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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Marina
Costa Henry
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
31 anos . ilustradora

Me formei em Moda na Faculdade Santa Marcelina e depois disso fiz pós-graduação na França em Marketing de Moda. Assim que voltei pro Brasil, larguei tudo para virar ilustradora e designer, pois me vi desinteressada por um mercado no qual não sentia que me encaixava. Depois de alguns anos freelando, criei o Atelier Terrarosa, que não é um lugar físico, mas é onde eu tenho espaço: espaço para criar, para inventar e para aprender. Hoje desenvolvo principalmente papelaria e ilustrações, mas não é um foco fechado apenas nisso. Acredito que trabalhar nada mais é do que uma chance de escancarar nossa relação com o outro, e se a gente tem a calma pra observar isso, qualquer atividade é um poço de riqueza. Minha trajetória como profissional é uma constante busca por esse desenvolvimento de algo mais profundo, um caminho para o questionamento interno. Criar coisas belas no processo é apenas a cereja do bolo!

Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

No ateliê minhas ferramentas são muitas e variadas. As básicas são papel, aquarela, lápis de cor, guache... mas no quesito materiais, não me limito. Tenho sempre em mãos muitos tipos de tintas, papéis, tecidos, e conforme o projeto, posso ir inventando o que fazer com cada coisa. Sou daquelas que guarda um pedaço de tecido, ou um ramo de flor seca e penso: “um dia vai me servir pra algo” e isso realmente acontece, cai como uma luva em algum projeto. Adoro ter essa liberdade.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Meu desejo de criar é sempre voltado para coisas que remetam ao aspecto simples e preciso da natureza, como se as coisas fossem tão perfeitas que não há nada nela para refazer ou arrumar. Tento imitar isso criando uma estética que seja bela pela sua simplicidade e delicadeza. Me encanta a força que existe nas sutilezas, no intangível, e no que é singelo e espontâneo – como a presença inabalável de uma árvore, a graça de uma flor que nasceu na rachadura da calçada, a existência sem complicações dos animais. São coisas perfeitas simplesmente por serem o que são.

Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Amo rituais. Para criar, no dia-a-dia, eu faço um café, coloco uma música gostosa e entro no Pinterest. Não sou de ficar horas fazendo esboços ou procurando uma forma, bem pelo contrário; faço alguns rabiscos, paro, vou fazer outra coisa e quando volto geralmente me dou conta de que o primeiro esboço era o mais legal. Acho que porque é o mais espontâneo – os que vêm em seguida já estão muito impregnados por uma busca pelo resultado ideal, são muito forçados. Não tem a mesma liberdade do primeiro. E o engraçado é que raramente acho que consigo captar essa mesma espontaneidade na arte final.

Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Começo o dia tomando um café da manhã calmo, lendo um livro. Minha lista de coisas a fazer pode estar super longa, mas tento sempre começar o dia assim. Entendi ao longo dos anos trabalhando sozinha que respirar e manter a mente tranquila, e não desesperada com as milhões de coisas pra fazer, é o mais importante para ter um dia produtivo ou criativo. Tem que surgir uma certa confiança no ritmo da vida, não forçar a barra. Quando estou com a mente muito agitada é exatamente quando nada funciona, a inspiração não vem, as coisas não se resolvem. E dai fica ainda mais difícil achar esse ritmo natural, onde as coisas fluem sem esforço.

Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

São aqueles em que sinto que houve uma troca legal com quem encomendou o projeto – a cliente me deu o presente da inspiração e do desafio, e me motivou a criar algo no qual sozinha eu não teria pensado. Confesso que minha tendência natural é preferir trabalhar sozinha (talvez por ser filha única), mas a verdade é que, convenhamos, artistas são muito autocentrados, e abrir o escopo do nosso trabalho, tirar ele do campo exclusivamente pessoal, é enriquecedor, apesar de desafiante. Demorei pra entender isso. Mas, claro, acho importante ter um equilíbrio entre o trabalho puramente pessoal e o comissionado.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

A própria criação do atelier é o fruto de uma mudança profunda na minha relação com o trabalho. Na época, meados de 2016, estava freelando há 3 anos, e me sentindo esgotada emocionalmente, trabalhando demais, em projetos que não me traziam alegria. Decidi fazer uma pausa de 2 meses pra conseguir enxergar melhor a situação. Passei uma semana sozinha no mato, respirando e me dando um tempo. De volta a São Paulo, entendi algo essencial: me sentia exausta porque até então deixava o mundo dizer como eu tinha que trabalhar e criar, me sentia uma vítima das circunstâncias. Estava levando o olhar do outro muito a sério, sendo que ninguém estava me obrigando a nada. Compreendi que se a maneira como eu sonhava trabalhar não existia, então eu deveria criá-la. Mais do que isso, era até uma obrigação, pois nada muda se a gente não tiver a coragem de realmente colocar uma nova visão em prática, por mais que o senso comum diga que não vai dar certo. Então eu criei o mundo que acredito, voltando a valorizar a importância do tempo, do trabalho artesanal, das relações. Por trás de qualquer negócio há alguém, e não uma máquina. Queria escancarar isso assumindo os riscos, a possibilidade de erro, de atraso, de inconsistência, tudo o que o mundo plástico de hoje tenta enfiar debaixo do tapete, quando ignora que qualquer empresa é feita de pessoas, que pessoas são vidas e que a vida é imprevisível, mutável e incontrolável. Essa simples mudança de mindset foi um divisor de águas, quando eu realmente entendi como meu trabalho poderia trazer algum benefício geral, e não apenas mera realização pessoal.

Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Inspiração pode vir de qualquer lugar. Mas falando de pessoas que estão no mesmo ramo que eu, adoro o trabalho das ilustradoras Rebecca Green, Anette Marnat, Teagan White, Genevieve Godebout, Lily Seika Jones (essa última recém descoberta – estou apaixonada pelo trabalho dela), e muitas outras (curiosamente todas mulheres!). Ver trabalhos tão ricos e inspiradores fazem minha mão coçar pra sentar e desenhar, me estimulam, dão ideias... Amo também arte Pré-Rafaelita especialmente do pintor John William Waterhouse. E na papelaria, há muitas mulheres talentosíssimas fazendo trabalhos incríveis: Shasta Bell, Michaela McBride, Tara Spenser, Paula Lee são algumas que admiro.

Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Nossa intuição, nossa necessidade de fases e ciclos, nosso poder de ser mãe, ainda são sistematicamente ignorados em quase tudo que engloba áreas consideradas importantes para "fazer o mundo girar". Há claramente um desequilíbrio nessa equação. Vez ou outra me deparo com alguém que considere menos importantes mulheres que decidiram trabalhar em um ritmo que respeita a si mesma, apesar da coragem que essa decisão exige. Minha escolha pessoal é lidar com isso mais na ação e menos no apontar de dedos, pois acho que o buraco é mais embaixo: falta compaixão em todos os gêneros. Acredito que o importante seja se conhecer, ter confiança no nosso papel – que é tão importante quanto o de qualquer outro ser deste planeta – e seguir fazendo o que fazemos. Isso vale pra qualquer gênero, idade, e meio, seja corporativo, artístico, político... Acho que o que vai mudar o mundo é ampliar a compaixão sem distinções, e agir a partir daí.

Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Achar a liberdade presente em qualquer situação.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Ouça mais o coração do que a cabeça. Tudo o que é belo, original e livre vem de um lugar sutil onde a ponderação excessiva só atrapalha. Portanto se conheça, pra poder gerar a confiança de que todas as suas ações fluam daí, e não das histórias bobas e limitantes que a gente cria pra nós mesmas. Ah, e importantíssimo: não deposite no outro a responsabilidade por seus problemas. O outro é apenas um espelho.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Hoje faço tudo sob encomenda, mas queria muito produzir um trabalho mais autoral, uma linha de papelaria e prints prontos. Isso está no forno há muito tempo, estou demorando pra colocar em prática. Mas sei que a hora que tiver de sair, sai. Tudo no seu tempo.

Marina Costa Henry por Projeto Curadoria
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