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Nathalia
Canamary
Brasil
vivendo em Fortaleza . CE
33 anos . joalheira

Sou arquiteta, mas descobri na joalheria outra escala de trabalho e uma possibilidade de construir meus próprios projetos. Em 2012 estudei joalheria no Walka Studio, em Santiago do Chile, uma das principais escolas de joalheria contemporânea da América Latina e já comecei com o ateliê por lá, antes mesmo de voltar para Fortaleza. Em novembro completei 5 anos de ateliê.

Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Hoje trabalho 100% com joalheria.

No ateliê desenvolvemos joias com desenho contemporâneo usando principalmente prata ou ouro.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

O ateliê me deu uma enorme liberdade criativa e isso é muito libertador para quem antes estava acostumada a uma rotina de escritório de arquitetura. E ver que as pessoas curtem meu trabalho me motiva muito para seguir sempre criando algo novo e também pensando na relação que existe entre quem desenha/confecciona este objeto e quem compra/usa/apoia.

Acho que é inegável que eu tenho uma inspiração em arquitetura, pois faz parte da minha formação e das minhas principais referências.

Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Não tenho nenhuma regra, mas normalmente as peças são definidas mesmo é na bancada. Já houve uma época em que eu fazia o projeto das peças em Autocad, maquete 3D... mas fui vendo que quando eu levava esse projeto para a bancada ele ia se modificando bastante. Ficando muito mais interessante!

Hoje ainda faço maquetes, mas sempre físicas usando o material que estiver disponível no momento. Papel, arame, palitos de madeira, massa de modelar, latão, fios, cordas... algo que permita materializar ideias previamente antes de levar isso pra prata. Depois seguimos prototipando em prata. Geralmente cada peça tem mais uns 2 ou 3 protótipos em prata até chegar em um resultado final de tamanho, forma, espessura de chapa ou fio corretas, etc.

Por isso, a criação de uma coleção, é um processo bem demorado e que normalmente leva meses de trabalho.

Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Trabalho! Uma vez um professor no começo da faculdade disse que a inspiração só vem quando a gente está trabalhando... que se a gente acha que uma boa ideia surge quando a gente está de folga, na praia, pensando na vida... não vai dar certo!

Acho que eu tomei isso como uma verdade na minha vida. Quando quero criar uma coleção nova eu começo a trabalhar sem pensar muito sobre o que vai ser. E procuro me isolar um pouco. Ficar só em casa ou no ateliê, desligar o celular... E vou experimentando criar formas com alguns materiais como falei acima.

Até agora todas as minhas coleções surgiram assim.

Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

É difícil dizer. Eu tenho algumas peças preferidas de cada coleção. Gosto muito do Colar Mariposa, cuja ideia surgiu de um exercício na época do meu curso no Chile, mas que só foi finalizado anos depois.

E gosto muito também do Brinco Reflexo. Acho que pela maneira como ele foi pensado também. Ele surgiu de recortes e dobras em papeis e gosto porque o resultado final foi algo totalmente fora do óbvio e que não era algo que eu estava buscando, mas que foi surgindo aos poucos a cada tentativa.

Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Não tive um grande marco, mas sim vários pequenos marcos que foram definindo o que é o ateliê hoje. Para citar alguns deles:

- nosso primeiro Babado Coletivo

- a época que dei um curso de joalheria no ateliê

- quando consegui ter minha produção própria e não precisei mais terceirizar a confecção das peças

- as feiras que participei em são Paulo e no Rio (o Cluster, Paralela Gift, Craft Design, Feira Rosenbaum)

- quando criamos o Jardim de Oficios (é um evento criado por 7 marcas de amigos, que tem se tornado nosso evento preferido, pelas marcas, que são todas muito queridas, pelo local, que é num restaurante que eu adoro, e pelo público, que sempre nos prestigia muito)

- e agora! Os 5 anos do ateliê!

Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Gosto muito de vários arquitetos como o Paulo Mendes da Rocha, o Affonso Reidy e Alvaro Siza e escultores como Lygia Clark, Amilcar de Castro e os cearenses Haroldo Barroso e Sérvulo Esmeraldo.

Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Não sinto isso com meus clientes, mas já senti quando eu estava começando e que muitas vezes terceirizava parte da minha produção com alguns ourives, todos homens. A ourivesaria é uma atividade tradicionalmente feita por homens e envolve certa brutalidade em alguns processos. Acho que eles me viam e não acreditavam que eu era capaz de trabalhar com isso. Eu nunca era levada a sério por eles e esta era uma das minhas grandes dificuldades neste período. Depois eu fui conseguindo me organizar para ter minha produção própria e comecei a não depender mais da mão de obra deles.

Hoje ainda tenho contato com alguns deles e é ótimo ver como eles me respeitam, elogiam o meu trabalho e também me ajudam muito quando tem algo que eu ainda não sei fazer.

Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Ver o ateliê crescendo! Adoro quando estou usando alguma das minhas peças e alguém que não me conhece elogia e pergunta de onde é.

E adoro também ver alguém usando alguma das minhas peças por aí! É o maior sinal de reconhecimento.

Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
Nathalia Canamary por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Seguir a sua intuição e procurar fazer algo que realmente lhe represente. Que você tenha orgulho de dizer “fui eu que fiz!”. E também não ter pressa. Acho legal ir crescendo aos poucos, errando e acertando, vivendo um dia de cada vez.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho alguns, mas só gosto de falar quando se concretizam! Então, acho legal dizer só que sigam o Instagram do ateliê que estamos pensando em um monte de coisa legal para 2018!

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