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Mara
Oliveira
Brasil
vivendo em Niterói . RJ
34 anos . designer . ilustradora

Tenho 32 anos e sou mãe de um guri de 7. Nasci em Brasília, e em 2008 fui morar no interior do Rio, em Campos dos Goytacazes. Há pouco mais de um ano vim morar em Niterói. Resolvi que seria ilustradora no mesmo período que meu filho nasceu, entre 2009 e 2010, depois de desistir de outros 4 cursos. Acho que a minha vida começou ali.

Mara Oliveira por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Aquarela, lápis, grafite, as texturas do grafite, as linhas, o lápis de cor, o computador, Illustrator e Photoshop. Também tenho experimentado alguns trabalhos manuais como o bordado e pequenas peças de porcelana fria (biscuit). O trabalho artesanal é uma paixão antiga. Sempre flertei com essa possibilidade e aos pouco estou experimentando de tudo um pouco, sem ansiedade e sem muita expectativa.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A ilustração é também o meu trabalho, então eu tive que aprender a olhar pra ela de duas maneiras, primeiro, ela paga as contas, segundo, ela me mantém viva diante dos meus dilemas existenciais, da minha necessidade de compartilhar o que acredito, minhas ideologias. Então acho que posso dizer que a minha maior motivação é a sobrevivência, para os dois contextos.

Essa questão da inspiração é bem debatida, né?! Acredito, cada vez mais, que inspiração é uma coisa que acontece quando você se coloca em movimento constante (consistência). Ou seja, eu tive que aprender a desenhar todos os dias com algum propósito. Isso não quer dizer que você vai criar coisas maravilhosas sempre, isso quer dizer que você vai criar mais chances para que pequenas fagulhas aconteçam (ou um fogaréu) . Mas de uma forma geral o trabalho artístico fala muito do que a gente é, das nossas urgências existenciais e ideológicas, não dá pra fugir disso. Até quando reproduzo apenas uma tendência ou algo nesse caminho, isso também diz muito sobre mim, então acredito que tudo o que eu sou e o que experimento vira referência.

O feminismo e as questões sociais são temas que entraram na minha vida como um furacão em 2012, e foi um auê enorme. Ficou difícil ignorar as transformações que aconteceram comigo e a maneira como eu passei a olhar para a sociedade e para a minha própria vida. Mas acho que tudo no cotidiano é inspirador: as pequenas coisas, as nossas buscas pessoais, nossos sonhos. Eu sonho demais, então é natural que a fantasia também esteja presente como uma espécie de contemplação, de pausa na realidade. Olhar para a violência que te cerca dói muito, então eu vivo dividida entre esse mundo da docilidade e do subversivo, e vivo também com essa necessidade muito forte de falar sobre o injusto, de ter um posicionamento e de ser “útil”, digamos, mas ainda não sei se consegui chegar lá. Sei apenas que é necessário que a força conviva com a leveza, se não a vida não é possível. Hoje eu trabalho muito com a perspectiva de liberdade e renascimento das mulheres, mas sigo nessa balança tentando me encontrar e encontrar novos caminhos.

Mara Oliveira por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Fico admirada com pessoas que se sentem plenamente felizes ou em paz com o seu processo de criação. Eu sinto TUDO quando tô ilustrando: medo, calma, agitação, coragem. É sempre uma experiência inesperada.

O processo, propriamente dito, sempre começa com pesquisa. O tempo que eu levo nessa etapa depende do tamanho e do prazo que o projeto tem. Eu amo conhecer, por exemplo, a origem das coisas, a etimologia das palavras, a história por trás de tudo. A etimologia das palavras é uma coisa fascinante, é como se eu pudesse enxergar uma palavra mais ou menos como imagens sobrepostas, com seus símbolos e significados. Enfim, eu simplesmente amo esse aspecto, é quando as ideias ficam borbulhando. O passo seguinte é organizar no papel tudo que está no campo das ideias. Começo a parte de referência visual, vou pra internet, para o Pinterest, vejo filmes, dou uma passada na livraria, no sebo, ando na rua, em parques, enfim, fico rodeando os testes, olhando de vários ângulos, e converso também com as pessoas. É um momento mais aberto e menos solitário, digamos. E por último as soluções começam a surgir. Essa parte é solitária e eu sofro bastante. Toda vez penso que não vou dar conta. São raríssimas as vezes que me pego dizendo algo positivo como “mandou bem, Mara”. É quase sempre um drama, tipo: "nunca mais pego projetos assim”. Mas no fim dá tudo certo.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tenho um filho de 7 anos. A maternidade pode ser pesada, e por vezes pode nos embrutecer um pouco, mas se olhar bem (e devagar) a gente vê muita coisa bonita nesse processo. A infância do meu filho me conecta com a simplicidade e com a capacidade de acreditar nas coisas mais improváveis. Tudo que eu vivo me mantém criativa, mas a verdade é que a gente precisa criar situações para que coisas interessantes aconteçam no nosso dia a dia, como eu falei antes sobre inspiração. Se você espera que coisas aconteçam para que enfim você possa criar algo, então você vai viver do acaso. Há 7 anos eu desenho praticamente todos os dias. Há pouco mais de 1 ano eu desenho com propósito e consistência, e isso mudou tudo. Me manter criativa é também uma escolha.

Mara Oliveira por Projeto Curadoria
Mara Oliveira por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Atualmente estou gostando muito de um projeto que acabou de sair do forno, o zine: Mulheres Reais Não Existem. Ele fala sobre ser mulher e usei como base minha experiência. Me inspirei também em amigas, na minha mãe, minhas irmãs, enfim, em histórias que conheci de perto.

Mara Oliveira por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O momento mais significativo na minha carreira, foi também um momento de muitas transformações pessoais. Passei por uma mudança grande no final de 2014 quando descobri que tinha Síndrome do Pânico e comecei a fazer terapia. Quase simultaneamente tive que passar por outras situações complicadas, que envolvia, a descoberta da violência psicológica dentro de um relacionamento e a mudança de cidade que eu fiz com meu filho. Diante disso muitas coisas foram adiadas e ajustadas, por exemplo, me formar na faculdade de Design Gráfico e abrir mão do escritório/estúdio que eu tinha acabado de montar com uma amiga. Foi uma avalanche de situações que envolviam deixar tudo para trás e recomeçar do zero, e acredito que a terapia me salvou de muitas maneiras nesse processo. Aprendi a me reconhecer em tudo o que eu fazia, na ilustração, na maternidade, no meu relacionamento com as pessoas, minha família. Todo esse movimento de autoconhecimento está aparecendo aos poucos. Relacionamentos abusivos podem levar anos e é algo difícil de entender, a única coisa que se enxerga é a culpa. Alguém faz com que você se maltrate e duvide de si mesmo, engatilhando um ciclo de auto sabotagem que é um tanto complicado de sair. Isso vai acabando com a autoestima e com o reconhecimento de nossas próprias potencialidades. Muita coisa já foi digerida mas ainda estou aprendendo a ser livre e aprendendo também a não aceitar a culpa sem ao menos questionar. Quando eu falo de renascimento eu estou falando de resistência, de luta, de força e de potência criativa, e isso, sem sombra de dúvidas, é um reflexo das experiências que eu vivi nesse período. Meu trabalho, portanto fala desse processo de aprendizado, do que eu desejo para outras mulheres, e também de amor próprio.

Mara Oliveira por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Acredito que a minha principal influência hoje seja mesmo a questão das mulheres, mas ainda carrego a influência dos trabalhos que me acompanharam no início da minha carreira. Comecei a ilustrar com referências voltadas para produtos. Sempre amei papelaria e esse era o meu lugar preferido no mundo quando criança. Quando entrei no curso de design gráfico eu pretendia fazer coleções de estampas para o mercado de scrapbook e de bugigangas de papelaria em geral. Um dos meus primeiros trabalhos “publicados” foram estampas para tecidos. Também cheguei a ter um pequeno negócio com uma amiga da faculdade, a gente fazia sketchbooks e coisas de papelaria, tudo com uma pegada artesanal, mas durou pouco tempo. São muitos os artistas que me inspiram, e não são só ilustradores. Tem um livro que marcou muito minha trajetória, que se chama As Boas Mulheres Da China, da autora Xinran. Lembro de ter ficado muito comovida com as histórias, e passei dias refletindo sobre aquilo. Foi a primeira vez que eu pensei: “como é difícil ser mulher, mas como é difícil ser mulher também em outros lugares”. A leitura me conecta de forma muito significativa com o meu trabalho. Xinran, Clarice Lispector e Eduardo Galeano são os autores que sempre me tiram do eixo mas ao mesmo tempo me encantam.

Sobre ilustradores e quadrinistas, a lista é grande , mas não posso deixar de citar alguns nomes: amo o formato dos personagens da Mariana, a miserável (ela já começa quebrando tudo com esse nome, né?! rs), a temática, o humor e o traço da Marjane Satrapi são imbatíveis. Tem também a maravilhosidade do texto e do traço da Lorena Kaz e a forma como a Isabelle Arsenault usa os elementos e o grafite; o traço livre da Ana Matsusaki, a simplicidade arrebatadora do Oliver Jeffers, a produção intensa e cheia de vida da Sonia Lazo e a simplicidade da Marianne Engedal. A fantasia do Guilherme Petreca, as narrativas do Craig Thompson, os temas de conflitos no Oriente Médio do Joe Sacco e a expressão visceral da Sirlanney (Magra de Ruim), são todos espetaculares. Não posso deixar de citar também a arte digital e as cores da Camila Rosa, as cerâmicas da Miriam Brugmann, e das gêmeas Liv & Dom. Tem também uma galera mais da “arte de museu”: Niki de Saint Phalle, Yoko Ono, as Guerrilla Girls, e claro, Frida. Vale muito a pena conhecer a história desse pessoal!

Mara Oliveira por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Com certeza existe, e podemos falar disso sob diversas perspectivas! Já me disseram, por exemplo, que era desnecessário desenhar mulheres nuas para falar de liberdade, que isso era contraditório, já que o nu é visto de forma imoral. O cara que me disse isso é o mesmo cara que “consome” hentai e outras pornografias que retratam a mulher como um objeto e em situações de violência, como a apologia ao estupro ou à pedofilia. Ou seja, não tem a ver com ser ou não ser “necessário” desenhar mulheres nuas, o que eu não posso fazer, na perspectiva do sujeito, é desenhar um nu que não seja voltado para o consumo dele ou do público masculino em geral.

Eu sinto o preconceito me espreitar de muitas as formas, e mesmo que isso não converse diretamente com o meu trabalho, acaba me atingindo também. Mas pra falar de algo mais específico, vou usar o exemplo de uma experiência que tive há pouco tempo. Participei da minha primeira feira de arte independente aqui em Niterói esse ano, e era tudo novo pra mim. Mas ainda estou refletindo sobre a reação do público masculino. Percebi que a maioria deles se incomodaram de alguma maneira com a forma com que as mulheres são representadas na minha arte. O que pude perceber é que os homens se aproximavam com um ar de avaliação, enquanto as mulheres, ao contrário, chegavam com uma atmosfera de acolhimento. A sociedade ainda está se acostumando com a ideia de mulheres ocupando espaços e se expressando livremente.

Mara Oliveira por Projeto Curadoria
Mara Oliveira por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Gargalhadas, o pudim de leite que só a minha mãe faz, desenhar com medo e me surpreender com o resultado, desenhar com coragem, a força e a união das pessoas diante das injustiças, o entusiasmo do meu filho quando ele acaba de descobrir algo novo. Me faz feliz também ver amigas e mulheres da minha família que estão se levantando contra o machismo, a despedida da minha avó no telefone (beijo, beijo, beijo). Meus gatos de barriga pra cima, longas conversas com amigos queridos e aquele estado de satisfação que a gente tem quando está de bem com a vida, mesmo que nem tudo esteja perfeito.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Deixe os ruídos externos e alheios passarem por você apenas como uma possibilidades de aprendizado, e não como uma sentença. Quando decidir o que quer ser, então seja isso todos os dias, até que essa coisa e você não tenha mais uma distinção e tudo seja uma coisa só. Escolha sobre o que quer falar e FALE. Converse com seus amigos e com estranhos também, se abra para a troca de novas experiências. Respeite seu próprio tempo, ele não precisa ser igual ao tempo dos outros. O trabalho maravilhoso do colega quase nunca é sinônimo de que o seu é uma porcaria; frequentemente é apenas uma experiência diferente da sua. Mas aceite que às vezes o seu trabalho fica mesmo uma porcaria e saiba apenas diferenciar e usar isso a seu favor. Pratique o desapego. Se abrace.

Mara Oliveira por Projeto Curadoria
Mara Oliveira por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho dois projetos em andamento, o primeiro é um livro ilustrado que eu fiz no Inktober de 2016, que se chama "Quase Nada, Só Tudo", que fala da minha experiência com o transtorno de ansiedade. E o outro chama-se "Bodoque", que é um livro só de imagens que fala sobre o conflito no oriente médio entre Israel e Palestina. Esse livro é o resultado da minha pesquisa de graduação, que está em andamento.

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