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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Marina
Guzzo
Brasil
vivendo entre São Paulo e Santos . SP
39 anos . artista

Sou artista e pesquisadora das artes do corpo, chamo assim a mistura que faço com a dança, o circo e a performance. Trabalho na Universidade Federal de São Paulo, no Campus Baixada Santista, dou aulas, escrevo textos e crio intervenções urbanas com meus alunos e comunidades. Tenho dois filhos pequenos que mudaram muito a minha relação com o corpo, com a cidade e com a natureza. Depois de parir, me senti mais bicho, muito mais corajosa. Mas novos medos vieram: ser mãe e mulher nesse mundo tão violento, em destruição, colapsado! Estou interessada em como a arte pode nos ajudar a transformar a sensibilidade em relação a nós mesmos e aos outros. Gaia é uma mulher.  Acredito que a arte tem uma potência política muito grande; primeiro de despertar a presença e o pensamento sobre a diversidade, depois de despertar espaços e rituais comuns, onde a gente encontra outras pessoas e faz coisas juntos para criar sentido para nossa existência. Gosto de fazer processos criativos que envolvam pessoas, comunidades, objetos e espaços para mudarmos as hierarquias, os usos e a própria ocupação urbana. Quero poder dançar sempre. Fico muito feliz quando estou dançando e também quando estou perto do mar.

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

O corpo em movimento. O corpo em sua relação com outros corpos, com o espaço e com objetos. Comunidades, grupos, cidades que dançam.

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Me motiva a potência que a arte, especialmente as artes vivas, que usam o corpo como forma de expressão, têm de transformar as pessoas e as comunidades. Tanto quem faz, como quem assiste. O que a gente consegue fazer juntos aqui e agora? Como pensar em outros mundos possíveis? Outros corpos possíveis? O mistério da vida é minha maior inspiração, a natureza e sua beleza e caos, nossa finitude e eterna renovação. O que pode um corpo? Como produzir sentido para nossa existência aqui nesse planeta? Essas perguntas sempre estão no meu trabalho.

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo acontece com o corpo em movimento. Existem momentos distintos do processo de criação. Trabalho às vezes, numa sala com espaço amplo, chão confortável, às vezes numa rua deserta com chão muito instável. Trabalho sozinha e com um grupo de pessoas. A partir dos encontros vou formando imagens, que alimentam outras pesquisas, que por sua vez, alimentam o corpo com mais movimentos. E assim, vamos criando perguntas, problemas e questões para serem respondidas com o corpo. Às vezes movendo, às vezes parando. A cidade também sempre está presente, então em algum momento a gente sempre vai para rua, propor esses exercícios para/com as pessoas, nas praças, na praia, ou em equipamentos culturais.

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Estou perto da natureza. Sempre observo o céu, os ventos, a chuva, as plantas, o mar. A natureza é minha maior inspiração de “ação criativa”. Mesmo vivendo numa área urbana, num jardim, você pode ver situações complexas sendo resolvidas, envolvendo formigas, plantas e outros seres pequenos. Acho mágico a transformação que vem da terra, do céu. O que estamos vendo agora, com o aquecimento global, mesmo em desequilíbrio, a natureza vai se resolvendo – com fúria às vezes, com destruição. Viajar é um jeito de me manter criativa. Também sempre leio, assisto filmes, peças e outros coreógrafos – mas com filhos pequenos fica difícil acompanhar tudo.... Exposições sempre são muito inspiradoras e consigo levar as crianças, que adoram. Também procuro conversar com as pessoas, e sempre me perder na cidade. Observo muito as pessoas na cidade. Como elas andam, o que estão vestindo, o que fazem. Também faço aula de dança: flamenco, afro, balé, tudo que pode fazer meu corpo pensar e suar.

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Meu projeto preferido é o que estou fazendo agora. Ele carrega todos os outros projetos que eu fiz, os encontros, as memórias e tudo que aprendi.

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O Projeto 100 lugares para dançar foi um marco importante, porque trabalhei com muita gente querida, conheci muitos artistas especiais que seguem comigo até hoje e entendi que meu lugar de criação era em diálogo permanente com a cidade e com a natureza. Também foi um projeto que circulou bastante, chegou para muita gente, e me ajudou a posicionar minha criação como artista da cidade de Santos, SP.

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Me inspira o corpo brincante da cultura popular afro-brasileira. Me influencia o corpo em festa na rua, que dança, toca, canta e se enfeita para celebrar a vida, para produzir sentido. Me influencio muito pela Ligia Clark, Lygia Pape, Helio Oiticica a mistura da performance e das artes visuais, do corpo-obra-viva, pela brasilidade e ação política que os trabalhos tiveram/têm. A Lia Rodrigues é uma inspiração para mim, uma referência de dança, afeto e política. A Trisha Brown me ajuda sempre a pensar o corpo na cidade, o espaço urbano. A Marina Abramovic quando era jovem, me ajuda a alargar a presença do corpo. A Pina Bausch, é sempre um norte poético e delicado. O Marcelo Evelin, sempre um sul potente e transformador. E sempre me inspiro muito nos meus amigos artistas, que vivem todo dia do meu lado fazendo e vivendo de arte nesse país! Tem muita gente na minha geração que me inspira.... nossa é tanta gente, não cabe aqui.

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim, a gente vive numa sociedade machista, misógina e preconceituosa. Passei a sentir mais isso quando tive filhos. O peso de ser mulher, de trabalhar e conseguir estar potente nesse mundo masculino, com filhos ou sem filhos, é muito grande para mulher. A maioria dos lugares ainda são ocupados por homens. A grande maioria das “negociações” e curadorias são feitas por homens. Na dança, em muitos festivais ainda vemos mais trabalhos apresentados por coreógrafos e diretores homens. Na universidade não é diferente. Também existe o machismo, e “os grandes cientistas”, conhecidos, admirados e apoiados ainda são homens. Vai demorar um tempo para gente mudar isso, mas podemos começar apoiando sempre uma mulher, uma mãe a empreender qualquer ação: seja artística ou política. Que mulher você apoia?

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Conseguir estar presente. Conseguir ouvir, aceitar e agradecer as situações que a vida apresenta. Com a presença é possível ter liberdade de ser quem eu sou, ser íntegra com meus desejos e com meu jeito de fazer as coisas e ver que eles resultam em coisas importantes para outras pessoas. Estar presente com outras pessoas também me faz feliz! Dançar é um jeito de estar presente.

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Realizar com o que se tem e apesar do que se tem. Às vezes a gente acha que para fazer alguma coisa especial e criativa a gente precisa de muito dinheiro, muito espaço ou reconhecimento. É claro que é muito bom e necessário ter tudo isso, mas muitas criações podem acontecer no meio de uma situação precária e não tão ideal. Deixar-se surpreender pela atividade, pelo engajamento no fazer é muito especial. Encontrar pessoas, formar redes de apoio que possam te ajudar a realizar as criações é fundamental para transformar o próprio mercado da arte.

Marina Guzzo por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou criando mais um trabalho para espaços públicos, chamado Celeste – cosmologia de um salto. Vamos fazer uma residência no Centro de Referência da Dança em São Paulo. É um trabalho sobre o salto como gesto de transformação do corpo. Passamos por um momento muito difícil e desanimador no Brasil, pessoalmente enfrentei diversas dificuldades no último ano e sei de muitas pessoas com dificuldades também, o cenário do nosso país parece cada vez mais catastrófico. Me vejo num campo de pedras, pesadas, imóveis e intransponíveis. Então, resolvi encarar essas pedras e ver como podemos movê-las. A referencia do trabalho é o livro “A queda do céu” do Davi Kopenawa, que acredito todos devemos ler e estudar no Brasil. Tem que ser obrigatório na escola!!! Outra referencia é o cineasta chileno Patricio Guzmán e seu filme “Nostalgia da Luz”. Celeste é para tentar criar o encantamento, mesmo diante de tanta adversidade. Saltar é muito libertador, engaja o corpo em uma transformação enorme, deixa a gente presente, em outro estado corporal.

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