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Milena
Affonso
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
19 anos . bordadeira

Me chamo Milena, tenho dezenove anos e moro em São Paulo desde que nasci. Estou tentando me encontrar ainda nesse mundo e isso me levanta um tanto de questões existencialistas.

Transformei meu quarto em escritório no ano passado a fim de criar um espaço todo feito com a cara do meu trabalho. Sou feminista desde que eu me lembro de ter começado a pensar.

Não imaginava que as piadas do bem de que eu viveria vendendo minhas artes na praia se concretizariam. Digo, no Instagram.

Comecei a bordar em junho de 2016. Meu ano favorito é 1968 e eu adoraria ter nascido mais ou menos em 1950 pra ter sido jovem nessa época.

Milena Affonso por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Gosto muito de escrever, embora tenha me afastado bastante disso ultimamente.

Hoje em dia o bordado é minha principal ferramenta de expressão. Embora nem sempre as encomendas que recebo exprimam aquilo que eu estou sentindo no momento. Tento buscar um tempo entre tudo isso para bordar temas que eu adoro, como o sagrado feminino e o feminismo no geral.

Milena Affonso por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Eu gostaria de ter mais inspirações na hora de criar. Lugares, pessoas, momentos, sentimentos. Acho que no momento, na falta de algumas dessas coisas, eu busco a imagem de coisas que eu ainda gostaria que acontecessem.

A ansiedade, ou talvez sua ausência, também são grandes aliadas na hora da inspiração. Digo isso porque talvez a ansiedade seja o empurrão pra começar, mas durante o processo, entrosamento e entrega com aquilo que é feito, ela some de uma forma quase mágica.

Normalmente na hora de criar sempre ouço alguma música que eu gosto. Não sei de que forma isso influencia no processo, mas dá um empurrão.

A maioria dos desenhos que viram bordados são feitos na madrugada. Existe alguma coisa na madrugada que me inspira. Talvez o silêncio, a solidão, o espaço…

Milena Affonso por Projeto Curadoria
Milena Affonso por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo não é nada muito organizado. Talvez essa seja uma das partes boas do trabalho mais livre. Não a falta de organização, mas a flexibilidade na hora de criar.

Quanto a criação do bordado em si, eu não consigo muito desenvolver em lugares públicos ou com outras pessoas me observando. Acho que é um momento de introspecção, calma, pausa.

Milena Affonso por Projeto Curadoria
Milena Affonso por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Talvez essa seja a parte mais difícil. Gosto sempre de ouvir música, assistir muitos filmes enquanto bordo, ler algumas poesias curtas que despertam aquele “eita”.

Me atentar à botânica do mundo também é importante. Gosto muito de usar referências de flores e plantas em todos os meus bordados.

Além disso, acho que o mais importante é conseguir ver poesia em tudo, por mais clichê que isso pareça. Quase como se nossa vida fosse um daqueles filmes com frases de efeito em que você provavelmente não vai conseguir entender algumas, mas mesmo assim não deixam de parecer inteligentes, bonitas e profundas. Ver poesia em tudo isso mantêm o peito em movimento, os sentimentos transitando.

Milena Affonso por Projeto Curadoria
Milena Affonso por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Às vezes, por conta da falta de tempo me sinto meio presa a algumas encomendas que podem não ser sobre a temática com que eu mais gosto de trabalhar, então meus trabalhos preferidos são aqueles que eu faço nos intervalos. Olhando lá dentro de mim e buscando o que rola pela minha cabeça na hora. Existem dois bordados que eu amo muito e foram feitos nesses momentos mais livres. O primeiro é um relacionado ao sagrado feminino, e o outro é a capa de um livro que eu adoro (cheio daqueles diálogos que nós amamos mas não entendemos muito bem de tão profundos), chamado “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”.

Milena Affonso por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O momento mais decisivo e díficil da minha vida foi no começo de 2016 quando saí do primeiro ano da faculdade por conta da síndrome do pânico. Por outro lado, foi exatamente isso que também me incentivou a aprender a bordar e olhar um pouco mais pra dentro de mim, com calma.

O mundo anda muito caótico, frenético, ansioso. O pânico foi o meu corpo e minha mente falando o quanto não aguentavam mais esse ritmo nada saudável.

A partir disso, o bordado se encaixou perfeitamente naquilo que eu queria pra mim. É um trabalho manual, terapêutico, poético, calmo, que abriu uma série de oportunidades e autoconhecimento.

Milena Affonso por Projeto Curadoria
Milena Affonso por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Gosto muito dos trabalhos da Giselle Quinto, Sarah Benning, Rachel Edler.

A Carolina Sobreira é uma artista que eu conheci há pouco tempo mas também adoro. Ela mistura xilogravura com bordado e o resultado é lindo!

No bordado as possibilidades são imensas, e acompanhar o trabalho dessas artistas é também ter uma noção dessas possibilidades. Sempre inovam no sentido de misturar o bordado livre com outras técnicas, como a xilogravura, a costura, a pintura. Isso dá um ânimo pra continuar a inovar e experimentar também.

Milena Affonso por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Ah, isso com certeza! Acho que em qualquer ferramenta de expressão isso acontece. A mulher se levantar e fazer com que o mundo ouça o que por tanto tempo ficou adormecido e reprimido, é um ato político.

No bordado eu sinto isso de uma outra forma, não com as artistas especificamente, já que a maioria dos nomes e referências dentro do bordado livre são mulheres, mas sim com o próprio meio de expressão, o ato de bordar. Como desde sempre o bordado foi e continua sendo uma atividade predominantemente feminina, continuamos lidando aí com uma desvalorização imensa do que fazemos. Mas bordado também é resistência, então continuamos bordando.

Existe um trecho de um livro que eu amo muito, chamado “Mulheres que correm com os lobos” da Clarissa Pinkola, que retrata muito bem essa questão do preconceito e resistência das mulheres nas artes, e se encaixa muito no ato de bordar.

"Minha própria geração, posterior à Segunda Guerra Mundial, cresceu numa época em que as mulheres eram infantilizadas e tratadas como propriedade. Elas eram mantidas como jardins sem cultivo... Mas felizmente sempre chegava alguma semente trazida pelo vento. Embora o que escrevessem fosse desautorizado, elas insistiam assim mesmo. Embora o que pintassem não recebesse reconhecimento, nutria a alma do mesmo jeito. As mulheres tinham de implorar pelos instrumentos e pelo espaço necessários às suas artes; e, se nenhum se apresentasse, elas abriam espaço em árvores, cavernas, bosques e armários.”

Milena Affonso por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

O que me faz feliz é saber que eu tenho muitas possibilidades. A gravidez de futuro me encanta.

Saber que ainda existe muita água pra rolar, muitos projetos pra concretizar.

No momento eu me sinto muito bem no lugar onde eu estou, mas me agrada também saber que daqui um tempo eu posso estar fazendo coisas totalmente diferentes e não relacionadas ao que eu faço agora, e tudo bem.

Milena Affonso por Projeto Curadoria
Milena Affonso por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Eu diria que a coisa mais essencial é nos apegarmos umas às outras. Eu sinto um orgulho imenso de ver essa rede de mulheres que vem se formando. São mulheres apoiando, comprando, divulgando outras mulheres, sem nenhum interesse além de ver o crescimento da outra.

Acho que isso é a solução, o apoio.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Meu novo projeto é começar a me preparar pra dar oficinas. Tenho muita vontade de trocar figurinhas com pessoas que compartilham da mesma paixão por bordado, assim como eu.

Milena Affonso por Projeto Curadoria
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