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Nini
Ferrari
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
31 anos . artista . designer

Olá, eu sou a Nini! Criadora desse projeto, o Projeto Curadoria. Após entrevistar 365 mulheres criativas de mais de 20 países diferentes, chegou a minha vez de contar um pouco da minha história.

Eu sempre fui muito ligada a criatividade, minhas brincadeiras de infância incluíam desenhar, fazer crochê, tricô, bordado e tantos outros trabalhos manuais. Também sempre fui apaixonada por fotografia e belas imagens, sonhava em ter minha própria câmera ainda quando criança e aprender a revelar – não aprendi, mas ainda está nos planos - porém nunca tive um caminho profissional muito bem definido, apenas sonhos a serem explorados. Cursei faculdade de Moda por 1 ano e meio, mas me formei em Design de Joias e Acessórios. Também fiz inúmeros cursos livres, de fotografia, de produção de moda, de figurino, de pesquisa de tendências, de ilustração, de caligrafia, de pintura em porcelana, de escrita afetuosa, de empreendedorismo criativo...

Na adolescência minhas amigas queriam comprar as coisas que eu produzia para mim mesma, e comecei a vender oficialmente quando fui para a faculdade. Tive uma marca de acessórios em tecido chamada Ana Flor, depois outra com meus conhecimentos de joalheria chamada Capuleto. Trabalhei como fotógrafa e designer de joias freelancer, como designer gráfica no Studio Lhama junto com meu marido e tive um blog de viagens, o A Path to Somewhere.

No final de 2013, decidimos sair de São Paulo para ir em busca do reconhecimento das nossas cidadanias italianas - um sonho antigo da minha família, que me proporcionou uma vivência incrível na Toscana - para então nos mudarmos para Londres. Muitas coisas aconteceram a partir de então. Não mudamos para Londres, mas vivemos como nômades por quase 4 anos, viajando pela Europa, Estados Unidos e Sudeste Asiático, enquanto continuamos trabalhando em nosso estúdio de design e publicando nossas andanças pelo mundo no A Path to Somewhere.

Essa foi uma experiência incrível, mas de alguma forma ela também me trouxe uma série de questionamentos sobre o meu propósito e as coisas que me faziam feliz e eu mergulhei em um processo de autoconhecimento mais profundo. Foi então, que durante nossa passagem por Bali na Indonésia, próximo ao meu aniversário de 30 anos, eu tive a ideia de procurar outras mulheres criativas como eu e criar esse projeto de entrevistas. Foi a maneira que encontrei para me conectar com mulheres que me inspiram, tentar entender um pouquinho mais do que se passa dentro de mim mesma e ainda inspirar outras pessoas também.

Nini Ferrari por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Em cada fase da vida utilizo uma ferramenta diferente. A grande questão para mim não é a ferramenta em si, mas sim conseguir me expressar. As coisas tendem a se acumular dentro de mim e quando começam a sair, saem em forma de repetições sem fim até que aquilo se esgote e eu parta para uma nova exploração. Sinto que o uso das mãos é de grande importância nesse processo. Já fiz muito crochê, tricô, bordado, modelagem em porcelana fria, costura... depois parti para a joalheria, para a fotografia, o design gráfico e a ilustração... Atualmente tenho explorado a escrita e o desenho, tenho testado novas ferramentas e resgatado outras, sempre em busca de uma maneira de colocar minhas ideias e sentimentos no mundo.

Nini Ferrari por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha motivação é interna e nata, sempre criei, nunca deixei de criar e ideias nunca deixaram de brotar dentro de mim. Acredito que o ato criativo seja uma forma de processar meus próprios sentimentos e experiências. Tudo pode ser fonte de inspiração, uma música, uma viagem, uma conversa, um encontro, uma experiência, uma sombra na parede da sala, um momento de introspecção, o autoconhecimento...

Um tema recorrente e que sempre me inspira muito é a natureza, principalmente as flores, não importa onde eu esteja elas sempre chamam a minha atenção como um simbolismo da minha própria evolução.

Nini Ferrari por Projeto Curadoria
Nini Ferrari por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Não tem muita regra. Depende do tipo de trabalho ou projeto que estou desenvolvendo. Costumo anotar as ideias e muitas delas ficam por muito tempo encasuladas dentro de mim antes de virem ao mundo. Quando tenho um tema definido, gosto de buscar referências e estudar sobre o assunto, adoro a parte de pesquisa. Muitas vezes também trabalho a partir da repetição de elementos já elaborados anteriormente, de maneira mais intuitiva e fluida.

Nini Ferrari por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Não tenho uma rotina pensada especificamente para me manter criativa, até mesmo porque sempre tive muitas ideias na cabeça, mais ideias do que habilidade e tempo para concretizá-las. Mas acredito que criar espaços em meio a rotina para momentos de silêncio e prazer é uma das principais ferramentas para se manter criativo. É preciso ter momentos de ócio, de felicidade e de quebra de padrões para criar novas conexões que nos mantenham em movimento. Atualmente pratico yoga, meditação e faço terapias que me ajudam a me conectar comigo mesma.  Ando muito a pé, sempre atenta ao meu redor e sempre buscando novos caminhos. Anoto minhas ideias, coleciono imagens que me inspiram, leio muito, visito museus e exposições e amo viajar. Também gosto muito de fazer cursos ou workshops, estudar os mais variados assuntos, testar novos materiais ou técnicas. Acho que sou uma exploradora.

Nini Ferrari por Projeto Curadoria
Nini Ferrari por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Como já fiz muitas coisas, nas mais variadas técnicas, é bem difícil escolher. Gosto muito das minhas fotografias de flores de vários lugares do mundo por onde passei, do meu projeto de conclusão de curso de joalheria inspirado na metamorfose de uma borboleta, do encarte do CD da banda Papai Elefante que foi meu primeiro trabalho comissionado de ilustração, da última fase da minha antiga marca de acessórios chamada Capuleto, de uma ilustração abstrata chamada Insônia feita durante uma dessas noites em que a gente não consegue dormir, de um quadro de pavão que fiz de presente para a minha mãe antes de sair para mais uma viagem sem data para voltar. E, claro, do Projeto Curadoria, um dos projetos que mais mudaram a minha vida até agora.

Nini Ferrari por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Minha vida é cheia de marcos que foram mudando minha trajetória. Nunca vivi em linha reta e talvez seja justamente isso que me faz ser criativa. Mudei de cidade para cursar a faculdade, depois mudei de faculdade e de curso, e então resolvi estudar tantas outras coisas enquanto enfrentava uma depressão que ia e vinha por mais de 10 anos. Paralelamente tive minha própria marca de acessórios enquanto trabalhava como fotógrafa e designer de joias freelancer, e então passei a trabalhar como designer junto com meu marido criando marcas, embalagens, sites e muito mais.

Mas talvez a primeira grande mudança na minha trajetória tenha sido deixar tudo isso e viver como nômade por praticamente quatro anos, viajando por lugares incríveis. Essa foi uma das experiências mais transformadoras da minha vida.

A segunda grande mudança veio com o Projeto Curadoria, que me fez querer voltar ao Brasil e me abriu um novo mundo de possibilidades.

A vida é feita de marcos, rotas que precisam ser recalculadas a todo instante.

Nini Ferrari por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Muitas coisas me inspiram. A natureza me inspira, viajar me inspira, coisas belas me inspiram, a conexão verdadeira com o outro me inspira. Visitar museus de arte me inspira. Histórias me inspiram. As mulheres que participaram desse projeto me inspiram. O ato de entrega e expressão genuína me inspira.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Não sinto diretamente no meu trabalho, mas acredito que somos mais questionadas e precisamos justificar em dobro nossas escolhas, muitas vezes não tendo o mesmo tipo de reconhecimento que um homem, justamente por isso, são raros os nomes de mulheres artistas que se destacaram na história da arte. Não por não existirem mulheres criando ao longo dos séculos, mas sim pela falta de reconhecimento.

Esse projeto também tem sido minha contribuição para uma mudança nesse cenário e uma tentativa de criar uma rede de apoio e acolhimento entre as mulheres, de forma pacifica e amorosa, estimulando o autoconhecimento e a conexão verdadeira como forma de transformação.

Nini Ferrari por Projeto Curadoria
Nini Ferrari por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Me sentir plena comigo mesma, vivendo de maneira alinhada com o que sinto, penso, falo e faço. O autoconhecimento, as conexões reais, a troca verdadeira com o outro. Me permitir momentos de prazer, viajar, fotografar jardins, paisagens bonitas para os olhos, cachorros, ler bons livros, uma refeição gostosa, aprender novas coisas...

Nini Ferrari por Projeto Curadoria
Nini Ferrari por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Busquem o autoconhecimento e não tenham medo de colocar no mundo o que existe dentro de você. Todos somos criativos, o que nos bloqueia é o medo. Façam porque amam o que estão fazendo e nada mais será necessário. O amor e a felicidade são as maiores potências que existem.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sempre tenho muitos projetos em mente e cada um leva seu tempo para vir ao mundo. Tenho muitas ideias para continuar espalhando inspiração através do Projeto Curadoria, quero lançar um livro, produzir vídeos, promover oficinas criativas e criar alguns produtos... Também estou explorando mais a fundo a minha relação com as flores e começando alguns estudos sobre a arte nos processos de cura. Sinto que tem muita coisa nova vindo pela frente.

Nini Ferrari por Projeto Curadoria
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