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Naíma
Saleh
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
27 anos . ilustradora . jornalista

Sou paulistana, cresci no interior de São Paulo, em Campinas, e desde a faculdade voltei para a capital. Apesar de desenhar desde que me conheço por gente, me formei em jornalismo na USP e trabalho com revistas. Sempre quis fazer artes plásticas, mas não tive muito apoio. Como adoro a área da linguagem e da comunicação, decidi ser jornalista. Acho que meu trabalho artístico também está muito ligado à palavra e adoro a possibilidade de escrever – que é minha outra paixão – e poder ilustrar minhas próprias histórias. Pra mim, arte e comunicação são formações bem complementares.

Em 2014, quando comecei a frequentar as aulas da artista Catarina Gushiken é que comecei a criar a minha identidade visual e elaborar meus projetos artísticos. Antes, desenhava sem muita coesão e sem dar continuidade às ideias. Tem sido um grande crescimento.

Naíma Saleh por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Minha maior forma de expressão é o desenho. Gosto de usar aquarela e já trabalhei com guache também. Acho lindas as manchas, mas a base do meu trabalho são as linhas. Por isso me sinto mais à vontade com os materiais secos. Gosto do grafite mas, para soltar o traço, acho que não tem nada mais gostoso do que pastel ou carvão – que fazem aquela meleca danada, mas deliciosa. Ultimamente, tenho tentado misturar bordados e desenhos. Me sinto muito ligada a esse movimento de reconexão com o feminino e tem sido uma experiência interessante e emponderadora levar meus traços para o tecido.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minhas memórias de infância. Meu combustível para a criação são minhas saudades, meus afetos e também minhas experiências sensoriais. Sou muito ligada à cheiros, texturas, cores, temperaturas. Ao mar, ao sol, às plantas. Me inspiro em sentimentos, em pessoas, em lugares onde me sinto acolhida. Minha primeira série, de elefantes, foi um processo totalmente baseado nas minhas memórias afetivas. Esses animais eram muito simbólicos para a minha avó, uma pessoa à qual sempre fui muito ligada. Ela também era artista plástica e colecionava miniaturas de elefantes, dezenas e dezenas deles enfileirados por suas prateleiras de vidro. Depois que ela se despediu dessa existência, a coleção ficou para mim. Por muito tempo, falar dela me deixava muito triste e eu não conseguia segurar o choro. Era pesado e sofrido. Desenhar os elefantes foi a forma que eu encontrei de viver o luto. Eles me ajudaram a lidar com a dor da perda com mais leveza e transformar a tristeza em beleza.

Naíma Saleh por Projeto Curadoria
Naíma Saleh por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Sempre começa com alguma imagem que me vem à cabeça, que nem sempre surge muito definida. Tento buscar referências para tentar trazê-la para o papel, mas evito a obsessão de seguir à risca cada traço. Tento deixar o desenho mais aberto, para não ficar “engessado”. Sinto que os trabalhos que mais fluem são aqueles que começam bem despretensiosos. Quando sento para desenhar querendo fazer brotar alguma coisa incrível, travo. Então respiro, relaxo, me desapego e tento dar espaço para o desenho ir se mostrando sem botar muitas expectativas. É sempre um exercício de sair do controle. O que significa que nem sempre é fácil. Mas toda vez que me percebo tentando forçar uma figura e aquilo não sai de jeito nenhum, tomo outro rumo. Se o desenho não flui, se não é gostoso, se em vez de dar prazer vai provocando agonia, paro tudo.

Naíma Saleh por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Frequento uma vez por semana o ateliê da Catarina Gushiken, que é minha mestre e grande guia. São minhas três horas sagradas de dedicação ao que mais amo. Mas sinto que, durante a semana, como sou repórter em uma revista e tenho um volume de trabalho enorme, preciso encontrar momentos para me desligar dessa rotina e me reconectar com esse universo artístico. Faço yoga, o que me ajuda a serenar, e tento encontrar momentos de ócio, em que fico quietinha e consigo me perceber melhor. A solidão para mim é muito importante. Também leio muito. Nessa jornada de buscar o feminino, tenho encontrado autoras que me inspiram muito, como Elena Ferrante, Jumpa Lahiri... E isso também se reflete no que produzo. Outra ferramenta que ajuda a manter as ideias fluindo e enriquece demais o repertório é o Pinterest. Tenho muitas pastas e já descobri trabalhos e artistas incríveis por lá.

Naíma Saleh por Projeto Curadoria
Naíma Saleh por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Nossa, que difícil... Dos meus elefantes, os preferidos são o Florêncio, a Clarice e o Leveza. São os que me fazem sentir mais conectada à minha infância.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Depois de dois anos de trabalho no ateliê da Catarina, finalmente expus minha série de elefantes em uma mostra individual. Foi muito especial, porque representou o fechamento de um ciclo e me deu força para persistir com meus trabalhos.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tem muitos artistas que admiro. Tenho um crush pelos impressionistas, principalmente Degas e Toulouse Lautrec. Mas amo os contornos de Van Gogh, a maneira como o Klint retrata as figuras femininas e os abstracionismos de Miró e Kandinsky (principalmente os trabalhos da fase em que os dois pintaram juntos). Dos contemporâneos, acompanho a Paula Bonet, Conrad Roset e uma porção de ilustradores de livros infantis, como Odilon Moraes, Jean Alphen, Janaina Tokitaka, Eva Furnari, Quentin Grebáin, André Neves e Emily Hughes.

Naíma Saleh por Projeto Curadoria
Naíma Saleh por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Muito. De certa forma sinto que nossos esforços de expressão são sempre minimizados e que a beleza parece importar mais do que a mensagem que queremos transmitir. Mas estou bastante otimista. Vejo mulheres incríveis se juntando, unindo seus trabalhos e suas trajetórias artísticas por meio de coletivos. E isso é de uma beleza e de uma força sem fim.

// E o que te faz feliz?

Ter tempo para fazer o que eu amo. Quando eu desenho, sinto que me re-conecto comigo mesma, com a espiritualidade, é um tempo só meu.

Naíma Saleh por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Buscar aquilo que existe de autêntico, o que está na sua essência. O que destravou meu processo criativo depois de tentar começar vários trabalhos que não vingaram foi a série de elefantes, porque foi algo que veio de dentro, que eu fiz com todo o coração. Não adianta tentar fazer um desenho que seja esteticamente incrível se aquilo não estiver galgado em um sentimento genuíno. Pode ficar bonito, mas fica vazio.

Naíma Saleh por Projeto Curadoria
Naíma Saleh por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim! Fui para a Tailândia no ano passado e a viagem me despertou a vontade de desenhar casas e monumentos. Desde então, sou a louca dos desenhos de arquitetura e tenho me dedicado a pesquisar construções em vários lugares do mundo. As casas também têm tudo a ver com o momento que eu estou vivendo, estou para me casar. E as casas tem tudo a ver com construir um lar, um ninho. Eu mesma fiz meu convite de casamento, com essa ideia, e tenho me divertido fotografando e desenhando as fachadas. Quero que vire um livro.

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