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Mariana
Marques
Brasil
vivendo em São Bernardo do Campo . SP
24 anos . artista

Embora nascida na cidade de São Paulo, minha vida foi cheia de mudanças de endereço e, também, repleta de caderninhos de esboços.

Entre visitas frequentes ao Museu do Ipiranga e ao Museu de Zoologia, desenvolvi um hábito que jamais me abandonou: o desenho. Me lembro, quando aos 9 anos, peguei pela primeira vez uma resma de papéis sulfite e um lápis nº2 em mãos e imergi nas belezas e confortos do meu próprio mundo. Na época, com desenhos infantis e rudimentares, já me refugiava da realidade de uma vida que rapidamente se enchia de durezas: copiando desenhos de revistas e almanaques, retratos de mulheres e animais fantásticos.

Em meio a tantas inconstâncias, eu tinha apenas uma certeza na minha mente: a de que eu queria desenhar para sempre.

Na adolescência - diferentemente de outros sonhos e idealizações - essa certeza não passou, nem mesmo se diluiu. Agora com maior independência, decidi buscar um conhecimento mais formal sobre o desenho. Foi assim que me matriculei, pela primeira vez em um curso artístico. Um ato tão simples que mudou minha vida tão profundamente.

Agora, saía das aulas às sextas-feiras, não apenas munida de lápis, papel e curiosidade, mas também de técnicas e novas percepções. De lápis e mente afiados, me sentia cada vez mais confiante na minha busca por capturar a alma, expressão e trejeitos de quem eu representava.

A faculdade de Artes Visuais foi - entre muitas coisas - um processo que deixou minha mente mais aberta em relação a diferentes formas de expressão. Ver o sistemas por dentro, me fez refletir e, aos poucos, ir afrouxando a rigidez acadêmica e me permitindo que me focasse nas minhas criações próprias.

Agora aos 24 anos, voltei com intensidade renovada para aquilo que nunca me deixou. Acho que em algumas pessoas, a arte é tão latente que faz falta física - me vejo como uma dessas pessoas - então agora eu a deixo fluir, não para os outros, mas pra mim mesma. Vale a pena.

Mariana Marques por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

As minhas produções atualmente são inteiramente voltadas para o desenho. Meu sketchbook e lapiseira são os companheiros que levo para qualquer lugar, mas também tenho pequenas experimentações com lápis de cor, aquarela, carvão e giz pastel.

Mariana Marques por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Passei por alguns períodos difíceis lutando contra a Fibromialgia e a Depressão que me afetou desde criança. E meus trabalhos sempre foram um escape para os problemas que enfrento, precisava fugir da realidade sem perceber que tudo isso me deixava mais forte.

É bom poder dizer que, nos últimos anos, tenho percebido um deslocamento da fuga e tristeza. Desenhar, para mim, se tornou um motivo de intensa alegria, todo o processo criativo: observar e procurar por referências tem se tornado uma parte orgânica de meus dias e o momento que as coloco em prática é o ápice. Eu extravaso e transbordo no papel toda a dor física e o cansaço e em seu lugar acolho amor e sonhos.

Mariana Marques por Projeto Curadoria
Mariana Marques por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo é uma bagunça, estou sempre rascunhando alguma coisa e tenho um imenso acúmulo de papéis que vão desde sulfites a guardanapos. As ideias para meu trabalho vêm de imagens, trechos de livros ou até pessoas que passam na rua. Estou sempre bolando alguma ideia na minha cabeça e uma coleção enorme de projetos inacabados que nunca mais olharei.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Algum tempo atrás, tinha muita dificuldade em realizar criações inovadoras, me estagnando no campo do hiper-realismo. Foi conhecendo outros artistas, indo para a rua e museus que consegui me desvencilhar das limitações impostas pela minha visão estreita. Foi um processo difícil, me abrir para o externo, absorver novas referências e desenvolver uma criação própria; tudo isso me fez perceber que o pensamento criativo pode ser desenvolvido por treino. Os desafios semanais do Coletivo Cósmico me forçam a pensar fora da caixa, se não tenho ideias peço conselhos e vou aplicando meu próprio raciocínio.

Mariana Marques por Projeto Curadoria
Mariana Marques por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Eu tenho bastante apreço pelos meus trabalhos mais recentes por causa da liberdade e da permissão em demonstrar meus sentimentos e vulnerabilidades. Apesar disso, todos eles contam algo sobre mim, as mudanças positivas e negativas que passei. Por gostar mais dos meus trabalhos pessoais, os desenhos que estão em meu sketchbook são os que mais me identifico, trabalhando neles às vezes por semanas até que fiquem prontos.

Mariana Marques por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acredito que minha carreira ainda não teve um momento a ser chamado de marco justamente pela falta de solidez dela. Meu trabalho artístico funciona paralelamente à outra ocupação profissional, então tenho o tempo de produção um pouco reduzido. Contudo a intenção é me dedicar mais nos fins de semana a aparecer em feiras, e produzir conteúdo junto ao Coletivo.

Mariana Marques por Projeto Curadoria
Mariana Marques por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Minhas primeiras influências vieram da arte clássica, o Renascimento Cultural é um de meus períodos favoritos na História da Arte e treinei muito realizando estudos de Boticelli, Da Vinci e Michelangelo. Dentre os movimentos de arte, também me encantam o Impressionismo e Art Nouveau, minha maior paixão é o quadro “O Beijo” de Klimt.

Já na atualidade, é difícil escolher apenas um punhado de artistas para chamar de favoritos, a internet abrindo possibilidade de exposição pra pessoas de todo o lugar do mundo, mas devo dizer entre meus favoritos estão Chiara Bautista, Fernanda Suarez, Qinni e Gabriel Picolo.

Efetivamente, os maiores reflexos no meu trabalho ocorrem pela Camila Visentainer, Daniella Salamão e Natalia Ferrer - o Coletivo Cósmico, que além de serem fontes de propostas, ideias e conselhos, são artistas com identidades únicas e mulheres inspiradoras.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim, infelizmente sempre fui bastante criticada por estar extremamente distante do ideal de feminino doce e quieto. Falo o que penso de forma sincera e direta e isso intimida bastante os outros. Além disso, por ter o cabelo curto e gostar de usar roupas mais largas, uma superior falou diversas vezes que eu parecia um “machinho”, fico feliz em afirmar que isso nunca me fez mudar.

// E o que te faz feliz?

São as coisas simples e infinitamente belas como conversas ao redor de uma mesa, tardes calmas no parque e andar na beira da praia. Fico feliz pelos amigos que tenho ao meu lado, pelo conforto e risadas, rodas de jogo e de desenho. Gosto de bons livros, de andar devagar no interior de museus e sorrisos da pessoa amada.

Mariana Marques por Projeto Curadoria
Mariana Marques por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Minha dica sobre criação é: não existe certo e errado no campo artístico. Existem muitas formas de expressão e o primeiro passo para criticar um trabalho é compreendê-lo, entender os conceitos e sentimentos envolvidos na produção de uma obra.

Acredite em seu potencial como artista e independentemente de qual for sua forma de expressão aceite críticas construtivas, mas seja fiel a sua identidade e a seus pontos de vista. Arte se trata principalmente de uma representação pessoal, conectadas a seus sentimentos e trajetória.

Mariana Marques por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sempre fui uma pessoa que acreditava que era melhor trabalhar sozinha, mas mudei meu pensamento quando fui acolhida pelas meninas do Coletivo Cósmico. A realização dos desafios semanais me ajuda bastante a provocar barreiras e trazer criações dignas do grupo. É também através dele, que procuro ajuda para me introduzir no circuito das feiras de artes, das quais sempre quis muito participar.

Também com o Coletivo, para 2018 a intenção é apresentar um projeto físico experimental que ainda está sendo desenvolvido, mas que lidaria com os conceitos de desafios e com apoio à artistas de pouca visibilidade, acessibilidade e interação com os seguidores virtuais.

Mariana Marques por Projeto Curadoria
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