura. Mas no meio do mestrado a pintura perdeu o sentido pra mim. Perdi o tesão em pintar quadros que iriam morar em salas de estar combinando com o tapete e o sofá da casa de alguém.

Mas em 2013 meu trabalho ganha um novo sentido, quando volto para o Brasil em plenas jornadas de junho... Aquela confusão que o país havia se tornado me fez ir para as ruas e o espaço público ganhou um novo significado em minha vida: era um lugar a ser ocupado, um espaço de expressão. Agora sim pintar fazia sentido: a pintura seria grande e acessível a todos. Ela não escolhia quem a poderia ver.

A partir daí a minha paixão só aumentou. Pintei diversos murais em BH, fui pintar no Rio de Janeiro e São Paulo e agora faço as malas para uma residência artística na França, onde vou pintar a fachada de um antigo castelo!

Com mais duas amigas criei o CURA, o Circuito Urbano de Artes de Belo Horizonte, um projeto inovador que visa preencher as empenas cegas dos edifícios do hipercentro de BH, criando o primeiro mirante de arte urbana do país. A primeira edição do CURA acaba de acontecer e foi um sucesso.

Priscila Amoni por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Eu sou pintora (e não graffiteira!), por isso me utilizo de tinta, rolinhos e pincéis para me expressar.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Meu trabalho é a expressão de sua relação com o poder feminino e das plantas, o estudo de sua força e seu sentido de cura, sempre privilegiando a perspectiva do conhecimento popular das minorias, principalmente as de cultura oral, como o xamanismo indígena, cultura popular, cultura negra, etc.

Em minha obra mulheres e plantas e mulheres-plantas são curandeiras brasileiras, são negras-índias de cuja cabeça nascem plantas, órgãos vitais são frutas, pulmões podem ser bananas ou babosas, o coração pode ser uma pitaya o útero um grande cacho de guaranás. Criam-se hibridismos para reforçar nossa não separação com a natureza e o poder de transmutação presente dentro de nós.

O meu processo de criação é normalmente ligado ao espaço onde a obra acontece. Pintar é uma forma de pedir e desejar. A figura pintada surtirá efeito sobre o espaço e a medicina das cores se fará. Como por exemplo no trabalho pintado na ala feminina do Hospital Psiquiátrico Galba Velloso, a moça retratada reza um alecrim, que é a planta da alegria, e tem na cabeça um cocar de comigo-ninguém-pode, planta de proteção. A pintura é uma forma de orar, e nada prova que não seja eficaz.

Priscila Amoni por Projeto Curadoria
Priscila Amoni por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

O meu trabalho é uma oração, uma benção. Eu trabalho em relação ao lugar em que vou pintar. Então se, por exemplo, vou pintar no centro da cidade, procuro me conectar com as necessidades daquele lugar, e a imagem surge como cura. Pinto as plantas que acredito que vão curar aquele lugar.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu preciso me afastar da cidade de tempos em tempos. Entrar em contato com a natureza, pegar na terra, mergulhar na água corrente é essencial para que eu esteja em paz e limpa para me realizar como canal.

A prática da meditação é também essencial para mim. Estar em silêncio para ouvir o coração. Estar em estado de CORAGEM constante é o meu mote.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tenho uma intervenção urbana chamada CORAGEM, onde troco os escritos de GARAGEM nos portões por CORAGEM. O G vira um C e eu apago o A e o substituo por O. Isso pra mim é tão simples como sublime. Interromper o cotidiano conformado, trocar o sentido dos avisos que nos dividem, estampar na cidade uma palavra tão poderosa e que nos esquecemos constantemente... pra mim é poesia pura.

Outro projeto que amo é a pintura que fiz recentemente para o CURA. Uma mulher negra gigante abençoa a cidade de Belo Horizonte com quatro plantas: a dracena simbolizando a força, alecrim – alegria, lavanda – calma e Maranta a beleza.

Priscila Amoni por Projeto Curadoria
Priscila Amoni por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

A criação do CURA – Circuito Urbano de Artes de BH foi o maior marco. Esse projeto me fez pintar o painel mais alto pintado por uma mulher do Brasil!

Foi uma experiência incrível pintar uma empena, muitos desafios...

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

A minha maior inspiração é a medicina da floresta. As plantas me ensinam muito, aprendo muito com cada planta que vejo crescer ou experimento, ou com a qual me trato e curo. Os índios são grandes protetores dessa medicina.

Tive muitas bençãos de mulheres incríveis que conheci pelo caminho, que me “benzeram “por aí... Tenho também mestres na caminhada.. sou profundamente grata às ajudas que vou recebendo à medida que caminho.

Em pintura mural a minha admiração vai para o Gonzalo Borondo, pintor espanhol que arrebenta pelas ruas do mundo todo.

Priscila Amoni por Projeto Curadoria
Priscila Amoni por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Certamente o preconceito existe, a mulher tem que enfrentar todos os dias a opressão do machismo. O simples ato de sair de casa é diferente pra um homem e pra uma mulher. A mulher tem que pensar o trajeto que vai fazer, a roupa que vai em relação à possibilidade de assédios... Saímos em “desvantagem”.

No meu trabalho sempre me impus como uma leoa. Confio na minha capacidade de realizar a missão que me foi dada. Sou um canal, vou cumprir o que vim fazer aqui de qualquer jeito.

// E o que te faz feliz?

Sou feliz em criação e em amor. Busco acessar o amor pleno todos os dias, apesar do cotidiano que nos sufoca...

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Buscar estar em contato com a sua verdade. Não fazer nada que não acredite de verdade em seu trabalho. Buscar referências, pesquisar... e trabalhar muito, com muito tesão. É preciso ativar o chakra sexual para criar.

Priscila Amoni por Projeto Curadoria
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