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Mariana
Kuroyama
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
34 anos . ilustradora . tatuadora

Acho que posso começar dizendo que desenho desde criança, e isso é bem marcante para mim. Por causa dos meus pais, cresci bem próximo a natureza, praias, trilhas e cachoeiras. Vivo uma vida com alguns momentos nômades. Nasci em Brasília, morei no RJ, depois em Fortaleza até finalmente vir para Sampa, onde fiz amigos maravilhosos. Outra coisa que me define, provavelmente por conta dessas mudanças todas, é que gosto de viajar e conhecer o mundo, seus povos e culturas.

As lembranças a respeito do meu self estão intrinsecamente envolvidas com a prática do desenho e com a leveza do brincar no ambiente natural com seus seres e sons. Lembro de subir e me aconchegar em árvores para ficar lendo e desenhando, ficava horas sem medo algum. Num dado momento da vida senti um chamado para vivenciar e estudar a espiritualidade e isso também diz muito de mim. Essas três forças juntas, a arte com sua possibilidade de criação; a natureza do nosso organismo no organismo terrestre (e todo o seu contexto cósmico); e a espiritualidade para mim são a base da vida humana. A espiritualidade considero algo simples e que para mim culmina no amor. Eu compreendi que o divino não é algo fora de nós, lá longe no alto, mas que brota também de dentro para que possamos compreender algo possivelmente “maior”, o cosmos e seus ciclos, por assim dizer.

Cheguei na conclusão que a matéria é espiritual e que a experiência do viver por si só é sagrada. O templo é o presente, é a casa, a comunidade, são as relações. Cada atitude e palavra contam. Procuro não dissociar-me de Deus, seja lá o que Deus seja, verdadeiramente. Me sinto em constante transformação e compreensão dessa experiência que é o viver e a busca por uma conexão cada vez mais natural. Sinto que tudo isso é ou está interligado, que a espiritualidade brotou da relação com a natureza, o que me fez naturalmente querer, como ela, criar.

Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Sou tatuadora, pinto aquarelas e faço ilustrações, mas já pintei paredes e fiz até vestidos de noiva pintados e bordados a mão.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

O outro me motiva, a reação das pessoas diante da arte. Diferentes estudos de auto-conhecimento, geometria sagrada, o oriente, os indígenas me inspiram; as pessoas e o universo em cada um, a troca, alegria, amizade, carinho e amor são fundamentais na motivação. Estudar culturas diferentes, suas artes, tentar compreender a vasta e histórica vida nesse planeta.

// Como é o seu processo criativo?

Não acredito em religiões, mas tenho meu jeito de me conectar, faço minhas próprias orações que acredito me ajudarem no contato com a força que vejo como divina em mim e no outro. Isso faz parte do meu processo criativo. Acredito que a criatividade é algo que brota também da minha relação com a vida ao meu redor e a oração faz esse link. Usando a minha intenção focada, grata pelo simples fato de ter consciência dessa intenção, é possível criar algo, seja o que for.

Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu gosto de contemplar. Observo as pessoas e suas criações, os bichos, as plantas. Estudo o céu, um pouco de astrologia, o Tantra, os ciclos terrestres. Procuro me sentir parte do todo, isso me mantém criativa. Estou sempre pesquisando músicas novas e elas são grandes fontes de inspiração. Sempre que posso saio de Sampa para colocar os pés na terra, no mar, nas cachoeiras. Procuro trocar e cooperar bastante também com artistas afins, amigas e amigos. Isso nutre.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Eu gosto bastante da aquarela e do desenho, que foi onde tudo começou.  Curto co-criar com os clientes as suas tatuagens, sempre tento incutir na pessoa que o desenvolver da arte é um projeto nosso, e não apenas meu, a não ser que seja exatamente isso que a pessoa queira. Mas sinto não ter uma preferência, minha preferência é mesmo o criar, a cada momento, pois sinto que isso me torna mais alegre e viva.

Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Desde criança tive contato com o oráculo I Ching, e por consequência o nome de Jung estando lá no prefácio me influenciou muito e influencia até agora. Encontros com mulheres (presenciais ou não) mudaram a minha vida. O estudo do livro Mulheres que correm com os lobos, da psicanalista junguiana Clarissa Pinkola me abriu um caminho. Comecei a estudar ele antes mesmo de ser tatuadora então tem mais de 10 anos, engraçado que foi um amigo que me falou desse livro e não uma mulher. Foi esse livro que me conectou com um grande marco na minha vida e no meu criar: o Projeto Mulheres da Terra,  que pesquisa parteiras, rezadeiras, benzedeiras, curandeiras e xamãs pelo mundo e para o qual desenvolvi a logomarca, e outras ilustrações e trabalhos.

Através do projeto conheci mulheres absurdamente maravilhosas no nordeste do Brasil, no Nepal e na Índia. Passei 4 meses viajando com o grupo e me aprofundando em questões e sabedorias que não estão nos livros, e que são patrimônio imaterial da humanidade. Também tive a honra de participar do 11o encontro das 13 avós nativas que aconteceu em 2011 no Brasil. Essas vivências mudaram absolutamente tudo dentro de mim, e passei a compreender a força feminina como algo inerente a vida e manutenção da mesma. Passei a perceber a grande influência destrutiva do patriarcado e do capitalismo nessa força natural e comecei a querer mudar as coisas a partir de mim mesma para o meu redor, na vida e na arte.

Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

As diferentes culturas desde a indígena brasileira até a indiana, perpassando pelo Oriente Médio, são grandes influências. Meus artistas preferidos são o austríaco Hundertwasser, simplesmente me emociona muito tudo que ele fez e o legado que deixou; e o Alex Grey, artista visionário que é vivo e segue inspirando. Desde o princípio a minha irmã, a tatuadora e ilustradora Isa Montenegro, me influencia e inspira. Acho que se não fosse por ela, eu não estaria onde estou fazendo o que faço. Os clientes com suas ideias também me influenciam.

Atualmente duas pessoas tem me influenciado muito: a Vanja Vuckelic, que é uma artista incrível e tornou-se uma irmã de alma a quem sou muito grata pelas trocas e o Lucas Cantoni, gravurista e tatuador que conheci recentemente e me apaixonei pelo que ele faz e como pensa a tatuagem. Também amo o trabalho das gêmeas do Uinverso, da tatuadora Aline Wata, da ilustradora Frances Cannon e do Bruno Pena Branca. Eita… tem pessoas lindas influenciando, hoje com o Instagram a comunidade artística está mais próxima e eu poderia falar mais um tanto de nomes maravilhosos aqui, mas não dá né? Tem outra inspiração que acho que nem preciso dizer, mas é a vastidão e os mínimos detalhes primorosos da natureza, claro. Tudo isso junto se reflete no meu trabalho de uma forma que não consigo muito bem explicar. É visual. Acho que vai depender do que estou criando no momento, do ciclo que estou vivendo, da lua, do sentimento, etc.

Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Eu nunca senti isso diretamente no meu trabalho, pelo contrário, sempre encontrei caminhos abertos e sou muito grata por isso. Quando encontrei obstáculos, não me deixei abater e nem relacionei ao fato de ser mulher, apenas contornei e segui, como a água. Mas sei que existe bastante disso sim e procuro estar sempre atenta em como posso ajudar a revolucionar e transformar essa realidade para que nós mulheres sejamos cada vez mais respeitadas e honradas em nossos ofícios.

// E o que te faz feliz?

Estar com os amigos e trocar experiências, falar sobre os sentimentos e situações buscando transparência; os mistérios da natureza, viajar, estar na mata sem luz elétrica, criar, dançar, andar de bike, remar… Brigadeiro, um balanço, hahaha

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Acreditem em si mesmas, primeiro de tudo. Crescemos em um mundo social que nos impõe muitas barreiras, ele não é natural, mas nós podemos ser, buscar conexão com nossa essência genuína. É preciso quebrar esses obstáculos para acreditar em si. Eu sempre falo para as pessoas assistirem um vídeo do TEDx ministrado pela escritora Elisabeth Gilbert que se chama “Your elusive creative genius” - ali ela fala sobre como a criatividade é uma força por si só, livre, que toca a nós todos caso estejamos atentos. Ela escreveu um livro bem simples e bacana sobre o mesmo assunto que se chama Grande Magia - recomendo. Acho que no caminho da experimentação, sem se julgar bom ou ruim, mas apenas seguir testando e descobrindo, muitas pessoas podem descobrir seus potenciais criativos, mas é preciso querer.  A arte se dá de diversas formas inclusive formas novas, ainda a serem inventadas. Sinto, e procuro incentivar isso nas pessoas ao meu redor, que temos um potencial criativo infinito em cada um de nós. Cada um enfrenta diferentes obstáculos nos caminhos para encontrar esse potencial, mas ele existe, como uma semente debaixo da terra ou como o caminho de um rio ainda por correr…

Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
Mariana Kuroyama por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim, na verdade estou em um momento de reinvenção dos meus métodos de trabalho. Pela primeira vez desde que vim para SP em 2009, tenho um ateliê de arte para criar novidades individuais e coletivas que vão além da tatuagem. Então estou em gestação desse novo, ainda não sei dizer o que vai nascer disso, mas aqui quero atender as pessoas com uma escuta maior a respeito do que querem tatuar e quero também desenvolver novas pinturas, ideias, parcerias, estudos e dança. E esse ano quero lançar um site, vender artes impressas e originais, fazer parcerias e ter um canal de comunicação a respeito do que faço e como faço a fim de apresentar meu processo de forma transparente para quem chega até mim.

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