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Paula
Plee
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
29 anos . arquiteta . artesã . curadora

Com 18 anos fui estudar arquitetura em Florianópolis, principalmente por parecer um curso/profissão bastante abrangente. Amo trabalhos manuais, mas sempre mantive um interesse por várias coisas e ao longo dos anos trabalhei com direção de arte, figurino, styling de moda, redação de conteúdo para blog, cenografia comercial e teatral, projeto de exposições, reforma de casa, apartamento, enfim. Olhando para trás, hoje vejo que fazer várias coisas foi bom, pois pude ir riscando da minha lista várias atividades e carreiras que eu romantizava. Hoje trabalho como gerente de comunicação, faço experimentos manuais através da Simplee e ao lado de duas amigas, Ana Luiza Fortes e Nataly Callai, sou uma das fundadoras e curadoras da Piscina, um projeto de curadoria experimental, que tem como objetivo a difusão do trabalho de artistas mulheres.

Paula Plee por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Gosto de experimentar vários materiais como cerâmica, madeira, concreto, bordado em tela e mais recentemente tenho trabalhado com as cestas de sisal onde utilizo fios de lã ou barbante. Isso vai e volta. Às vezes me dá vontade de fazer tricô ou de modelar algo em cerâmica, mas isso depende muito também do que eu tenho em mãos para produzir. Tem vezes que eu tenho vontade de bordar, porque é algo que é mais simples e fácil, mas posso ficar vários meses sem vontade nem de olhar para as agulhas.

Apesar do fato de que quase tudo que eu produza seja manual e analógico, acho que a maneira como me expresso e me comunico é através de imagens e de palavras, seja ao compartilhar o que eu penso e faço no blog e no Instagram da Simplee, como através da Piscina, onde nossa ferramenta principal são as imagens dos trabalhos das meninas e a a internet, é claro.

Paula Plee por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Me sinto movida pela curiosidade e pelo aprendizado e preciso estar bem motivada para produzir, por isso não consigo produzir repetidamente e infinitamente a mesma coisa. Aprender a respeitar e incorporar essa certa "inconstância" do meu trabalho é uma coisa recente para mim e tem me feito bem, por isso digo que através da Simplee eu faço experimentos a mão. Nesse sentido, estou descobrindo ainda como posso desenvolver meu próprio ritmo e lógica de trabalho.

Paula Plee por Projeto Curadoria
Paula Plee por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Às vezes eu vejo alguma coisa que me dá vontade de experimentar e eu fico matutando nisso por um bom tempo até que eu consiga sair do mental para a parte prática. Pensando bem, acho que foi assim com tudo. Os vasos de cimento, por exemplo, eu pensei mil maneiras de criar um processo satisfatório, um processo que durou mais de um ano. No fim, fazer os vasos, aprender a fazer moldes de silicone, me deu experiência para eu pensar em como fazer os colares de cimento, que por sua vez foram influenciados pelos trabalhos feitos nas aulas de cerâmica. Acho que uma técnica vai influenciando a outra e as coisas vão surgindo daí.

Paula Plee por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Acredito que tentar manter o olhar curioso diante das coisas é um jeito de me manter criativa. Acho que só o olhar descompromissado e curioso diante das coisas, inclusive as mais comuns e cotidianas é que conseguimos iniciar um processo criativo.

Paula Plee por Projeto Curadoria
Paula Plee por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Meus xodós do momento são os novos passos da Piscina e as cestas que tenho desenvolvido na Simplee. A Piscina começou de uma maneira muito despretensiosa e em menos de dois anos conseguiu um alcance realmente incrível. A gente fica impressionada com a repercussão que o projeto teve em tão pouco tempo e de maneira tão fluida. É muito bacana e gratificante poder dar visibilidade ao trabalho de outras pessoas.

As cestas tem me interessado cada vez mais, pois é um produto que consigo produzir sozinha do inicio ao fim e não dependo de muito espaço ou de algum instrumento especial, sou só eu e os materiais.

Paula Plee por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Apesar de gostar muito do curso de arquitetura, existiam muitas coisas que me interessavam e quando os horários da faculdade permitiram, fiz curso de costura, moulage e figurino, queria trabalhar com direção de arte e cenários gostava de moda também. Acho que pra mim a graça sempre foi o aprendizado em si. Quando eu era criança adorava brincar de lojinha, de supermercado, de fazer coisinhas e vender para meus pais e outros parentes. Parece que uma espécie de pensamento empreendedor nunca me abandonou de fato. Minha primeira experiência como empreendedora foi em 2012 quando eu criei o Volver, uma marca de acessórios em madeira que eram realmente incríveis. Eu tinha uma sócia e essa separação, apesar de inevitável, foi bastante traumática. Fiquei um tempo sem nem poder tocar no assunto, apesar de pensar nele o tempo todo. Depois de um tempo percebi que eu não podia apagar esse pedaço da minha história e que ele diz muito a respeito do caminho que eu abri para mim mesma e trilhei até chegar onde me encontro hoje, por isso acho muito importante mencionar o Volver, pois ganhei muita experiência com ele e mesmo que tenha sido difícil deixar tudo para trás, hoje tenho muito mais claro pra mim o que eu quero e o que eu sou. Depois do Volver eu ainda tentei fazer algo com meu namorado e foi um desastre total. Quando eu olho pra trás eu vejo que eu sempre quis fazer o que eu faço hoje com a Simplee, mas eu queria puxar outra pessoa junto e é difícil você querer impor, mesmo que sem querer, uma coisa sua pra alguém. Foi preciso uma ruptura muito grande na minha vida para que eu me desse conta que eu tinha que fazer as coisas que eu queria por mim mesma e para mim mesma. Eu hoje sou muito grata por esse período difícil e pela ruptura do Volver também. Sem isso, talvez eu acharia até hoje que preciso de outra pessoa para validar meu trabalho.

Paula Plee por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Acho que o que me inspira às vezes é uma fotografia, ou uma obra de algum artista, a natureza, uma cultura diferente. Essa semana por exemplo estava lendo sobre o Grupo Frente e um trabalho do Ivan Serpa e me deu vontade de fazer alguma coisa que misturasse pintura com linhas de bordado. Gosto quando esse tipo de coisa acontece, de ver algo e pensar instantaneamente em produzir. Estou num período de evitar ao máximo buscar inspiração diretamente da internet, embora isso seja praticamente impossível hoje em dia mesmo porque trabalho o dia todo na frente do computador e o Instagram já é uma fonte constante de imagens e estímulos, que eu tenho visto cada vez menos também.

Paula Plee por Projeto Curadoria
Paula Plee por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Acho que felizmente as coisas estão mudando para melhor e as mulheres têm cada vez mais visibilidade e têm seus trabalhos valorizados mas é surreal pensar no quanto as narrativas que a gente cresceu ouvindo são sob a perspectiva masculina, seja na literatura, no trabalho, nos filmes, no modo como a gente se enxerga e se coloca. Estamos engatinhando ainda diante dessa construção de mundo masculina consolidada, mas acho que se formos pensar no quanto de avanço tivemos de 10 anos para cá, por exemplo, é uma perspectiva de futuro bastante otimista.

Acho que todo mundo já sentiu alguma coisa estranha profissionalmente por ser mulher. Às vezes a gente não se sente ouvida, não consegue se impor, precisamos de muito mais tempo para ganhar terreno e confiança, coisa que um homem provavelmente não precisaria se preocupar, pois a gente praticamente nasce com essa noção distorcida de nós mesmas.

Paula Plee por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

As coisas mais simples. Sol em dias frios, deitar na grama, preparar a janta tomando vinho, conhecer um lugar novo, ir à feira, fazer um bolo, ter por perto as pessoas que eu amo, ter panqueca de banana no café da manhã, dar presentes. (quase tudo envolve comida, mas fazer o quê, amo comer)

Paula Plee por Projeto Curadoria
Paula Plee por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Acho que um ótimo exercício para todo mundo é olhar mais para si e reconhecer tudo que já fez. Nada vai vir de fora, está tudo dentro de você. Olhe menos para o lado. A gente tem essa mania de olhar outras pessoas e criar aquela imagem idealizada “nossa, Fulana é muito foda”, “Fulano faz isso, faz aquilo”. Pessoas são só pessoas e são tão especiais quanto você. Apenas faça e jogue suas criações no mundo. Tente e se der errado, não deu errado, só foi de um jeito diferente do filminho que você tinha criado na sua cabeça e tomado como certo e bom. Compartilhe mais e compita menos. Valorize mais seu caminho e se compare menos com os outros.

Paula Plee por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou tentando entender a minha nova rotina e acho que esse é um período de transição da Simplee também. Talvez agora seja um momento de tentar entender como eu posso continuar experimentando e compartilhando as minhas experiências com as pessoas e encaixar isso na minha nova rotina. Tenho vontade de trabalhar mais a experimentação com novos materiais e estabelecer parcerias para projetos pontuais e especiais.

Quanto à Piscina, acabamos de lançar um site novo, que tem mais a ver com o formato atual do projeto. A cada trimestre faremos a curadoria de uma exposição virtual em nosso site com os trabalhos das meninas que temos na plataforma. E queremos partir para iniciativas mais profissionais no campo artístico, promover publicações e também exposições físicas.

Outra coisa que aconteceu este ano foi que eu e meu irmão tiramos da gaveta um projeto que pensávamos já há bastante tempo: o Tempero M, um tempero caseiro de ervas, que minha vó fazia e distribuía para a família. Hoje em dia quem faz o tempero é meu irmão e minha mãe, eu fico responsável pela embalagem e comunicação. Nas últimas 3 feiras que fiz com a Simplee levei o tempero comigo. No Instagram do tempero tem um pouquinho da história do projeto. A sensação de trazer à vida uma ideia é sempre muito boa e acho que isso é uma das coisas que me move a experimentar e criar coisas novas.

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