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Melissa
Gomes Baltazar
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
38 anos . designer . artista

Meu nome é Melissa Gomes Baltazar, tenho 38 anos e curto desenhar desde pequena, mas na adolescência parei e voltei só ano passado após uma síndrome do pânico que veio pra ressignificar várias coisas na minha vida.

Eu fiz faculdade de Desenho Industrial,  projeto de produto, que foi o mais próximo do desenho que consegui pensar que poderia me trazer uma segurança financeira. Fiz também uma pós em gestão de desenvolvimento de produto. Sempre trabalhei no mercado esportivo, principalmente de skate porque era umas das coisas que eu gostava na adolescência, que foi quando comecei a entrar em contato com música e arte. Comecei trabalhando em lojas, estagiei no estúdio de uma das marcas como designer e depois de terminar a faculdade em Curitiba decidi me mudar pra São Paulo. Estou aqui há 12 anos e nos últimos 7 anos trabalhei  como gestora de uma equipe de designers supervisionando o processo de desenvolvimento de tênis esportivos (de skate também) da criação até a fase do protótipo. Foi super importante, aprendi e viajei muito até que em abril do ano passado tive minha primeira crise em uma viagem para China. Foi ali onde tudo começou a mudar. Larguei o emprego e há 6 meses estou freelando e me dedicando aos meus projetos.

Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Gosto de lápis, caneta, nanquim, pastel, aquarela, guache e papel.

Tenho muita vontade de pintar com óleo, que tive contato quando criança, mas ainda não me arrisquei. Não sou muito fã de computador, mas sinto que em alguns casos vou precisar dele para trabalhar.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A Síndrome do Pânico me deixou bem perdida durante um tempo. O processo de terapia, de descobrir as coisas que eu gostava, trouxe o desenho de volta pra minha vida. Sinto vontade de desenhar, uma vontade constante, algo que vem de dentro, que não tem muita explicação, mas que tem me servido como ferramenta de autoconhecimento. Tinha muita coisa abafada, sem voz, em mim. Como se eu estivesse apenas seguindo um fluxo sem questionar.

O lance dos corpos tem muito a ver com esse "descobrimento". Um corpo nu se despe de tudo, de qualquer "indumentária", crença,  "verdade"; no fim você tem que se sentir confortável dentro da própria pele. Dança, corpo e natureza me inspiram. Viajar também. Tudo nesse grande movimento de buscar as coisas que servem pra mim, nesse momento.

Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Eu estou aprendendo a observar. Fiz aulas de desenhos de observação nesse processo de volta que me ajudam bastante. E aí assisto vídeo, pesquiso fotos, filmes de dança, coisas ligadas a movimento e corpo. Presto atenção na minha prática de yoga também. Pra sentir o corpo, afinar a consciência corporal. Tenho buscado bastante literatura com tema corpo também.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu tento deixar espaço para o vazio. Pro "nada", fazer pausas, deixar o novo entrar. Ando de bicicleta, medito, viajo quando posso. Tentar quebrar a rotina, aquela distância boa pra ver as coisas de "fora". Tomo cerveja, pratico yoga, vou pra praça deitar na grama… desligar do mundo pra poder me conectar comigo. Sinto que é um lance constante, tem que ficar atento porque é muito estímulo externo, é fácil se perder. As responsabilidades, a rotina, o trabalho mecânico, a vida na cidade me afasta um pouco da criatividade.

Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Eu não tenho muitos né. Eu comecei há 1 ano e meio, mas só depois de sair do trabalho, que desenhar se tornou uma prática diária. Eu gosto do projeto que mistura linhas de corpos em caneta nanquim com frutas em aquarela. Gostei muito de ilustrar um livro de poemas. Achei bem desafiador porque não são só corpos ou frutas, coisas que costumo desenhar. Tem sketches de cidade e outras coisas. Gosto bastante do que sai das aulas de desenho de observação. Um tempo determinado e não planejar o desenho antes é um bom exercício pra “soltar”.  Tenho experimentado aplicar os desenhos em outras superfícies que não sejam papel, tem sido bem legal.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Em 2008 eu passei 3 meses em Londres. Foi um respiro importante porque eu sempre trabalhei desde adolescente, às vezes freelando junto também. Nesses 3 meses eu só estudei e viajei e isso me ajudou a ver as coisas de outra maneira. Acabei fazendo alguns cursos complementares, mas era sempre algum curso voltado pra arte. Não desenhava mas estudava arte, me relaxava. Cheguei a  começar uma pós de restauro e conservação mas tranquei na metade porque trabalhava bastante e não sobrava tempo suficiente pra me dedicar. Depois disso foi a crise, uma Síndrome do Pânico em 2016 sinalizando que o que eu fazia já não era mais pra mim… e foi aí onde tudo mudou.

Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Nossa, é difícil falar sobre porque são tantos. Eu gosto muito do Matisse. O lance da abstração, dos poucos traços, as formas e recortes que passam tanta coisa.  Eu tenho um lance de fazer poucas linhas e tentar dar movimento, um sentimento ao corpo. Louise Bourgeois, Carol Rama, Georgia O’Keeffe, Helen Frankenthaler, Elaine de Kooning pelos temas e técnicas. E por serem mulheres fortes, que não tem medo de se expressar. Vi uma exposição esse ano da Carol Rama e fiquei emocionada. Gosto dos grandes artistas que utilizam corpo como tema: Toulouse- Lautrec, Schiele, Degas, Picasso, Hopper, Rodin, Kirchner, Modigliani, Klimt, Pascin, Balthus, Magritte… tem gente nessa lista hein!. A Thany Sanches, que foi minha professora de desenho de observação e hoje é amiga, foi muito importante no meu processo de desenho.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim, com certeza. A quantidade de mulheres que eu citei em relação aos homens, por exemplo. É só você pegar um livro de história da arte e ver quantas mulheres aparecem. Entra em museu, numa galeria pra fazer a comparação. Quase chorei esse ano no New Museum que de 4 andares 3 eram exposição solo de mulheres. Ruim ser dessa maneira, achar incrível algo que deveria ser normal. Eu ainda não sei dizer como experiência pessoal porque é tudo muito recente, mas é evidente pelo contexto histórico mesmo.

Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Desenhar? Hahaha. Viajar, andar de bicicleta, estar perto do mar ou da floresta… meus gatos, meus amigos e família... quando consigo um resultado novo no meu desenho… quando aprendo algo novo. Quando recebo um abraço longo e tenho conversas profundas. Acho que tudo que acalma o coração me faz feliz. Me ouvir e respeitar minhas escolhas me faz feliz. E não é fácil..

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Faça. Não tenha medo. Vai e faz, independente do outro. Você faz pra você, tem gente que vai curtir e tem gente que não vai, como tudo na vida.  Veja os trabalhos de outros artistas, ser curioso é importante, mas sem comparação ou julgamentos. Acho que mais importante é buscar uma conexão consigo mesmo… que aí a criação flui.

Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
Melissa Gomes Baltazar por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Eu posto meus desenhos no Instagram e acabo comercializando por lá.

O livro de poemas da Jessica Wilson, The Bulldog and the Hummingbird está na fase final. Até novembro deve sair uma linha de objetos de madeira que eu desenhei a mão em parceria com Green Mind. Em novembro também sai uma linha de porcelanas desenhadas a mão e pins em parceria com a Olivato Cozinha. Também estou conversando com uma marca de cerâmicas de Curitiba e uma de shape de skate de Manaus, vamos ver...

Pretendo buscar mais parcerias, explorar os desenhos em outras superfícies. Também gostaria muito de ilustrar mais livros. Mandem jobs... hahaha...

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