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Mariana
Bandeira
Brasil
vivendo em Florianópolis . SC
26 anos . designer . ilustradora

Nasci em Goiás, filha de socióloga e fotógrafo/designer. Meus pais trabalhavam juntos em projetos culturais, sendo grandes influências na minha vida. Sempre foi uma preocupação deles levar minhas irmãs e eu à exposições, festas da cultura popular, teatro, livrarias...

Minha cidade natal Anápolis não tinha uma livraria, então ir até Goiânia pra escolher e comprar livros era, pra mim, um evento, que eu amava muito.

Esse contexto contribuiu para minha paixão pelos livros. E por essa mesma paixão, decidi cursar Design Gráfico para participar do processo de pensar e desenvolver livros.

Em 2015, fui convidada para um intercâmbio em Paju Book City, cidade do pólo editorial da Coréia do Sul, na faculdade PaTI - Paju Typography Institute e essa experiência me aproximou de meu desejo por ilustrar. Atualmente me interesso muito pela relação texto-imagem, expressão visual, estruturas visuais do pensamento, livro como objeto e fronteira entre a arte e o design.

Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

As canetinhas foram muito importantes no meu processo de libertação no desenho. Com elas, como não poderia apagar, me liberei da possibilidade de errar. Sigo desenhando com canetas variadas até hoje. Outros materiais que gosto são marcadores brush coloridos, pincéis de sumi-e, nanquim líquido e meu recente amor à primeira vista: ecoline.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Sinto uma necessidade de me expressar visualmente através do desenho. Esse desejo de exteriorizar pensamentos e sentimento, quando realizado, vem acompanhado de uma espécie de cura e é minha maior motivação para criar.

Memórias e a leitura me inspiram muito. Mesmo que aparentemente não, memórias e vivências específicas me guiaram até ali. Meu projeto mais recente de desenho de insetos partiu da lembrança de receber do meu avô, quando criança, uma pequena coleção de insetos. Senti uma mistura de admiração e estranheza, aquilo me marcou.

Tenho fascínio pela habilidade de outros artistas e escritores de se expressarem através de palavras dispostas de maneira sequencial. Quando leio, inconscientemente também faço uma leitura visual do peso das palavras e isso me inspira a criar imagens.

Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Tanto em projetos próprios ou em pedidos, faço brainstorm de palavras-chave e às vezes as categorizo pra entender melhor a relação entre elas. Normalmente existem temas que estão na minha cabeça por um tempo, sempre pesquiso sobre eles, vou salvando referências ao longo do tempo. Organizo minha mesa de trabalho e os materiais que vou utilizar, coloco uma música e de alguma forma o desenho acontece.

Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Refletir, conhecer trabalho de outros artistas, ter conversas loucas, mas também passar tempo sozinha. Também é importante pra mim me aventurar em outras formas de expressão, como cantar, tocar ukulele e estudar piano pelo Youtube (risos).

Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Um dos meu projetos preferidos é o 3 Contos Ilustrados de Bernardo Élis. São três livros diferentes dos contos “A mulher que comeu o amante”, “Nholá dos Anjos e a cheia do Corumbá” e “O menino que morreu afogado”. Bernardo Élis era escrivão da delegacia criminal de Corumbá de Goiás e escrevia contos de suspense baseado nesses causos. O projeto gráfico e ilustrações foram baseados na relação texto-imagem e tradução visual das emoções descritas no texto.

Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Morar na Coréia do Sul, num contexto cultural e de produção diferente dos meus, foi literalmente conhecer e se adaptar a um novo mundo. O PaTI - Paju Typography Institute foi criado pelo designer e tipógrafo Ahn Sang-Soo como alternativa ao sistema educacional coreano, que por questões de ritmo acelerado e relações hierárquicas entre professores e alunos, ele acreditava não ser propício ao verdadeiro desenvolvimento criativo. O lema da escola é 천천히, que significa “devagar" e os alunos sempre são encorajados a exercitar a análise e assertividade descrevendo seus processos criativos por trás de cada projeto realizado. Me comunicar pela primeira vez sobre meus processos criativos em outra língua e ser interpretada também pela segunda língua dos meus colegas foi uma experiência desafiadora. Esses 3 meses, que pareceram um 1 ano de tanto aprendizado, me ensinaram a ser independente, tomar decisões e confiar mais em mim.

Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Na música, Patti Smith além de ser uma escritora maravilhosa, me inspira muita com a sua expressão vocal e a intenção com que ela canta cada palavra. O que ela faz com voz eu gostaria de fazer com o desenho.

Algumas características essenciais do trabalho do meu pai Antonio Miguel Bandeira, como referencial simbólico e expressividade do traço, também são a base da minha produção. Também foi ele quem me apresentou ao trabalho do Basquiat, que me inspira muito na intensidade e presença visual da emoção.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

É cada vez mais clara a quantidade de barreiras a serem superadas simplesmente por ser mulher nesse contexto social. Se expressar livremente sem julgamentos é uma delas.

Somos orientadas a ponderar muito e relevar muito ao mesmo tempo que somos seriamente cobradas por perfeição em diversos aspectos. Isso dá muita margem para excesso de auto-crítica e bloqueios, inclusive expressivos. Já sofri com esses bloqueios e às vezes ainda me pego fazendo isso, mas me sinto cada vez mais consciente e confiante para me expressar, é um processo.

Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Ter descoberto algo que amo fazer, ser cada vez mais consciente das minhas escolhas e decisões, participar de feiras independentes, conversar com muitas pessoas, ter a oportunidade de conhecer novos artistas, pensar em novos projetos, desenhar o que eu tiver vontade, cantar e ler livros me fazem feliz.

Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Ouvir sua intuição e necessidades como artista. Se libertar do medo de errar, se abrir ao novo e tomar seu lugar. Não se limitar, ser desbravadora.

Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
Mariana Bandeira por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim! Estou desenvolvendo um mini guia da cidade de Seul em conjunto com a artista Mona Borelli. Nos tornamos amigas a partir da nossa paixão em comum pela Coréia do Sul.

O mini guia é composto de uma mistura dos principais pontos da cidade com lugares que foram importantes pra nós e é graficamente experimental. Será lançado na Feira Plana no fim de março, nos visitem!

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