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Nina
Cast
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
37 anos . artista . bordadeira

Comecei aos 14 anos o estudo da pintura. Tinha um desejo desde criança de que queria ser uma artista, apesar de até o momento não haver ninguém na minha família que praticasse nenhum tipo de arte. Depois, minha irmã mais nova se tornou bailarina.

Tive uma produção intensa dos 17 aos 21 anos, só fazia isso. Foi então que entrei em um bloqueio artístico e – apesar de trabalhar formalmente com comunicação e educação – passei 10 anos sem conseguir produzir arte. Achei que as ideias haviam secado e que eu havia desaprendido a desenhar e pintar. Hoje, enxergo este hiato como um período de acúmulo de experiências – a maioria dolorosas e ligadas à opressão do feminino.

Ao chegar aos 21 e me tornar adulta, fui chamada pela sociedade e pelas necessidades da vida a ser uma pessoa produtiva – e assim fui me distanciando muito da minha origem criativa. Foi uma época de muitos relacionamentos tóxicos e abusivos, tanto no trabalho como na vida pessoal, que cercearam meus sonhos e minha imaginação.

Depois do nascimento do meu primeiro filho, aos 31 anos, passei a buscar uma reconexão com a minha feminilidade autêntica e então a produção de arte foi aos poucos retornando para a minha vida. Só aprendi a bordar aos 34 anos, mas desde então, tenho usado essa técnica como a minha principal forma de expressão.

Agora, aos 37, ao mesmo tempo em que eu paria minha 2ª filha, meu trabalho entrou para 5 mostras ao mesmo tempo, incluindo a conquista do 3º lugar em um concurso. Parece que na primeira experiência de maternidade me reconectei à criação e na segunda comecei a colher os frutos.

Nina Cast por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Faço pintura, bordados e construo objetos (arte objeto). Com exceção da pintura, que estudei por mais tempo, estudei muito pouco as outras técnicas e aprendi muitas coisas sozinha, na prática. No bordado, em especial, invento e experimento muito. O bordado, nos últimos anos tem se tornado minha principal forma de expressão.

Nina Cast por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

As inspirações iniciais são as minhas próprias experiências. Meu trabalho é totalmente autobiográfico. Uso sonhos, sentimentos e situações como matéria-prima dos bordados.

Depois de prontos, pelos feedbacks que recebo, percebo que eles encontram eco nas vozes de muitas outras almas femininas, de mulheres e de homens... Sinto então que minha pesquisa se direciona para os temas de opressão e liberdade do feminino.

Nina Cast por Projeto Curadoria
Nina Cast por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

É sempre de olhos fechados. Mergulho nos sentimentos, sensações e nas imagens do meu inconsciente. É de dentro que surgem as ideias. Depois é que vou pensar na execução prática. Em alguns projetos faço pesquisa por referências visuais, em outros prefiro não fazer pra tentar trazer as imagens mais puras. Na criação, funciono muito solitariamente. E vou buscando aprender/experimentar novas técnicas de acordo com a intenção de cada expressão.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Acredito que o olhar do artista precisa ser cultivado. Preciso buscar rituais no meu cotidiano e espaços para viver uma vida simbólica. Pra mim isso tem a ver com não deixar de se encantar com as coisas, os acontecimentos, as pessoas, os fatos, as conversas... tudo tem uma beleza – até o que é difícil ou duro, ou injusto, ou triste. Reconhecer essa beleza nutre o artista.

Nina Cast por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Vou contar sobre um dos meus trabalhos preferidos, A Grande Jornada (2016), porque gosto muito do processo de construção deste trabalho que, a cada passo agrega novas visões, novos olhares – o que vai transformando a própria obra numa jornada.

A Grande Jornada fala sobre a minha jornada enquanto mulher, sobre a jornada de outras mulheres que conheço – e reflete sobre o que é ser mulher no nosso tempo. É um vestido bordado à mão.

Eu encontrei o vestido jogado na rua. Recolhi, lavei e tentei imaginar de quem seria, quem usaria um vestido como aquele. Senti que me remetia a uma menina-moça. Um vestido de algodão branco, com babados, que carrega inocência – e ao mesmo tempo muito curto e decotado, o que carrega uma sedução. A primeira cena que bordei foi a central, da menarca, pra registrar essa reflexão acima. Enquanto eu produzia o trabalho, tive acesso aos textos guardados – e nunca publicados – da Andrea Quirino, uma terapeuta, consteladora que trabalha com o feminino e promove círculos de mulheres. Os textos eram bárbaros, porque casavam exatamente com as imagens que eu estava bordando. Assim, agreguei trechos dos textos dela ao trabalho. E o trabalho passou a ter a minha voz + a voz da Andrea. Foi então que um curador viu o trabalho em processo e convidou pra levá-lo à "Quinta Poética", um sarau promovido mensalmente na Casa das Rosas em São Paulo.

Conversando sobre essa possibilidade com a bailarina Flavia Lucato, ela pirou de performar nesse evento uma coreografia vestindo o trabalho, porque sentiu que se encaixava perfeitamente com uma pesquisa de movimentos que ela vinha desenvolvendo a respeito das opressões ao feminino. E assim o trabalho passou a ter a minha voz + a da Andrea + a da Flavia. Após a performance, uma fotógrafa que eu não conhecia me procurou, muito impactada por este trabalho em especial, porque ela estava desenvolvendo uma série de fotografias envolvendo o processo criativo de artistas – e me propôs fazer uma performance fotografada. Então, o trabalho A Grande Jornada foi efetivamente finalizado diante das lentes da Fer D'Andrade. Eu bordei os últimos detalhes com o vestido no corpo, enquanto ela registrava o processo. E o trabalho passou a ter a minha voz + a da Andrea + a da Flavia + a da Fernanda. Enfim, uma amiga, a artista plástica Andréa Tolaini, a Dedé, convidou-nos para levar o trabalho à Europa pra compor uma mostra que ela estava idealizando com mulheres artistas brasileiras, cujo tema era "A mulher de dentro", que reunia mais 10 produções de artistas brasileiras, além de rodas de conversa pra discutir o feminismo e o feminino. O vestido foi exposto ao lado das fotografias do processo feitas pela Fer. E então, até este momento, o projeto tem a minha voz + a voz da Andrea + a da Flavia + a da Fernanda + a da Dedé.

Eu sinto esse trabalho como um projeto aberto, que vai agregando essas histórias, mulheres e pontos de vista em seu processo de construção e exposição.

A Grande jornada ficou exposta na Casa das Rosas, em São Paulo; na Casa Bô, no Porto, Portugal e na Can Vies, em Barcelona, Espanha.

Nina Cast por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Sinto que as gestações e os nascimentos do meu filho e da minha filha foram momentos decisivos. O primeiro me reconectou à experiência da criação, que eu julgava já perdida. E a segunda soprou tudo o que eu vinha produzindo nos últimos 7 anos para o mundo. Vejo muita semelhança nos processos de conceber, gestar, parir e criar. A arte é a minha criança mágica.

Nina Cast por Projeto Curadoria
Nina Cast por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu me inspiro muito em pessoas que promovem transformações, que subvertem padrões e que buscam autonomia em relação aos sistemas. Aqui, posso citar desde o santo Francisco de Assis, a psiquiatra Nise da Silveira, Frida (lógico), até Laerte e Liniker nos tempos atuais.

Mas também me comovem as guardiãs de tradições, como as tecelãs, fiandeiras, raizeiras, bruxas, parteiras e outras mulheres de conhecimento.

Falando em temas, a Permacultura, a pedagogia Waldorf (Antroposofia), a Física Quântica, Tarô e Psicologia Junguiana são livros que dividem o espaço nobre das minhas prateleiras.

Nina Cast por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Eu acho que esta foi uma das razões do meu bloqueio de dez anos: aquilo que é ou não adequado a uma mulher ser/viver/expressar. Curiosamente foi a mesma transgressão que trouxe visibilidade para o meu trabalho quando eu voltei a produzir e mostrar.

// E o que te faz feliz?

Filhos bem nutridos – no corpo e na alma, uma vida simples e com significado – e espaços na rotina pra manter aceso o fogo criativo.

Nina Cast por Projeto Curadoria
Nina Cast por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Generosidade e paciência com o artista interior. Dar-lhe tempo pra aprender, liberdade pra experimentar e ousadia pra expor o que merece ser exposto.

Eu tenho um livro do coração (na verdade, alguns, mas este é um dos meus favoritos) que se chama Cartas a um Jovem Poeta, do poeta Rainer Maria Rilke. O livro todo é uma grande inspiração pra quem cria, mas vou destacar um trecho pra responder a essa pergunta:

“Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.” - Rilke

Nina Cast por Projeto Curadoria
Nina Cast por Projeto Curadoria
Nina Cast por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Depois de muito tempo retratando a mim mesma na arte, senti vontade de começar a retratar outras pessoas. Em tempos de tanto falso moralismo rondando a arte e reprimindo a naturalidade dos nossos corpos, este é um trabalho que estou oferecendo como ação de resistência, beleza, liberdade e auto-estima: estou pegando encomendas para bordar nus personalizados.

Pra quem conhece a minha série "Voyeur", os trabalhos são no mesmo estilo. A partir de uma foto que a pessoa me envia, eu faço o desenho e o bordado. Quem se interessar pode me mandar um email ou inbox (no insta ou no face) pra saber valores e conversar um pouco melhor sobre como se dá esse processo.

Nina Cast por Projeto Curadoria

Fotos da obra A Grande Jornada por Fer D'Andrade

Fotos da exposição por Leo Ottero

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